Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Noção de dilúvio ou inundação para neoliberais distraídos


Eles comem tudo e, depois, vão à missa ou à televisão mostrar a sua angústia com a situação do Estado ou a miséria dos pobrezinhos.
Eles recebem prémios de milhões de euros e, depois, vão às conferências explicar que o país vive acima das suas possibilidades.
Eles subsidiam os familiares com dinheiros públicos e, depois, escrevem nos jornais sobre a importância da austeridade e a necessidade de se defender a iniciativa privada.
Eles denunciam a insustentabilidade da caixa geral de aposentações e, depois, acumulam faraónicas reformas de governices e deputices.
Eles defendem Deus, ou o Profeta, ou Buda, e depois ajoelham-se perante uma alemã obesa.
Eles julgam que a paciência das pessoas é infinita e, depois, se Deus quiser, um brechtiano rio saltará as margens e talvez se arrependam.

PS: Em verdade vos digo, contemporâneos, que como os outros temo dilúvios a haver, mas os compreendo. Porque a humana paciência é naturalmente finita, e mesmo a de Deus se pode um dia esgotar. Noé?

Ribeira de Pena, 24 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (do filme 2012, de Roland Emmerich)foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cinegnose.blogspot.com.]

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O mundo virtual


A internet, como a dinamite, foi uma invenção que supostamente concorreria para o bem da humanidade. No caso do ciberespaço, havia essa maravilhosa possibilidade da democratização do conhecimento, da aproximação de povos e indivíduos, da partilha de experiências. E muito desse sonho mundial veio, convenhamos, a concretizar-se. Mas um efeito perverso acompanhou este novo tempo (e por isso me ocorreu o paralelismo com a dinamite): as pessoas deixaram, em imensa escala, de contactar fisicamente com os outros. Como uma droga, o computador tornou-se sujeito tutelar das suas vidas e toda a existência foi resvalando para a dimensão virtual, tantas vezes máscara do que cada um verdadeiramente é, tantas vezes incompleta, tantas vezes mentirosa.
A mim, confesso, assusta-me sempre falar com "anónimos" (escrevo a palavra entre aspas porque ela, na gramática da internet, é muitas vezes uma assinatura, havendo pessoas que rubricam os seus desabafos com o termo "Anónimo").
Lembrei-me disto porque, de novo, fui à minha caixa de correio (a física, a que o carteiro utiliza para depositar - quase só - contas da luz, da água, dos seguros) e ela estava vazia. O Email substituiu as queridas cartas em papel que, hoje, quase ninguém escreve.
Não me parece inteiramente positiva a evolução, senhores. E nem me apetece falar de romances convertidos em páginas digitais que alguns anunciam por aí como a mais radical das maravilhas. Plantem-se as árvores que forem precisas - mas, por amor de Deus, que não se perca uma das mais belas invenções da espécie humana - o Livro!

Ribeira de Pena, 23 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.blogdokleberteixeira.com.]

domingo, 22 de janeiro de 2012

Anedota cínica


No peito do poeta lavrava o fogo formoso dos sonhos. Veio então uma senhora com um extintor e apagou tudo.
- Quem és tu? - perguntou, desconsolado, o poeta.
- Não me conheces? Sou a Realidade.

Ribeira de Pena, 22 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mhi.pt.]

sábado, 21 de janeiro de 2012

Isto e o essencial


Inaugura-se hoje um espaço-tempo pomposamente designado como "Guimarães capital europeia da cultura".
Sei das desconfianças que em muitos bons (e livres) espíritos estas iniciativas despertam. Sei das pequenas e grandes corrupções que, à boleia de eventos magnamente patrocinados, manhosamente florescem. Sei do cortejo de cunhas que antecipa e acompanha um evento destes. Sei dos perigos de nomeações espúrias, de mordomias obscenas e iníquas. Sei da confusão entre competência e militância partidária que nestas alturas tende a recrudescer, sobretudo no contexto generoso de muitos euros.
Mas queria aqui, hoje, falar de algo diferente. De Guimarães mesmo. De uma cidade bonita, cheia de gente dinâmica e genuinamente portuguesa. De um Portugal que existe fora de Lisboa. E de uma oportunidade vimaranense para, celebrando a cultura no presente, se cultivar - reparai no verbo - o hábito e o gosto de regularmente (naturalmente) ouvir boa música, assistir a bom teatro, ver dignas exposições de pintura, escultura, fotografia, admirar grandes bailarinos, beneficiar do brilho de sábias conferências.
Queria falar da oportunidade que aqui se inaugura de, passado e fruído o 2012 capital europeia coiso & tal, ficar algo novo e vivo em Guimarães em matéria de cultura e de vida cultural. Nas pessoas e pelas pessoas.
Queria, enfim, falar, aqui e hoje, do essencial que há, pode haver n'isto. E, à minha anónima medida, faço parte.

Ribeira de Pena, 21 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.portugalcultural.net.]

O que verdadeiramente importa


Coimbra, talvez 1989. Uma mãe assustada à porta de um hospital pediátrico, a filha febril, o pai estacionando o carro a trinta metros e logo regressando, correndo como se o mundo estivesse para acabar. O mundo a acabar. O casal jovem contando os tostões para aviar a receita na farmácia de serviço. A criança medicada, adormecendo sob o manto emudecido e nervoso deste ele e desta ela tão precocemente adultos. O sussurro quase aliviado de a menina (para sempre com esse nome - "a menina") já não ter febre.
O amor. O combustível eterno. O verdadeiro segredo da vida toda.
A menina ao telefone lamentando a conta do gás, mas assegurando que está bem.

Ribeira de Pena, 21 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho.
[Foto JJC]

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Poema por causa do Daniel que falou de um certo argentino, antigo ponta-de-lança do Sporting


Para o Sporting e a minha vida
É preciso mais, é preciso melhor:
Tanta oportunidade perdida
É uma dor d’alma, Senhor!

Eu queria, sei lá, a Não Morte
Algo genial, o Yazalde!...
Não mo dá o Fado nem a Sorte -
E eu sonho, debalde.

Arco de Baúlhe, 20 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto de Hector Yazalde) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mundobotafogo.blogspot.com.]

Fábula que deveio um enunciado sobre a temática habitual da vida e da morte


“Nasceu-me uma ruga”
(Disse a tartaruga
À porta de seu casebre).
“É do stresse” (disse a lebre).

“Não se diz” (continuou) “à toa
Que, ai, o tempo voa!”
E acrescentou ainda
Esta quadra mui linda:

“Tudo faço a toda a brida
(Amor, filhos e comer)
Por ser tão curta esta vida
Para tanto por fazer.”

Há em mim a tartaruga angustiada
E a lebre de existir urgentemente
Mas pouco sei que diga (quase nada)
Para consolar a mortal gente.

Eu cá o Futuro não desejo
(Dispenso-o de bom grado para mim)
E torno-me na vida caranguejo
Sábio recuando, recusando o Fim.

Arco de Baúlhe, 20 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.odistribuidor.com.]

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

História interminável


A mehor parte de ser professor é estar com os alunos, sobretudo na sala de aulas. Não sei se toda a gente concorda com isto, nem sequer sei se toda a gente percebe isto, mas tenho a certeza de que qualquer professor digno desse nome está comigo, n'isto.
No presente ano lectivo, no intervalo de muitas, tantas desilusões, tenho beneficiado de pequenos raios de sol que, interpretados com boa vontade, tornam gratificante o ofício multímodo da docência. Aqui vos falo de um.
Durante duas semanas, o meu 7.º C leu e analisou o conto O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Repartimos a leitura em voz alta por todos, incluindo o professor. Discutimos a história, os lugares da história (aliás, das histórias), os sentimentos e as emoções das personagens, o modo de narrar, o estilo da autora, até a própria ideia da viagem como maneira de entender o exercício da leitura.
Para o final da aula de quarta-feira estava guardada uma formosa surpresa: acabada a leitura da obra por um de nós, sobreveio um silêncio de nem bem dois segundos - e, depois, uma salva de palmas espontânea, alegre, demorada.
Um aluno resumiu tudo numa frase pouco cuidada (que na ocasião não pus em causa, confesso): "Muito fixe, professor!"
Falei-lhes, depois, mal disfarçando a felicidade que me visitara o coração, do milagre da leitura, que nos leva a lugares, a pessoas, a tempos tempos tão remotos e tão exóticos. E do facto de, a cada leitura (mesmo se o livro for o mesmo), inaugurarmos novas viagens, novos percursos, novos olhares.
Então, uma querida aluna disse que, nesse caso, uma história nunca chega verdadeiramente ao fim.
Sorri, satisfeito como um cavaleiro que regressa, depois de muitas aventuras, à sua casa. A casa da Narrativa. A casa da Literatura.
- Pois não. Nunca chega. Nunca acaba.

Ribeira de Pena, 19 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Flor & Dor


Amor como flor no deserto cresce
Da míníma água se nutrindo, lindo
E se às vezes morre é de estar sentindo
A dor que, fera, no amor floresce.

Cabeceiras de Basto (hora d'almoço), 18 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (do filme O Paciente Inglês) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.casadecha.wordpress.com.]

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Idade de cima


Talvez todas as idades sejam promontórios. Do alto do nosso tempo, vê-se o mundo (pelo menos, o que há e o que houve).
A caminho dos cinquenta, cada vez mais este miradouro onde ponho os pés se parece com o último degrau antes da queda. Isto é, cada vez mais a realidade se me vai tornando um abismo que se vê de longe, se vê de cima. E que urge evitar.
Passe-me os binóculos, senhor Freud. Sim, eu tenho cuidado. É só para ver o que se passa.


Ribeira de Pena, 17 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ideiasemdesalinho.blogs.sapo.pt.]

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Quadra de bem ver


Há óculos de ver ao perto
Outros há p'ra longe disto
Mas, para ver bem, o certo
É ver por dentro do visto.

Ribeira de Pena, 16 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.amigosdobotanico.blogspot.com.]

O mistério dos sonhos


Sonhos de novo.
Por várias horas, esteve o meu cérebro ocupado com arrumações: livros, papéis, sapatos, candeeiros, produtos de higiene, material de escritório, ferramenta avulsa, chaves, louça, fotografias, tomadas, extensões para tomadas, lâmpadas. Consigo recordar que se tratava da minha garagem-escritório em Coimbra, mas igualmente me apareceram lapsos da sala de professores de Ribeira de Pena e do Arco.
É à volta do meio-dia que me visto de auto-Freud e tudo se me afigura uma pulsão de viagem e/ou de despedida. À revelia de mim, segundo parece, o meu cérebro revolta-se e sugere (senão anuncia) mudanças.
Tive entretanto tempo para voltar à reflexão. Hipótese segunda: pode tudo também dever-se a esta minha obsessiva necessidade de combater o caos, de perseguir uma ideia (a ideia) de ordem, de cósmica perfeição.
Os sonhos são um mistério quase doloroso e toda a vida me perturbaram. De alguns recordo só farrapos, cenas, emoções, a maior parte das vezes como se acordando voltasse para o lado de cá de uma questão maior por resolver.
De que planeta distante, em nós, vêm os sonhos? Quanto de nós dirão que, acordados, não somos capazes de alcançar? (Divinos hão-de decerto ser porque Deus é, na linguagem humana, um hiperónimo de todos os sonhos. Isto é, o que se vê e o mais que, não podendo deixar de existir, incompletamente percebemos.)
Fecho o caderno e vou corrigir trabalhos de Francês. Sirva a rotina para dar descanso ao cérebro. Agora, em vez de estar sonhando, há apenas frio na vila da minha escrita.

Ribeira de Pena, 16 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.blogsopramulheres.blogspot.com. Fui “lá” buscá-la, apesar do aviso.]

domingo, 15 de janeiro de 2012

Quintilha domingueira


Viemos à cidade apesar da neve
Ver o Sporting na televisão
E é sempre tão feliz, porém tão breve
Esta eternidade limpa e leve
De andarmos por domingo mão na mão.

Vila Real, 15 de Janeiro de 2012 (Braga, 2 – Querido Sporting, 1).
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (Dolce Vita Douro) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.efacec.pt.]

Sonho viajante


Sonhei com família, amigos, conhecidos, todos juntos na casa de minha mãe. Eu, sei lá porquê, aparecia com peixe fresco, havia uma algazarra de comentários e de sugestões para o almoço, a minha tia Belinha começava a lavar carapaus, raias, polvos, e o meu irmão Nelo, ainda petiz, queria água mas ninguém o ouvia.
Normalmente, esqueço-me dos enredos que há nos sonhos. Desta vez, não. O almoço terminava com a notícia de que eu me iria embora para longe e com os presentes discursando, um a um, as despedidas. Cada fala trazia um abraço comovente, a que eu respondia sempre com estúpidas piadas que à minha mãe, chorosa, escandalizavam.
Depois, eu afastava-me num táxi e, pelo vidro traseiro, ainda via as pessoas amadas (algumas já mortas, fora do sonho) dizendo adeus.
O mais misterioso deste devaneio onírico foi, no final, eu estar num lugar completamente estranho, afinal, como logo a seguir percebi, num outro tempo: a Idade Média. Um homem velho, com uma enxada na mão, aproximou-se e perguntou:
- Qui êtes-vous?
Eu acordei a gritar (ou julgando que gritava):
- Eu não sou daqui! Je viens d’un autre temps! Perdu, vous comprenez?

Ribeira de Pena, 15 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.hid0141.blogspot.com.]

sábado, 14 de janeiro de 2012

Condicional


In memoriam C. P.


Se eu pudesse desligar este relógio da minha cabeça
E em vez da vertigem circular dos ponteiros houvesse
Uma praia com areia pessoas peixes búzios mar!
Se eu pudesse fugir desta prisão que é não ter asas
E sonhar com voos para longe de estar preso!
Se eu pudesse sair desta férrea tristeza sem sol
E acrescentar ao estar esperando alguma esperança!
Se os dias fossem menos pesados menos brutos!
Se eu pudesse demitir-me das cãs dos cães do caos
E andar pela vida como um turista pássaro
Fotocantando o mundo fotoamando a luz!
Se eu fosse o Alberto Caeiro da minha própria existência!
Se eu fosse livre antes da morte em vez da morte!
Se houvesse luz em vez de EDP!
Se as águas portuguesas se libertassem das Águas de Portugal!
Se houvesse um Estado de Bem que nos desse bem-estar!
Se um verso enfim inteiro me dissesse e voasse
Para fora do grandiloquente planeta da Vulgaridade!
Se o silêncio ou a música me abrigassem
Me dissessem Senta-te e Escuta!
Se algo algures diferente da vida mas não a morte
Me abrisse a porta e dissesse Entra!
Se uma coisa nova se me inaugurasse enfim
E a rua onde estou fosse para sempre
Rua para completamente estar rua para ser!
Se eu fosse Eu ao sereno sol de Mira ou de Machico!

Ribeira de Pena, 14 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (vislumbre da Praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.flickr.com.]