Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Estatuto político-lírico da depressão


À míngua de esperança morremos
Embora outros nos vejam funcionando
Aparentemente vivos. Vivemos
O pouco que se vê, passando

Os dias obedientes alugados
Em silêncio - na luta perdida
Dos condenados
Sem chama, sem vida.

Este tempo, o meu país
Extinguem-se. Nenhuma estrada
Há para ser feliz.

Amanhã, talvez, a madrugada
Nem regresse. E eu que fiz
Senhor, para tanto nada?

Ribeira de Pena, 11 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.melhorpapeldeparede.com.]

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Heróis


Uma querida amiga, dando-me conta da morte de seu pai, disse-me que o seu “herói” tinha partido.
Percebo muito bem a escolha dessa palavra, tão cara ao território semântico da narrativa. Porque disso mesmo se trata quando falamos dos entes queridos que nos deixam à revelia da nossa vontade – de protagonistas nucleares da nossa história, de personagens principais do nosso enredo vital, de (lá está) “heróis”.
Isto, que é muito mais que literatura, ajuda-me afinal a explicar o valor que a literatura tem (sempre teve) para mim. É que escrever sobre a morte do pai da minha amiga significa também escrever sobre o falecimento do meu próprio pai, e vice-versa.
Disse à minha amiga que, sendo certa a inexistência de consolação à altura de tamanha perda, havia uma forma simples, mas poderosa, de manter vivo quem amamos: é, na nossa cabeça, continuarem vivas essas pessoas que amamos, ou seja, aquelas pessoas cuja vida se misturou com a nossa vida. Ou seja, aquelas pessoas cujos caminhos foram igualmente caminhos nossos. Ou seja, os que foram para nós luz, exemplo, aconchego. Ou seja, como magnificamente disse a minha amiga, os nossos heróis. O meu pai, o seu pai, qualquer pai digno desse nome.

Ribeira de Pena, 10 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

Teletransporte adiado


Lembro-me do deslumbramento da minha geração perante portas que se abriam automaticamente, telefones (ou intercomunicadores) sem fios, transmissão de dados - da nave mãe para certo planeta novo - num segundo, videoconferências. A série "Espaço 1999" tornou-se entretanto passado - e quase tudo quanto nos despertava o mais ingénuo pasmo lá se concretizou. Falta aquilo do teletransporte, é certo. Aqui entre nós, desconfio que o processo já poderia estar à disposição de todos, mas que os grandes interesses económicos e financeiros não deixam (companhias petrolíferas, fabricantes de carros, indústria farmacêutica, um ou outro velho de avulsos restelos). A mim, confesso, dava-me jeito, hoje em particular, o teletransportar-me para longe daqui. Muito longe.

Arco de Baúlhe (hora de almoço), 10 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na wikipédia.]

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Aliterações


Luz leveza delicada
Leda lua sobre o lago
Limpa lava em ti lavada
Labor triste que te trago

(Gosto de aliterações
Dessa música escondida
Como certos corações
De mãos dadas pela vida.)

Ribeira de Pena, 09 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cronicasurbanas.wordpress.com.]

GPS, GPSD, etc.


Pela primeira vez na vida, fiz uma viagem ao volante do meu carro com o auxílio de GPS (emprestado). Senti na pele, digo-vos, o que é ser-se Passos Coelho nas mãos da famosa troika. Claro que a troika aqui será o tal aparelho que debita ordens sob a forma de instruções (ou, vá lá, vice-versa) e eu serei o triste que obedece automaticamente ao autómato.
A voz da troika (como portanto decidi chamar ao aparelho) tem um tom marcadamente neutro que, por um lado contribui para uma certa áurea de infalibilidade à roda das suas frases-determinações e, por outro, lhe rouba humanidade. Obedecemos-lhe, sim, mas sem entusiasmo ou afecto.
Aconteceu-me uma ou outra vez que o único caminho visível e seguro era exactamente o contrário do que a voz tutelar me indicava. Nessas ocasiões, para salvar a vida, desobedeci-lhe. Lembro-me, por exemplo, daquele abismo à saída de Vila Real. O aparelho debitava: “Vire à direita. Vire à direita. Vire à direita.” E eu, farto de ser Passos, não virei para esse lado.

Ribeira de Pena, 08 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Quadras a caminho do mar


Não há estrada bastante
Para eu viajar
Que eu sou viajante
De nunca chegar

Eu sou viajante
Eu não posso parar
Não há estrada bastante
Só se for o mar

Vila Real, 07 de Fevereiro de 201.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www. jomirifefotos.blogspot.com.]

Rei fora da história


Houve, parece, um quarto rei mago naquela história de há dois mil e onze anos (mais ou menos natal). O seu caminho não teve, ao contrário dos seus três homólogos, estrelas. E ele perdeu-se, atrasou-se, desesperou, maldisse – Deus lhe perdoasse – a ideia de se ter posto a caminho.
Nunca se fala do quarto rei mago porque ele se perdeu da história. Parece, aliás, que nunca chegou a conhecer o menino a quem levava, de uma praia do seu reino, certa areia branca num pequeno cofre. A areia era diferente de todas as areias jamais vistas na Palestina, mas ele nunca o chegou, parece, a provar.
Ao chegar a Belém, o quarto rei mago soube da inutilidade da sua viagem e, disso não há dúvida, chorou. Ofereceu a areia essa uma criança árabe que brincava junto ao mercado dos frutos. Depois, reentrou no deserto de onde viera lamentando a sua sina pobre em estrelas e em sorte.
Caminhou por mais de mil anos, até aqui, a este texto aparecido em

Vila Real, a 07 de Fevereiro de 2012, assinado (pouco rigorosamente) por
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www. eportuguese.blogspot.com.]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Abril grafado abril


Acabo de ler um texto em que se fala do 25 de Abril de 1974. Por causa do (famigerado) Acordo Ortográfico, Abril aparece grafado como "abril". A contemporaneidade explica, como se vê, a nossa História aos mais novos com notável ironia: em 38 anos, o que se passou foi que Abril passou a escrever-se com letra minúscula, caros jovens, e que no presente o nosso primeiro-ministro é um senhor chamado Passos Coelho, e que Passos Coelho é um heterónimo de José Sócrates, e que tudo isto é minúsculo. Bate certo.

Ribeira de Pena, 06 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[O desenho é do meu amigo Manuel Vilela.]

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Quadra sobre teatro e não só


A coisa tem a sua ciência
(Não é só jeito ou vigor):
É preciso treino e paciência
E, se possível, amor.

Ribeira de Pena, 05 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Shakespeare in Love) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cinetropic.com.]

Sobre a alergia ao futebolista português (o desperdício como desporto nacional)


Declaração prévia de interesses: eu não sou do Benfica. Sou, muito pelo contrário, do Sporting Clube de Portugal, e essa condição – como eu a vejo – compreende a satisfação por eventuais derrotas dos meus rivais (Benfica e Porto, sobretudo).
Dito isto, gostaria de partilhar convosco uma angústia portuguesa: a falta de oportunidades que os chamados “grandes” do futebol pátrio dão aos jovens. E não me refiro apenas aos jovens portugueses, mas também aos que, oriundos de outros países, o futebol português regularmente fabrica.
Neste território do desperdício nacional, o Benfica é um escandaloso exagero (até à caricatura). Anos a fio, os melhores jogadores das suas camadas jovens são vítimas do mais cruel e incompreensível ostracismo, ainda que o recrutamento desses atletas, desde os infantis até aos juniores, represente sempre uma exigentíssima selecção da melhor matéria-prima de Portugal e, até, do estrangeiro.
O campeonato português (mas não apenas este) está cheio de excelentes jogadores que, tendo feito a sua formação no Benfica, vêem depois as portas da equipa principal do clube fecharem-se-lhes cinicamente. Lembremo-nos de Moreira, Sílvio, João Pereira, João Vilela…
Jogadores que venham de outros emblemas logo ganham, no Benfica, um estatuto superior ao dos que desde novos cresceram no clube. Tenho, por exemplo, a certeza de que se Simão Sabrosa tivesse feito a sua formação no SLB nunca chegaria, tão novo, a titular (e capitão!) das águias. O mesmo acontece agora, obviamente, com Djaló.
Televi hoje o Benfica-Marítimo, e confirmei a imensa categoria de um jogador como Nelson Oliveira (um craque que em muitos aspectos me lembra o Pedro Barbosa do tempo em que não era ainda comentador da TVI). A Nelson apenas oferecem migalhas de jogos e assim se vai adiando a sua afirmação sine die. Igualmente me espantei com a extraordinária capacidade físico-atlética e técnica do maritimista Sami, jogador que foi júnior no Benfica e de que este clube estupidamente prescindiu (não recorrendo sequer à possibilidade de o vincular e, depois, o emprestar a outro clube).
Desculpai-me os amigos benfiquistas, se puderem, mas não resisto a uma provocação final. À porta do balneário do SLB, deveria estar um aviso: “Proibida a entrada a jogadores feitos no clube, em geral – e a portugueses, em particular.”

Ribeira de Pena, 05 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.record.pt.]

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Diário do leitor intérprete


A meteorologia é um poema
De Deus. Cada verso um dia, nada
A mais na página de cada poema, tudo
Dizendo tudo o que há para dizer

Às vezes à pele ao coração
Traz a poesia frios sentidos

(A exegese não combate as baixas temperaturas
Mas consola.)

Ribeira de Pena, 05 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.arcadenoe.sapo.pt.]

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Rua da idade certa (com ou sem rima)


Moro numa vila chamada Ribeira de Pena
Que aos meus olhos é a minha rua
De há quarenta anos –
Homens mulheres isto é
Velhos velhas rapazes raparigas petizes
Viúvas alegres ou infelizes
Alguns cães gatos algumas casas
Um ou outro carro estacionado
Árvores agitando-se um Café parado

Desaparecem de vez em quando da imagem
Gente casas locais de trabalho
E chegam novos rostos à paisagem
(Por exemplo, o professor Joaquim Jorge Carvalho)
Crescem e somem-se árvores ao fundo
Vão vêm estações enganos desenganos
Mas o meu olhar tem sempre sete anos
A sede de alguma interrupção do mundo
Com que eu percorria em 1970
A minha luminosa rua lenta

De modo que os montes ao fundo (a que aqui chamam
Santa Marinha ou Senhora da Guia)
São o Monte Formoso visto outrora da minha rua
E aquela varanda natural que denominam miradouro
(Entre o Entroncamento e o Salvador)
É afinal o cume do Casal Ferrão (antes de haver Lidl
No lugar que era a antiga escola)
Na minha rua do século vinte

O meu olhar e o meu coração não mentem
(Dizem o que sabem o que sentem) –
Aqui onde estou é a minha rua
Sempre a mesma minha rua
E até a minha mãe aparece do lado de lá da estrada
(Ei-la muito nova junto ao centro de saúde a mulher
Com o filho aliás comigo pela mão conheço bem a voz
De minha mãe dizendo-me cuidado

É preciso sim viver muitos anos ó mãe
Para saber da idade verdadeira
Que para sempre se mantém
A primeira –
Sete anos (ou coisa assim)
E daí em diante para ti para mim
A eterna mesma rua
Minha ó mãe e tua
E dentro da rua mãe a tua voz
Ao redor de nós

Ribeira de Pena, 04 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

A economia da alegria


Nunca gostei do carnaval. Em miúdo, mascarava-me e fazia-sofria partidas de gosto duvidoso apenas porque se tratava de uma obrigação da tribo. Eu era assim porque os outros eram assim.
O desconforto subiu a patamares de sofrimento quando, já professor, fui obrigado a participar institucionalmente na celebração do carnaval. Para os directores de turma, o suplício multiplicava-se visto que lhes cabia a “motivação dos alunos”, a opção por um “tema”, a organização dos trabalhos preparatórios do desfile. Há uns quinze anos, certa colega de História, de passagem pela vila onde eu trabalhava, teve o topete de se declarar publicamente anti-carnaval; quase toda a gente caiu em cima da pobre e lembrou-lhe, como gravidade, a importância da data para a comunidade educativa. Embora corroborasse do desamor da colega pela fúria carnavalesca, percebi também a pertinência do que outros aduziam sobre o assunto.
Não é fácil conciliar estas posições, concedo. Recordo-me de um desfile, talvez em 1998, em que uma professora (portuguesa, mas durante muitos anos radicada no Brasil) se insurgiu, a meio do corso, contra anónimos alunos ou professores que a borrifavam, à traição, com jactos de água. Um colega mais velho recomendou-lhe que fizesse de conta de que gostava, caso contrário – garantiu – seria “pior”. A cada novo ataque com água ou papelinhos, a pobre docente gritava: “Estou adorando, gente!”

Dito isto, cabe-me reconhecer o facto de haver realmente quem goste do carnaval. Estou há vários anos numa vila (Arco de Baúlhe) em que a grande maioria das pessoas valoriza essa - chamemos-lhe assim - quadra. Aprendi a respeitar a circunstância e, não me mascarando de entusiasta, colaboro, na medida das minhas possibilidades e responsabilidades, com as instruções da Escola. Aqui me separo da posição inflexível do primeiro-ministro, Passos Coelho.
Não posso deixar de sorrir, com melancolia e (confesso) algum desprezo, a esta medida – mais uma – do governo no sentido da “produtividade”. Vários espíritos lúcidos (autarcas, sobretudo) já chamaram a tenção para a importância económica do “feriado” de terça-feira, cujo extermínio significará prejuízos avultados em matéria de restauração, comércio, hotelaria, turismo. Gente moderada, não regulada por razões político-partidárias, explicou à corja neoliberal que até economicamente esta medida representa vistas curtas, crasso erro. Mas o que me afligiu mais, no espectáculo de Passos Coelho a falar sobre o assunto na televisão, foi o ar de homenzinho severo que revelou assegurando que “o país não compreenderia” outra posição que não aquela.
Um presidente de câmara trouxe à reportagem que televi uma lufada de inteligência que o governo faria bem em aproveitar. Disse este senhor que, para além do equívoco económico da medida, havia um perigoso sinal dado pelos governantes: a repressão da alegria do povo.
A mim, que não gosto (pessoalmente) do carnaval, preocupa-me esta eventual falência da alegria em Portugal. Quem olhar para a fisionomia dura e mecânica de Passos Coelho desconfia de que este género de argumento nele não colhe, nunca colherá. Talvez o nosso primeiro-ministro seja simplesmente um triste.

Ribeira de Pena, 04 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (cartaz do carnaval da Mealhada) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.carnavalmealhada.com.]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Passado [m]eu (Letra para um fado de Coimbra)


Ao passado só regressa
Quem nele inteiro viveu
Com licença, tenho pressa
De novamente ser eu.

Ao passado se regressa
Se o passado não morreu
Tenho pressa, não m’impeça
De eu voltar a ser eu.

Ao passado só regressa
Quem de si se não perdeu
Sou do passado, sou peça
De museu (assim sou eu).

Ao passado se regressa
Se no passado ocorreu
A vida que interessa
(O meu passado sou eu)

Passado amado, regressa
A quem nunca t’esqueceu
Vem, ó passado, depressa
Que só contigo sou eu

Ribeira de Pena, 03 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

Sol enquanto não


Veneráveis os minutos solares
Da manhã à roda da viagem
Admiráveis campos como mares
Mulheres como barcos na paisagem

Doce aconchego quente ainda
Avesso do Inverno que há-de ser
Minha leve luz lavada linda
Meu manso manto modo de viver

Arco de Baúlhe, 03 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (panorâmica de Arco de Baúlhe) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cabeceiras_com_vida.blogs.sapo.pt.]