Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Quadra de bem ver


Há óculos de ver ao perto
Outros há p'ra longe disto
Mas, para ver bem, o certo
É ver por dentro do visto.

Ribeira de Pena, 16 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.amigosdobotanico.blogspot.com.]

O mistério dos sonhos


Sonhos de novo.
Por várias horas, esteve o meu cérebro ocupado com arrumações: livros, papéis, sapatos, candeeiros, produtos de higiene, material de escritório, ferramenta avulsa, chaves, louça, fotografias, tomadas, extensões para tomadas, lâmpadas. Consigo recordar que se tratava da minha garagem-escritório em Coimbra, mas igualmente me apareceram lapsos da sala de professores de Ribeira de Pena e do Arco.
É à volta do meio-dia que me visto de auto-Freud e tudo se me afigura uma pulsão de viagem e/ou de despedida. À revelia de mim, segundo parece, o meu cérebro revolta-se e sugere (senão anuncia) mudanças.
Tive entretanto tempo para voltar à reflexão. Hipótese segunda: pode tudo também dever-se a esta minha obsessiva necessidade de combater o caos, de perseguir uma ideia (a ideia) de ordem, de cósmica perfeição.
Os sonhos são um mistério quase doloroso e toda a vida me perturbaram. De alguns recordo só farrapos, cenas, emoções, a maior parte das vezes como se acordando voltasse para o lado de cá de uma questão maior por resolver.
De que planeta distante, em nós, vêm os sonhos? Quanto de nós dirão que, acordados, não somos capazes de alcançar? (Divinos hão-de decerto ser porque Deus é, na linguagem humana, um hiperónimo de todos os sonhos. Isto é, o que se vê e o mais que, não podendo deixar de existir, incompletamente percebemos.)
Fecho o caderno e vou corrigir trabalhos de Francês. Sirva a rotina para dar descanso ao cérebro. Agora, em vez de estar sonhando, há apenas frio na vila da minha escrita.

Ribeira de Pena, 16 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.blogsopramulheres.blogspot.com. Fui “lá” buscá-la, apesar do aviso.]

domingo, 15 de janeiro de 2012

Quintilha domingueira


Viemos à cidade apesar da neve
Ver o Sporting na televisão
E é sempre tão feliz, porém tão breve
Esta eternidade limpa e leve
De andarmos por domingo mão na mão.

Vila Real, 15 de Janeiro de 2012 (Braga, 2 – Querido Sporting, 1).
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (Dolce Vita Douro) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.efacec.pt.]

Sonho viajante


Sonhei com família, amigos, conhecidos, todos juntos na casa de minha mãe. Eu, sei lá porquê, aparecia com peixe fresco, havia uma algazarra de comentários e de sugestões para o almoço, a minha tia Belinha começava a lavar carapaus, raias, polvos, e o meu irmão Nelo, ainda petiz, queria água mas ninguém o ouvia.
Normalmente, esqueço-me dos enredos que há nos sonhos. Desta vez, não. O almoço terminava com a notícia de que eu me iria embora para longe e com os presentes discursando, um a um, as despedidas. Cada fala trazia um abraço comovente, a que eu respondia sempre com estúpidas piadas que à minha mãe, chorosa, escandalizavam.
Depois, eu afastava-me num táxi e, pelo vidro traseiro, ainda via as pessoas amadas (algumas já mortas, fora do sonho) dizendo adeus.
O mais misterioso deste devaneio onírico foi, no final, eu estar num lugar completamente estranho, afinal, como logo a seguir percebi, num outro tempo: a Idade Média. Um homem velho, com uma enxada na mão, aproximou-se e perguntou:
- Qui êtes-vous?
Eu acordei a gritar (ou julgando que gritava):
- Eu não sou daqui! Je viens d’un autre temps! Perdu, vous comprenez?

Ribeira de Pena, 15 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.hid0141.blogspot.com.]

sábado, 14 de janeiro de 2012

Condicional


In memoriam C. P.


Se eu pudesse desligar este relógio da minha cabeça
E em vez da vertigem circular dos ponteiros houvesse
Uma praia com areia pessoas peixes búzios mar!
Se eu pudesse fugir desta prisão que é não ter asas
E sonhar com voos para longe de estar preso!
Se eu pudesse sair desta férrea tristeza sem sol
E acrescentar ao estar esperando alguma esperança!
Se os dias fossem menos pesados menos brutos!
Se eu pudesse demitir-me das cãs dos cães do caos
E andar pela vida como um turista pássaro
Fotocantando o mundo fotoamando a luz!
Se eu fosse o Alberto Caeiro da minha própria existência!
Se eu fosse livre antes da morte em vez da morte!
Se houvesse luz em vez de EDP!
Se as águas portuguesas se libertassem das Águas de Portugal!
Se houvesse um Estado de Bem que nos desse bem-estar!
Se um verso enfim inteiro me dissesse e voasse
Para fora do grandiloquente planeta da Vulgaridade!
Se o silêncio ou a música me abrigassem
Me dissessem Senta-te e Escuta!
Se algo algures diferente da vida mas não a morte
Me abrisse a porta e dissesse Entra!
Se uma coisa nova se me inaugurasse enfim
E a rua onde estou fosse para sempre
Rua para completamente estar rua para ser!
Se eu fosse Eu ao sereno sol de Mira ou de Machico!

Ribeira de Pena, 14 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (vislumbre da Praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.flickr.com.]

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Clara Amiga


Recebi um email do meu colega e amigo Paulo Correia de Melo dizendo o seguinte:

"Amigos,
Cumpro o doloroso dever de vos comunicar que faleceu a nossa colega/ amiga Clara Póvoa. O funeral realiza-se amanhã, sábado, às 15 horas, a partir da Igreja matriz de Cantanhede.
Paulo Correia de Melo"

A Clara Póvoa era uma das mais distintas pessoas que me foi dado conhecer ao longo de quase trinta anos de profissão: competente, dedicada, profissional, simpática, normalmente de bem com a vida.
Mesmo depois de ter saído da Escola Secundária de Cantanhede, mantive - em grande parte, por ela - contacto com colegas, alunos e funcionários desse espaço exemplar da Educação Pública.
O facto de a Clara ser responsável pela Biblioteca contribuiu para que, durante estes últimos dez-quinze anos, reforçássemos laços e cumplicidades. Ela era amiga dos livros, dos alunos e dos colegas, da Escola e da Vida. Minha amiga.
Vou (vamos todos) ter muitas saudades desta inesquecível Mulher que tinha no nome uma espécie de marca d'água do seu carácter limpo e lindo: Clara.
Adeus, tão querida Amiga!

Arco de Baúlhe, 13 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Grau abaixo de Zero


Soube-se agora: vários nomes obviamente associados ao arco (político-partidário) do governo foram "nomeados" para a administração da EDP.
O senhor primeiro-minstro já disse que se tratava de coincidência e que o seu governo não meteu prego nem estopa nas escolhas.
O povo não acredita (chinesices de gente pobre).
Vale contudo a pena referir que o salário de Sua Excelência Eduardo Catroga vai andar à volta dos 650 mil Euros anuais, valor que acumulará, sem remorsos, com uma pensão de cerca de dez mil Euros mensais.
A questão é que este foi um dos senhores que, alto e bom som, lembrou ao povo que era preciso fazer sacrifícios para salvar o país. Que terão a dizer, sobre o assunto, os desempregados portugueses? Ou os cidadãos que não conseguem fazer face aos aumentos de medicamentos e taxas moderadoras, rendas de casa, portagens?
Assistimos, senhores, à morte do chamado "grau zero" da vergonha. Abaixo desse limiar há uma coisa a que, à falta de outro termo publicável, chamarei Nojo.
A nossa modernidade é isso: um Nojo.

Ribeira de Pena, 12 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.makejetomosso.wordpress.com.]

Metáfora óbvia


O mundo (repito repito repito) é metáfora do mundo.
O clima, por exemplo. Este clima. Um frio que invade tudo, todos. O vento soprando como bofetadas. O cão do Inverno mordendo pele, ossos, sangue.
Caracolizamo-nos. Regressamos, pelo tempo que for possível, à casca protectora. Defendemo-nos. Hibernamos moderadamente.
E vamos ansiando pelo sol. Vamos fazendo contas até ao Verão.
Olhai que este clima, lido bem, é mais que este clima. É o monte Calvário da nossa circunstância. Nossa, isto é, de nós individualmente ou como família. Ou como povo.
Este clima, este frio, este défice de sol.

Ribeira de Pena, 12 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.sylvie-stuff.blogspot.com.]

Malhas que a noite tece


Anoitece mansamente pelas seis da tarde.
Vejo a luz dissolvendo-se em noite, em nada.
Pouco a pouco, candeeiros públicos começam a funcionar e, nos lares que o olhar alcança, acendem-se outras luzes. Luzes, digo, daquelas adivinhadamente impregnadas do secreto aconchego que sempre haverá no âmago milenar das casas.
Tenho saudades de voltar para a minha casa de há trinta e cinco anos, no ocaso do dia, viajando de eléctrico ou de trolley, de autocarro (número 2 – Pedrulha).
A luz da cozinha trazia a Mãe à porta e havia a televisão ligada, o odor a sopa nova (talvez caldo verde), o barulho de crianças na velha ladeira entre a rua e o pátio.
Talvez a minha filha haja passado, também, por este país tranquilo e amável – e eu próprio tivesse sido para si parte do encanto que era ela chegar a casa.
Hoje em dia, eu e a MP estamos, as mais das vezes, incompletos. A VL saiu do berço e nós ficámos atordoados como decerto ficam as andorinhas em final de Verão. Que fazer aos olhos, às mãos, ao tempo?
A distância entre nós e os que amamos é um mar muito triste e, por vezes, corrosivo. (O telemóvel é, nesta contemporaneidade tão delicada, uma espécie de bóia que nos salva de dar em doidos!)
Anoitece mansamente pelas seis horas da tarde.

Cabeceiras de Basto, 10 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.flickr.com.]

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Riso às vezes


Ando tristemente pela estrada
No colo chaplinesco da Beleza.
Às vezes solto alguma gargalhada
Mas tal, até em mim, é uma surpresa -

Porque é sobretudo o estar triste
A minha verdadeira natureza
E o meu riso, escuta, se o viste
É uma frágil forma de defesa:

Por ser pesada a vida e o juízo
Sobre o meu futuro sem fulgor
Eu rio-me por vezes, mas o riso
É uma frágil folga para a Dor.

Arco de Baúlhe, 11 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.allposters.pt.]

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Variação sobre verso de Eugénio


"O desejo, esse cão, deixou de me ladrar à porta"
(Eugénio de Andrade)


Perdoai a ausência de antigos furores
E o sono intermitente do desejo -
Ao Tempo não escapam os amores
E, vista a nova idade como a vejo,
Em vez de muitos beijos num só beijo
Pode haver a cor de outras mil cores.

Ribeira de Pena, 09 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (Eugénio de Andrade por Emerenciano) foi colhida, com a devida vénia, em http://jq.weblog.com.]

Explicação muito adverbial da Paciência


Estoicamente sobrevivemos ao Inverno
Espreitando as mínimas migalhas de luz.
Mansamente recebemos o frio
E dignamente aceitamos o haver apenas o que há
Antes do Verão que juntos veremos (verás).

Delicadamente levo a tua mão à boca
E beijo-te os dedos como se já o sol chegasse
Depois segredo-te um verso indecente sobre o desejo
E atiço a lareira cúmplice da nossa espera.

Estoicamente estamos (somos o que estamos)
Mansamente hibernamos, contudo resistindo
Dignamente expiamos o Verão anterior.

Pela janela, para lá de longe, há o Porvir
(Não te admires, Senhora, por eu sorrir) -

Não obstante as rugas e os cansaços
Ao Verão, amor, ainda chegaremos
Quero dizer, amor, ainda voltaremos
À praia que mereça os nossos passos.

Ribeira de Pena, 09 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (pintura de Monet) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.livre-e-humano.blogspot.com.]

domingo, 8 de janeiro de 2012

A lógica dos mercados


A lógica que presidiu à introdução de portagens nas ex-scut é, em boa verdade, a mesma que determina a subida de taxas moderadoras nos hospitais e centros de saúde (e outros fenómenos semehantes).
No caso das ex-scut, os pregadores neoliberais defendem esse divinizado princípio do "utilizador-pagador". Tretas! O que acontece é as boas estradas serem, afinal, para quem tem dinheiro para as pagar. Para "os outros" (a plebe sem recursos económicos), restam as estradas menos rápidas, menos modernas, menos seguras. Já os antigos diziam: "Quem não tem dinheiro não tem vícios."
Portugal (ou o melhor de Portugal) não é, como se vê, para pobres.

Ribeira de Pena, 08 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.altamiroborges.blogspot.com.]

sábado, 7 de janeiro de 2012

TDT: a portuguesa falta de decoro


Com a cumplicidade (muitas vezes sob a forma de envergonhado silêncio) de gente importante, está em curso uma das maiores vigarices de que a sociedade portuguesa tem sido vítima. Falo da TDT (Televisão Digital Terrestre). É bom que se reflicta um pouco sobre o assunto.
Uma certa patine de indiferença parece acompanhar a ténue discussão. Creio que tal se deve, em grande parte, à circunstância de os opinion makers da lusa paróquia consumirem tv por cabo e de, por isso, não sentirem na pele o problema.
O que se pretende é que muitos portugueses comprem os dispositivos necessários à TDT, sem o que pura e simplesmente perderão o direito (até aqui tido por adquirido) de ver os canais generalistas.
Para além da vergonhosa chantagem que se faz sobre os pobres consumidores de televisão, há este inelutável facto: senhores importantes querem que a plebe pague para patrocinar a mudança decidida pelos ditos senhores importantes.
Acresce que as condições de acesso à TDT não custam o mesmo em todas as regiões de Portugal!
Perceba-se: esta mudança da analógica para a digital terrestre deveria ser paga pelos próprios operadores e pelo Estado (que, através das facturas da EDP, recolhe não despicienda quantia para a televisão pública).
Em boa verdade, os principais prejudicados com a eventual não adesão do público à compra do dispositivo seriam os próprios canais de televisão. A sacrossanta publicidade precisa de público potencial e as televisões precisam da sacrossanta publicidade.
Trata-se de um negócio de milhões. Para milhares de humildes cidadãos, é logo à partida um negócio de perder. Para meia dúzia de espertalhões, é mais uma "janela de oportunidade".
Não tem faltado só bom senso neste processo. Tem faltado decoro.

Ribeira de Pena, 07 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http:www.dinheirovivo.pt.]

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Poema de ir andando


A cada manhã enfrento, no viver, a dor
De o temido futuro se me fazer presente.
Mas um pouco de sol me basta, amor
Para acreditar, para ser contente.

Arco de Baúlhe (intervalo para almoço), 06 de Janeiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ecosdebasto.com.]