Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Alface


Uma alface com o vício das deputices, que fala da vida como se já tivesse verdadeiramente vivido, explicou que a mobilidade de funcionários é boa e é justa. Disse-o com um ar blasé de alface chique, e com a mesma segurança que já exibia enquanto jotinha.
Não tenho tempo nem paciência para lembrar à alface que, mesmo quando (ou se) alguma razão nos assista no argumento, é preciso decoro ao falarmos de gente, de homens e mulheres de carne e osso com os pais a cargo, a prestação da casa, o crédito de palavra dada na mercearia da esquina.
Mas fica aqui o voto de que à frescura da actual juventude suceda, na alface, o castigo do general Tempo - e essa existência vegetal sofra, no futuro, a justiça poética que merece: talvez uma mobilidade que o leve para muito longe da sua "zona de conforto" e em que se perceba, à roda da insignificância que é, o asco e o desprezo gerais.
Vai trabalhar, alface!

Vila Real, 21 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Relação fotográfica de existências


Nesta minha cidade proliferam
Ervas daninhas, cocós caninos
Nos passeios, desempregados que esperam
Vez à porta do instituto, meninos

Romenos pedindo a bem ou mal
Odores de urina junto ao Mondego
Buracos na estrada com e sem sinal
E velhos inexactamente em sossego.

Mas há lindas laranjeiras também
E o colo ainda de minha Mãe!


Coimbra, 20 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.anavitri.blogspot.com.]

Arte poética (sobre o bom leitor)


A vida que escrevo é signo
De outras vidas como a minha
Quem de mim for leitor digno
Lerá de si cada linha.

Coimbra, 20 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (a figura do imorredoiro Cesário Verde) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.poetanarquista.blogspot.com.]

Quadra a pensar em Trindade Coelho


Do que eu preciso, senhores
Mais do que dinheiro ou livros sábios
É de acreditar nos amores
E de certos beijos certos lábios

Coimbra, Rua Trindade Coelho (interior da Nissan Primera), 20 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (retrato de Trindade Coelho) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.estrolabio.blogspot.com.]

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O meu rio Mondego


Sei de outros rios, mas o meu
Chama-se Mondego, é desse
Que tenho saudades, é nesse
Que penso a caminho do mar

Vi tantos rios, já, em minha vida
E muitos me comovem, a beleza
Não se limita aos rios familiares
(Às vezes é até o contrário)

Mas o meu rio é este cúmplice curso
De água, este leito comigo reflectido
Esta antiguidade para sempre contemporânea

O meu rio chama-se Mondego, o meu rio
Tem por dentro em vez do nome a expressão
Meu rio. O meu rio chama-me.

Coimbra, 19 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vdeguaratiba.blogspot.com.]

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A vida num parágrafo só


Coimbra, enfim. A minha casa, o beijo na VL, a (também) minha casa da mãe, o beijo na minha origem, outro na minha irmã, outros nos sobrinhos, boa tarde à vizinhança, abraço a cunhado, corrida no Choupal, churrasco em casa do irmão mais novo (contas à moda do Porto), Real Madrid na Sport Tv, uma anedota sobre um casal num parque de campismo nudista, o Conceição a chamar-me (amigavelmente, como é costume) “chato”, a minha mãe com um ar cansado mas sereno. That’s life. E não é mau nem pouco.

Coimbra, 18 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (relativa à série Family Ties que ando - ah, pois ando - a rever) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.familyguy.wikia.com.]

História breve da minha consciência social


Quando eu era criança, a riqueza de cada um de nós media-se em coisas muito diferentes dos modernos telemóveis, ipodes, tabletes, gadgets, videojogos, etc. No meu caso pessoal, toda a gente sabia que era milionário de uma tribo inteira de índios em miniatura e de uma inteira cavalaria às ordens de Daniel Boone.
Um dia, talvez por causa de alguma consulta médica a que a minha mãe não pôde faltar, tive de levar aaquela riqueza infantil para casa de uma tia ainda solteira, empregada fabril e sempre alegre. Por horas daquela tarde inteira, brinquei sozinho (isto é, com os meus cowboys e os meus índios) aos raptos, aos recontros militares, às emboscadas, à concepção arquitectónica de fortes e de acampamentos. Até chegar a minha adorada mãe e eu voltar para o lar essencial que gloriosamente éramos. O problema foi que me esqueci, em casa de minha tia, dos bonecos. Antes que chorasse, a minha mãe prometeu que no dia seguinte a dita fortuna estaria de novo comigo.
Aconteceu que, no tal dia seguinte, a minha tia recebeu a visita do patrão e sua esposa (acompanhados de uma criança de uns cinco anos). A meio do chá e das torradas de cortesia fabril, o filho dos patrões descobriu os meus bonecos e exigiu-os. E a minha tia, a pensar no emprego, deu-lhos.
Nesse dia, à noite, inacreditando no que sucedera, odiei a minha tia o mais que pude (e era muito).
Anos depois, nunca esquecendo aquela tragédia, odiei o miúdo mimado e os seus pais.
Finalmente, odiei a imperfeição do mundo que leva as melhores pessoas a fazerem tanto mal umas às outras.

Coimbra, 18 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.lista.mercadolivre.com.]

Café de arredores


Gosto de periferias
Da social confusão
Que é ver estas duas tias
E a puta ao mesmo balcão.

(Não explico poesias –
Não é aqui minha função):
Tomai estas ninharias
P’ra vossa interpretação.)

Coimbra, 18 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (quadro de Edward Hopper) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.leodambiga.wordpress.com.]

Olhar, ver


Da minha casa ao Café
Ando cem metros de rua
Quase nada vejo ao pé
Mas vejo, inteira, a lua.

Coimbra, 17 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida,com a devida vénia em http://www.titividal.com,]

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

E a dicção, Senhor?


Na interminável discussão sobre o novo acordo ortográfico, tem faltado quem fale de um território fundamental da língua portuguesa: a (boa) dicção.
Em boa verdade, o argumento de que esta ou aquela consoante já não se pronuncia (ou já quase não se pronuncia) cairia pela base se se sublinhasse simplesmente, "a montante", a necessidade de se falar bem. Antes do respeito ortográfico pelo modo mais usual de pronunciar as palavras, ó senhores, valeria a pena lembrarmo-nos do respeito pela maneira correcta de se pronunciarem as palavras.
O acordo ortográfico vem, por assim dizer, "premiar" os maus falantes do Português (os que comem e atropelam sílabas, emudecem - à força - vogais sonoras, "consonantizam" a língua).
De vez em quando, lembro-me de um senhor professor universitário que, na televisão, depois de atabalhoadamente explicar o fenómeno da dissimilação, anunciou que pronunciar "vizinho" ou "ministro" estava errado; segundo a sumidade lisboeta, deveria antes pronunciar-se "vezinho" e "menistro"... O esquema mental é o mesmo: a norma parece seguir os que, por preguiça ou incúria, falam mal.
No meu quotidiano, a maioria das pessoas que tenho ouvido defender o novo acordo ortográfico são, quase invariavelmente, os que sempre escreveram mal. Penso: afinal, o que lhes interessa deve ser, acima de tudo, que a questão da ortografia seja relativizada. Que valha tudo. Desse modo, acreditam, a sua brutidade lesa-língua pode tornar-se, nesta contemporaneidade generosa, uma cena aceitável, fixe, modernaça.

Ribeira de Pena, 17 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (recordando Fernando Pessa, locutor dos tempos em que era obrigatório, na rádio e na tv, ter boa dicção) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.jcmaximinofotos@blogspot.com.]

Visão do país (à moda de Medina Carreira)


País obscuro
País desesperado
País sem futuro
País passado

Ribeira de Pena, 17 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vaderetro-hurtiga.blogspot.com.]

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ler para quê (argumentário minimalista)


Ler é talvez
A melhor solução
Para a estupidez
E a solidão.

Ribeira de Pena, 16 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é do filme (já referido várias vezes neste blogue) A história interminável.]

Dia bom


Não é, nunca foi meu aluno. Percebi, ao longo de anos, desde que ele apareceu pela escola, pequenino e frágil, que se tratava de uma criança irrequieta. Entretanto, deveio (diz-se) adolescente conflituoso. Entretanto, um quase homem com futuro incerto. Contudo, não sei explicar porquê, houve sempre entre mim e este conterrâneo da escola a comum respiração de um oxigénio respeitoso e divertido. Cumprimentávamo-nos a cada dia com aquele bonomia cúmplice que existe, julgo eu, entre contemporâneos felizes de o serem.
Um destes dias fui transeunte involuntário de um seu dia mau: ele discutia furiosamente com um colega, eu intervim, a conversa tornou-se acesa, depois discussão, eu fiz o papel da autoridade adulta que não admite, que avisa, que ameaça. Professor, senhores.
No dia seguinte, cruzámo-nos e ele desviou a cara, dispensando-se da saudação habitual. Se eu fosse um saudável bruto, aquilo não me incomodaria. Incomodou-me, porém.
A meio de uma tarde, avistei-o numa das minhas pastelarias-escritório. Talvez não me tivesse visto. Interpelei-o. Ele deve ter pensado que eu me aprestava a debitar novo sermão e por pouco não me virou as costas. Chamei-o e perguntei-lhe se estava zangado. Murmúrio ininterpretável. Garanti-lhe, a seguir, que tinha de si boa impressão, apesar do episódio, e que esperava da sua parte a mesma consideração e – vamos lá – a amizade de sempre. E então…
Então, senhores, aquele rapaz alto, há tão pouco tempo um menino do quinto ano que me lembro de ver na fila assustada do refeitório, disse-me isto:
- Professor, peço-lhe desculpa por aquilo do outro dia. Eu estava nervoso e fui mal-educado…
Sorri e cumprimentámo-nos à homem: um passou-bem vigoroso e franco.
E, nessa tarde, houve em Portugal um professor tocado pela graça da felicidade.

Ribeira de Pena, 16 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pereiraabeldiogo.blogspot.com.
]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Restante


Está tudo certo
Dentro do esperado:
Vejo mal ao perto
Ando mais cansado

A idade cresce
Na mesma proporção
Com que nos falece
A ilusão

Só não envelhece
O coração
Só não envilece
O coração

Ribeira de Pena, 15 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (o grande Clint Eastwood de Million Dollar Baby) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pasmosfiltrados.blogspot.com.]

A Escola moderna


A experiência aumenta-nos o volume e a qualidade dos conhecimentos, é certo. Mas igualmente nos brinda, pouco caridosamente, com dúvidas, hesitações, reavaliação (dolorosa, assustadora) do que por anos nos habituáramos a dar por adquirido.
A questão dos "grupos de nível", por exemplo. Acostumei-me a pensar que não fazia sentido discriminar alunos, elegendo turmas de "muito bons", "médios" e "fraquinhos". Encostei-me ao ideal democrático de se elevar toda a gente ao máximo conhecimento possível. Defendi, às vezes agressivamente, a necessidade de não abandonar à sina da mediocridade os menos bafejados pela fortuna socioeconómica ou intelectual.
Entretanto, o tempo, a vida, a profissão.
Tenho-me deparado com a frustração que é não poder avançar porque, na estrada de aprender, se atravessam teimosos ignorantes sem vontade de se demitirem dessa condição. A frustração não tem a ver especialmente comigo, mas com outros alunos (às vezes uma minoria; outras vezes uma boa parte do todo) que querem aprender e não podem. Nesta contemporaneidade, aulas inteiras (ou quase) são passadas a pedir silêncio, atenção, compostura, civilidade. Admito que nem tudo é, aqui, desperdício - mas fica o amargo de as matérias previstas para cada aula (e o tempo de leitura; e o tempo de debate; e o tempo de exercícios sobre as noções aprendidas) se gastar inexoravelmente, quase inutilmente em catequeses comportamentais.
Os jovens problemáticos têm lugar na escola? Sem dúvida.
Mas - e os jovens que querem simplesmente aprender? Isto é - e os outros alunos (os que teimam em se comportar responsavelmente, civilizadamente, normalmente)? Qual é, na escola moderna, o seu lugar?
Eu fui de uma "turma A", desde o 10.º ano de escolaridade, no velhinho Liceu José Falcão, em Coimbra. Não se tratou de cunha ou de estatuto económico (o meu querido pai era um simples operário dos automóveis): estas turmas "de qualidade" formavam-se com alunos que traziam no currículo essa medalha singela de terem sido, até àquela data, bons alunos. Era um prazer ser estudante, ali. E deveria ser também, imagino eu, uma grande alegria ser professor daquelas turmas!
Às vezes, comove-me o olhar fatigado de bons alunos que esperam, com paciência triste, que a interrupção da aula termine e se possa recomeçar o ofício da aprendizagem. São como automóveis na autoestrada impedidos de circular devido à presença inoportuna de (sem ofensa) tractores na via.
Não tenho certezas sobre este assunto, confesso. Mas sei que esta questão do direito à educação não é simples, dada a pluralidade de situações existentes no terreno. Em boa verdade, há nuances neste direito a que a Escola moderna não pode fugir. Uma Escola para todos não tem de ser uma Escola igual para todos.

Arco de Baúlhe, hora d'almoço, 15 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.infonet.com.]