Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

terça-feira, 6 de março de 2012

Sumário triste


Foi hoje a enterrar o Pai de uma amiga.
A história do nosso dia resume-se, no essencial, a esta forma máxima de violência.
Beijinho para a I.

Ribeira de Pena, 06 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na wikipédia.]

segunda-feira, 5 de março de 2012

Quadras de Língua


Grato à língua portuguesa
Ao meu dicionário essencial
De alegria e de tristeza
De sonho e de real

Grato à língua de Pessoa
Por nela se inscrever esta verdade
Do pássaro que sou e do que voa
Fora de mim em liberdade.

Ribeira de Pena, 05 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (retrato de Pessoa, 1914) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.tertuliabibliofila.blogspot.com.]

domingo, 4 de março de 2012

Ser poeta


Nenúfar, fragilmente permaneço
À superfície perigosa do destino:
À mínima brisa estremeço
E ao mínimo sol me ilumino.

[A imagem (pintura de Monet) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.encostadomar.blogspot.com. ]

sábado, 3 de março de 2012

Na margem, à margem


Fatalmente sportinguista, mas também adepto do futebol em geral, lá televi - como fez maioritariamente o rebanho português - o jogo entre Benfica e Porto. Um grande jogo, diga-se, manchado pelo erro (inexplicável) do auxiliar que permitiu o terceiro golo da equipa azul & branca. Seria justo e bom, em meu entender, que houvesse um empate; logo, foi triste e mau que uma das equipas ganhasse, para cúmulo num lance de fora de jogo.
Que tem isto de relevante para eu lhe dar espaço e voz no "Muito Mar"? Tem: a circunstância de esta condição de sportinguista me tornar uma espécie de espectador extraterrestre, ali no meio do acontecimento sem ter nada que ver com ele. De, perante o evento mais importante do dia, eu estar, como Maicon, fora de jogo.
Nem sempre é mau residir numa rua marginal, atenção. Mas, muitas vezes, aborrece e cansa. Aborrece e dói.

Ribeira de Pena, 03 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na net, via Facebook.]

sexta-feira, 2 de março de 2012

Mundo nos eixos


À mesa do Café por uma hora
Está o mundo nos eixos, a dor
suspensa o fim adormecido
os meus olhos mansamente detendo tudo
quanto do mundo cabe no verbo olhar
(incluindo o que não chego a ver)

Na parede sobre mim um relógio
funciona tão lentamente como se afinal não
e uma ou outra beleza cruza este espaço
(como eu ignorando o tempo passando)
Isto é, mulheres desenhando-se no horizonte
como estátuas vivas, retratos formosos
De pernas e outras perdições com carne e luz
Isto é, Senhor, o mundo nos eixos

A minha Mãe está doente (melhorzinha,
garantiu-me) mas prefiro ver por enquanto
o sol, a mansa cor de Março sobre a vila do Arco
a quase paz que é este arremedo de Mar com montes
e os minutos deste relevo como ondas dormindo

O mundo nos eixos, sabei, uma ideia minha
Talvez arredada (talvez) da realidade
da crua infelicidade fisiológica de sermos
humanos, da vida enfim em seu esqueleto mínimo
Do mundo sem sonhos

O mundo nos eixos (minha Mãe, falamos
mais logo), embora a hora passe e o relógio
sobre mim não leia poesia.

Arco de Baúlhe, hora d'almoço, 02 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.fotos.estadao.com.]

quinta-feira, 1 de março de 2012

Foste aumentado. Ai, não, desculpa - era engano


Telejornal das vinte horas. A notícia fala de um erro da Câmara Municipal de Setúbal que, em 2009, terá aumentado indevidamente cerca de 400 funcionários. O aumento foi, segundo percebi, de 40 Euros (mais ou menos). A Inspecção das autarquias exige que os trabalhadores devolvam um total que pode chegar, de acordo com testemunhos, a dois mil Euros. As pessoas, entre incrédulas e revoltadas, falam da impossibilidade de fazer face a esta "dívida" (de que não têm, note-se, culpa alguma). Para já, o vencimento passa de (creio) cerca de 620 Euros para cerca de 580. Um dos ex-beneficiários do aumento quer desabafar perante o jornalista e, devido a soluços e lágrimas, não consegue. Lá atira, numa espécie de sussurro, que não pode, que não consegue, que tem dívidas. Ao falar das dívidas, parece tapar o rosto, talvez com vergonha.
Passa-se tudo num país chamado Portugal. O mesmo país em que há certos públicos e certos público-privados a ganhar, mensalmente, mais de cinco-dez-quinze-vinte mil Euros.
Um país com o coração e a noção de decência daquele triste sadino arrepiaria caminho - ou, pelo menos, faria como fez o trabalhador: taparia, com vergonha, a puta da cara.

Ribeira de Pena, 01 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.futebolvsmulher.blogspot.com.]

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Aula de literatura


O meu pai ia, muitas vezes, beber cerveja ao Café "O Rio", ali junto à Estação Velha. O Daniel Abrunheiro viu-o pela última vez nesse lugar, sem saber que era a última vez. Lembrando-se disso, afirmou-me, pelo telefone, em geniais versos de língua portuguesa, que o Café "O Rio" se chama (se deve chamar), agora, Horácio. Portanto: que o meu pai, senhores, não está morto, tirando esse simples facto de aparentemente não o vermos. Que está, senhores, infinitamente vivo nas palavras (minhas, do Daniel ou do latino Horácio) que o dizem, que me o dizem.
E era preciso a muitos professores de literatura que soubessem desta verdade essencial sobre os versos e a vida.

Cabeceiras de Basto, 29 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Amor é


O amor é uma ave nunca bem pousada
Na árvore da nossa vida:
Vemos a sua sombra antes da chegada
Ou a sua falta depois da partida.

Ribeira de Pena, 28 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.queirozclarc.blogspot.com.]

Avenida da Noruega


Eu subo e desço as escadas
Dos meu dias aziagos:
Tantos dias são maçadas
(Muito poucos são afagos).

Às vezes, subo encantado
Às vezes, desço cansado
Às vezes o inverso disto
(Às vezes, quase desisto)

Subo escadas, desço escadas
(Vivo no segundo andar) -
Quem me dera em vez de escadas
Um céu grande p'ra voar!


Ribeira de Pena, 27 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (escadas monumentais, Coimbra) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.inebra.blogspot.com

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Mãos de Pai


Em 1970, na barrinha de Mira, aprendi a nadar de costas. Na gloriosa estreia desta competência nova, dei por mim afastando-me de terra e, com alguma preocupação, fui vendo os rostos da Mãe, do Pai, dos irmãos Tó e Fátima cada vez mais longínquos. Quis dar meia volta e não consegui. Assustei-me, tentei pedir ajuda. Nada. A aflição paralisou-me braços e pernas, a água escondeu-me de toda a gente, senti ali a vida a deixar-me docemente.
“A morte”, podia eu ter pensado.
Mas não. Uma mão forte levantou-me, arrancando-me dali. O meu Pai, que não sabia nadar, senhores, salvou-me a vida com a precisão e o brilho de um herói de cinema.
Tenho-me lembrado muitas vezes do meu Pai. Porque o amo apesar de morto (assim o salvando de estar morto). E porque todos os dias há traiçoeiras águas em que, por culpa nossa ou alheia, caímos, ficando a faltar-nos uma mão que nos ajude, nos salve. A mão de um Pai.

Ribeira de Pena, 26 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (Barrinha, Praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dganodontacygnea.blogspot.com.]

Lírico-didáctica levemente optimista


É poeta todo o professor
Tecedor de humanidades melhoradas:
Diz escreve ensina em seu labor,
Às almas que em si buscam, confiadas,

As sábias palavras do rigor,
Tudo quanto ele sabe d'existir.
É poeta todo o professor
E o seu tempo verdadeiro é o Porvir.

Vila Real, 25 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.soseducacaopblica.blogspot.com.]

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Oração de graças


Bem-vindo sejas, sol, que me trouxeste
Um dia luminoso, um dia assim -
Rezei por ti à noite e tu vieste
Inteiro e limpo residir em mim.

Ribeira de Pena, 25 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ecomuseuribeiradepena.blogspot.com.]

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Felicidade


Jornada difícil, penumbrosa, comigo mergulhado naquela névoa de estar doente e, tanto quanto pude, cumprindo os meus deveres funcionários.
Ao final da tarde, lá fui - como quem vai à missa - ao ritual do euromilhões, confiar a minha fortuna aos eurodesígnios de Deus Nosso Senhor. Um homem, decerto agricultor, ri-se de uma piada sobre o jackpot e atira: "A mim já me bastava que chovesse..."
É quase noite quando subo os degraus de casa, antecipando já a volúpia da minha cama e de um livro ou um jornal. Chego cheio de uma sede que me acompanhou durante o inteiro dia.
Beijo na MP, telefonema para Coimbra, água.
Persiste a sede. Troco olhares com duas lindas tangerinas. Sacio-me delas. O mundo parece agora um lugar mais amigável.
E enfim surge-me a metáfora que iluminará o bilhete postal: a felicidade é estar em casa e haver tangerinas.

Ribeira de Pena, 24 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.naranjasdelarosa.es.]

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Interrupção


Demora o calor. Vai-me com a idade sendo mais difícil suportar o frio das manhãs, das tardes, das noites. O meu corpo produz muco nasal com a fúria de uma dívida grega ou lusa. Tusso muito, tenho arrepios, uma espécie de gripe anda teimosamente por mim, indo e vindo, cabra. O trabalho, assim, custa mais. Levantar-me é uma violência hiperbólica e anima-me apenas a ideia de que já-já (quero dizer, daqui a umas dez horas) volto para o único lugar da terra que verdadeiramente me apetece: a cama.
Esta (in)existência horizontal, em tempo de saúde frágil, é uma espécie de treino para a morte. Bebe-se um chá muito quente, esfrega-se o peito com álcool, fecha-se o olhar e abraçamo-nos à anestesia da noite. Vida suspensa.
Amanhã estarei bem, penso pouco convictamente. Peço desculpa por esta interrupção. O sol seguirá dentro de algumas horas.

Ribeira de Pena, 23 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Ruas vistas d'agora


As ruas de Coimbra são recordações
De mim antigo dono desta cidade
Ainda muito virgem de desilusões
E mortalidade.

Vila Real, 22 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]