Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Teletransporte adiado


Lembro-me do deslumbramento da minha geração perante portas que se abriam automaticamente, telefones (ou intercomunicadores) sem fios, transmissão de dados - da nave mãe para certo planeta novo - num segundo, videoconferências. A série "Espaço 1999" tornou-se entretanto passado - e quase tudo quanto nos despertava o mais ingénuo pasmo lá se concretizou. Falta aquilo do teletransporte, é certo. Aqui entre nós, desconfio que o processo já poderia estar à disposição de todos, mas que os grandes interesses económicos e financeiros não deixam (companhias petrolíferas, fabricantes de carros, indústria farmacêutica, um ou outro velho de avulsos restelos). A mim, confesso, dava-me jeito, hoje em particular, o teletransportar-me para longe daqui. Muito longe.

Arco de Baúlhe (hora de almoço), 10 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na wikipédia.]

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Aliterações


Luz leveza delicada
Leda lua sobre o lago
Limpa lava em ti lavada
Labor triste que te trago

(Gosto de aliterações
Dessa música escondida
Como certos corações
De mãos dadas pela vida.)

Ribeira de Pena, 09 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cronicasurbanas.wordpress.com.]

GPS, GPSD, etc.


Pela primeira vez na vida, fiz uma viagem ao volante do meu carro com o auxílio de GPS (emprestado). Senti na pele, digo-vos, o que é ser-se Passos Coelho nas mãos da famosa troika. Claro que a troika aqui será o tal aparelho que debita ordens sob a forma de instruções (ou, vá lá, vice-versa) e eu serei o triste que obedece automaticamente ao autómato.
A voz da troika (como portanto decidi chamar ao aparelho) tem um tom marcadamente neutro que, por um lado contribui para uma certa áurea de infalibilidade à roda das suas frases-determinações e, por outro, lhe rouba humanidade. Obedecemos-lhe, sim, mas sem entusiasmo ou afecto.
Aconteceu-me uma ou outra vez que o único caminho visível e seguro era exactamente o contrário do que a voz tutelar me indicava. Nessas ocasiões, para salvar a vida, desobedeci-lhe. Lembro-me, por exemplo, daquele abismo à saída de Vila Real. O aparelho debitava: “Vire à direita. Vire à direita. Vire à direita.” E eu, farto de ser Passos, não virei para esse lado.

Ribeira de Pena, 08 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Quadras a caminho do mar


Não há estrada bastante
Para eu viajar
Que eu sou viajante
De nunca chegar

Eu sou viajante
Eu não posso parar
Não há estrada bastante
Só se for o mar

Vila Real, 07 de Fevereiro de 201.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www. jomirifefotos.blogspot.com.]

Rei fora da história


Houve, parece, um quarto rei mago naquela história de há dois mil e onze anos (mais ou menos natal). O seu caminho não teve, ao contrário dos seus três homólogos, estrelas. E ele perdeu-se, atrasou-se, desesperou, maldisse – Deus lhe perdoasse – a ideia de se ter posto a caminho.
Nunca se fala do quarto rei mago porque ele se perdeu da história. Parece, aliás, que nunca chegou a conhecer o menino a quem levava, de uma praia do seu reino, certa areia branca num pequeno cofre. A areia era diferente de todas as areias jamais vistas na Palestina, mas ele nunca o chegou, parece, a provar.
Ao chegar a Belém, o quarto rei mago soube da inutilidade da sua viagem e, disso não há dúvida, chorou. Ofereceu a areia essa uma criança árabe que brincava junto ao mercado dos frutos. Depois, reentrou no deserto de onde viera lamentando a sua sina pobre em estrelas e em sorte.
Caminhou por mais de mil anos, até aqui, a este texto aparecido em

Vila Real, a 07 de Fevereiro de 2012, assinado (pouco rigorosamente) por
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www. eportuguese.blogspot.com.]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Abril grafado abril


Acabo de ler um texto em que se fala do 25 de Abril de 1974. Por causa do (famigerado) Acordo Ortográfico, Abril aparece grafado como "abril". A contemporaneidade explica, como se vê, a nossa História aos mais novos com notável ironia: em 38 anos, o que se passou foi que Abril passou a escrever-se com letra minúscula, caros jovens, e que no presente o nosso primeiro-ministro é um senhor chamado Passos Coelho, e que Passos Coelho é um heterónimo de José Sócrates, e que tudo isto é minúsculo. Bate certo.

Ribeira de Pena, 06 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[O desenho é do meu amigo Manuel Vilela.]

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Quadra sobre teatro e não só


A coisa tem a sua ciência
(Não é só jeito ou vigor):
É preciso treino e paciência
E, se possível, amor.

Ribeira de Pena, 05 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Shakespeare in Love) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cinetropic.com.]

Sobre a alergia ao futebolista português (o desperdício como desporto nacional)


Declaração prévia de interesses: eu não sou do Benfica. Sou, muito pelo contrário, do Sporting Clube de Portugal, e essa condição – como eu a vejo – compreende a satisfação por eventuais derrotas dos meus rivais (Benfica e Porto, sobretudo).
Dito isto, gostaria de partilhar convosco uma angústia portuguesa: a falta de oportunidades que os chamados “grandes” do futebol pátrio dão aos jovens. E não me refiro apenas aos jovens portugueses, mas também aos que, oriundos de outros países, o futebol português regularmente fabrica.
Neste território do desperdício nacional, o Benfica é um escandaloso exagero (até à caricatura). Anos a fio, os melhores jogadores das suas camadas jovens são vítimas do mais cruel e incompreensível ostracismo, ainda que o recrutamento desses atletas, desde os infantis até aos juniores, represente sempre uma exigentíssima selecção da melhor matéria-prima de Portugal e, até, do estrangeiro.
O campeonato português (mas não apenas este) está cheio de excelentes jogadores que, tendo feito a sua formação no Benfica, vêem depois as portas da equipa principal do clube fecharem-se-lhes cinicamente. Lembremo-nos de Moreira, Sílvio, João Pereira, João Vilela…
Jogadores que venham de outros emblemas logo ganham, no Benfica, um estatuto superior ao dos que desde novos cresceram no clube. Tenho, por exemplo, a certeza de que se Simão Sabrosa tivesse feito a sua formação no SLB nunca chegaria, tão novo, a titular (e capitão!) das águias. O mesmo acontece agora, obviamente, com Djaló.
Televi hoje o Benfica-Marítimo, e confirmei a imensa categoria de um jogador como Nelson Oliveira (um craque que em muitos aspectos me lembra o Pedro Barbosa do tempo em que não era ainda comentador da TVI). A Nelson apenas oferecem migalhas de jogos e assim se vai adiando a sua afirmação sine die. Igualmente me espantei com a extraordinária capacidade físico-atlética e técnica do maritimista Sami, jogador que foi júnior no Benfica e de que este clube estupidamente prescindiu (não recorrendo sequer à possibilidade de o vincular e, depois, o emprestar a outro clube).
Desculpai-me os amigos benfiquistas, se puderem, mas não resisto a uma provocação final. À porta do balneário do SLB, deveria estar um aviso: “Proibida a entrada a jogadores feitos no clube, em geral – e a portugueses, em particular.”

Ribeira de Pena, 05 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.record.pt.]

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Diário do leitor intérprete


A meteorologia é um poema
De Deus. Cada verso um dia, nada
A mais na página de cada poema, tudo
Dizendo tudo o que há para dizer

Às vezes à pele ao coração
Traz a poesia frios sentidos

(A exegese não combate as baixas temperaturas
Mas consola.)

Ribeira de Pena, 05 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.arcadenoe.sapo.pt.]

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Rua da idade certa (com ou sem rima)


Moro numa vila chamada Ribeira de Pena
Que aos meus olhos é a minha rua
De há quarenta anos –
Homens mulheres isto é
Velhos velhas rapazes raparigas petizes
Viúvas alegres ou infelizes
Alguns cães gatos algumas casas
Um ou outro carro estacionado
Árvores agitando-se um Café parado

Desaparecem de vez em quando da imagem
Gente casas locais de trabalho
E chegam novos rostos à paisagem
(Por exemplo, o professor Joaquim Jorge Carvalho)
Crescem e somem-se árvores ao fundo
Vão vêm estações enganos desenganos
Mas o meu olhar tem sempre sete anos
A sede de alguma interrupção do mundo
Com que eu percorria em 1970
A minha luminosa rua lenta

De modo que os montes ao fundo (a que aqui chamam
Santa Marinha ou Senhora da Guia)
São o Monte Formoso visto outrora da minha rua
E aquela varanda natural que denominam miradouro
(Entre o Entroncamento e o Salvador)
É afinal o cume do Casal Ferrão (antes de haver Lidl
No lugar que era a antiga escola)
Na minha rua do século vinte

O meu olhar e o meu coração não mentem
(Dizem o que sabem o que sentem) –
Aqui onde estou é a minha rua
Sempre a mesma minha rua
E até a minha mãe aparece do lado de lá da estrada
(Ei-la muito nova junto ao centro de saúde a mulher
Com o filho aliás comigo pela mão conheço bem a voz
De minha mãe dizendo-me cuidado

É preciso sim viver muitos anos ó mãe
Para saber da idade verdadeira
Que para sempre se mantém
A primeira –
Sete anos (ou coisa assim)
E daí em diante para ti para mim
A eterna mesma rua
Minha ó mãe e tua
E dentro da rua mãe a tua voz
Ao redor de nós

Ribeira de Pena, 04 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

A economia da alegria


Nunca gostei do carnaval. Em miúdo, mascarava-me e fazia-sofria partidas de gosto duvidoso apenas porque se tratava de uma obrigação da tribo. Eu era assim porque os outros eram assim.
O desconforto subiu a patamares de sofrimento quando, já professor, fui obrigado a participar institucionalmente na celebração do carnaval. Para os directores de turma, o suplício multiplicava-se visto que lhes cabia a “motivação dos alunos”, a opção por um “tema”, a organização dos trabalhos preparatórios do desfile. Há uns quinze anos, certa colega de História, de passagem pela vila onde eu trabalhava, teve o topete de se declarar publicamente anti-carnaval; quase toda a gente caiu em cima da pobre e lembrou-lhe, como gravidade, a importância da data para a comunidade educativa. Embora corroborasse do desamor da colega pela fúria carnavalesca, percebi também a pertinência do que outros aduziam sobre o assunto.
Não é fácil conciliar estas posições, concedo. Recordo-me de um desfile, talvez em 1998, em que uma professora (portuguesa, mas durante muitos anos radicada no Brasil) se insurgiu, a meio do corso, contra anónimos alunos ou professores que a borrifavam, à traição, com jactos de água. Um colega mais velho recomendou-lhe que fizesse de conta de que gostava, caso contrário – garantiu – seria “pior”. A cada novo ataque com água ou papelinhos, a pobre docente gritava: “Estou adorando, gente!”

Dito isto, cabe-me reconhecer o facto de haver realmente quem goste do carnaval. Estou há vários anos numa vila (Arco de Baúlhe) em que a grande maioria das pessoas valoriza essa - chamemos-lhe assim - quadra. Aprendi a respeitar a circunstância e, não me mascarando de entusiasta, colaboro, na medida das minhas possibilidades e responsabilidades, com as instruções da Escola. Aqui me separo da posição inflexível do primeiro-ministro, Passos Coelho.
Não posso deixar de sorrir, com melancolia e (confesso) algum desprezo, a esta medida – mais uma – do governo no sentido da “produtividade”. Vários espíritos lúcidos (autarcas, sobretudo) já chamaram a tenção para a importância económica do “feriado” de terça-feira, cujo extermínio significará prejuízos avultados em matéria de restauração, comércio, hotelaria, turismo. Gente moderada, não regulada por razões político-partidárias, explicou à corja neoliberal que até economicamente esta medida representa vistas curtas, crasso erro. Mas o que me afligiu mais, no espectáculo de Passos Coelho a falar sobre o assunto na televisão, foi o ar de homenzinho severo que revelou assegurando que “o país não compreenderia” outra posição que não aquela.
Um presidente de câmara trouxe à reportagem que televi uma lufada de inteligência que o governo faria bem em aproveitar. Disse este senhor que, para além do equívoco económico da medida, havia um perigoso sinal dado pelos governantes: a repressão da alegria do povo.
A mim, que não gosto (pessoalmente) do carnaval, preocupa-me esta eventual falência da alegria em Portugal. Quem olhar para a fisionomia dura e mecânica de Passos Coelho desconfia de que este género de argumento nele não colhe, nunca colherá. Talvez o nosso primeiro-ministro seja simplesmente um triste.

Ribeira de Pena, 04 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (cartaz do carnaval da Mealhada) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.carnavalmealhada.com.]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Passado [m]eu (Letra para um fado de Coimbra)


Ao passado só regressa
Quem nele inteiro viveu
Com licença, tenho pressa
De novamente ser eu.

Ao passado se regressa
Se o passado não morreu
Tenho pressa, não m’impeça
De eu voltar a ser eu.

Ao passado só regressa
Quem de si se não perdeu
Sou do passado, sou peça
De museu (assim sou eu).

Ao passado se regressa
Se no passado ocorreu
A vida que interessa
(O meu passado sou eu)

Passado amado, regressa
A quem nunca t’esqueceu
Vem, ó passado, depressa
Que só contigo sou eu

Ribeira de Pena, 03 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

Sol enquanto não


Veneráveis os minutos solares
Da manhã à roda da viagem
Admiráveis campos como mares
Mulheres como barcos na paisagem

Doce aconchego quente ainda
Avesso do Inverno que há-de ser
Minha leve luz lavada linda
Meu manso manto modo de viver

Arco de Baúlhe, 03 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (panorâmica de Arco de Baúlhe) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cabeceiras_com_vida.blogs.sapo.pt.]

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Biografia de um ex-poeta


Era uma vez um poeta pobre. (Poeta pobre, numa narrativa portuguesa, é quase redundância, convenhamos.) Muito cedo órfão, ele vivera trinta e poucos anos às custas de uma avó remediada e, durante esse tempo, mais não fizera que contemplar o mundo e escrever versos se lhe apetecesse.
Quando a avó morreu, a necessidade de sobreviver obrigou-o a tomar novo rumo, porque da fome não estão dispensados nem os maiores líricos. Pediu emprego numa série de lojas, empresas, instituições e, para sua surpresa, ninguém pareceu reconhecer-lhe utilidade ou interesse, não obstante a qualidade da sua sintaxe e a variedade do seu vocabulário.
Até que conheceu uma engenheira loira, mulher linda linda que transportava em seus olhos a cor indefinível de certas manhãs primaveris. Era ela a líder dos recursos humanos na poderosa Transportex International e, tendo escutado do homem o pedido de trabalho, levou-o a sério.
Aquela donzela linda linda percebeu os motivos do interlocutor, mediu bem a urgência do seu discurso, tomou até como natural a profissão que ele afirmou exercer até aí: poeta.
- Que género de poeta? – quis saber.
Em resposta, o homem deu-lhe para a mão cerca de quinhentas páginas de versos – dísticos, quadras, quintilhas, sonetos, alguns parágrafos em prosa poética.
Competente, a linda linda dama foi para casa e leu um a um cada texto. A leitura levou uma semana e muito a emocionou a generosidade com que o artista ali tratava da violência da mortalidade, do desamor seguinte ao amor, da injustiça do mundo, da falência da esperança, das saudades de uma perdida meninice.
“Versos contra a passagem do tempo, contra o desconcerto do mundo, contra a imperfeição do universo”, pensou.
E mais pensou:
“E versos que compreendem tão bem a grandeza de cada gesto humano por mínimo que pareça, isto é, versos de lúcida bondade e de, digamos assim, consolação.”
Na segunda-feira seguinte, chamou o homem ao seu gabinete e ofereceu-lhe emprego.
Desde esse dia até hoje, o ex-poeta ficou a trabalhar na área de "apoio ao cliente – secção de reclamações e devoluções".

Arco de Baúlhe, tarde-noite de 02 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (depois editada e trabalhada) foi originalmente colhida, com a devida vénia, em http://www.catteryfernando pessoa.com.]

Pessoal, universal (isto é, poesia)


Não sei, irmão, nada de ti
Das tuas dúvidas, das tuas dívidas
Das tuas dádivas
Das tuas mágoas, dos teus sonhos
Das tuas saudades, das tuas urgências
Dos teus mortos, dos teus versos preferidos
Dos teus restos, dos teus rostos, dos teus rastos
Dos teus impérios, das tuas misérias
Das tuas epifanias entre a infância e o futuro
Das estradas entre o que eras para ser
E o que apenas (o que tanto) és

Não sei nada dos teus segredos
Dos teus sentimentos
Dos teus ressentimentos
Dos teus passos e cansaços
Das tuas rotas velhas
Das tuas novas rotas
Das tuas derrotas
Dos teus talentos
Das tuas amadas canções que te fazem voar

Não sei nada, irmão, de ti
Sei só da minha pobre vida
Minha
Dos montes e vales e infernos
Que percorro, andam por mim
Nos intervalos de pouco céu

Sei só da minha secretude particular
Sei só do meu destino
(E pouco sei do meu destino)
Sei só do que fui, do que estou sendo
Sei só do meu destino


E contudo, irmão, não sei se nada sei
De ti
Porque de ti eu sei, pelo menos, que és meu
Irmão
Isto é, sei de ti este muito ou nada
(Ou este quase nada, quase muito)
Que sei, irmão, que pelo menos sei
De mim.

Arco de Baúlhe, 02 de fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.sentimentosintimos.blogspot.com.]