Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Soneto de uma folha passando pelo Natal


Do Natal que vinha-veio-desaparece
Hei-de um dia ter saudades, ao contrário
Do Natal que ora, ao perto, me parece
Um fatal quase fardo calendário.

Que Natal é a Mãe viva ainda, o lar
Semelhante ao berço d'antes, imortal -
É uma mesa grande a recordar
Fantasmas de outra mesa quase igual.

Eu sou folha só no Tempo em voo brando
Soprada a brisa bruta ou mais leve
(A minha biografia é ir passando) -

Olho às vezes para trás como se deve
Fazer a meio do voo - e é quando
Sei de Natal (ou Vida) que é tão breve.


Coimbra, 25 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://meme.yahoo.com.]

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Boas Festas


Aos meus Amigos, às minhas Amigas,

peço desculpa por esta mensagem estar ferida da imperfeição que é ser escrita para muita gente ao mesmo tempo, não obstante cada amiga e cada amigo serem, pela própria natureza da Amizade, únicos. Perdoai.

Perdoai igualmente as falhas de que, ao longo do ano (ao longo da Vida), sou culpado: nem sempre estar imediatamente pronto para vós, nem sempre ter tempo para vós, nem sempre vos dispensar a atenção que, por definição, um amigo merece. Sou humano, também no pior sentido, isto é, com falhas muitas, falhas tantas.

Mas não me esqueço de vós - e, na maioria dos casos, ainda terei tempo (espero) para esta frase se tornar absolutamente indiscutível.

Desejo-vos boas festas e espero que, juntos, possamos resistir às dificuldades que o futuro inevitavelmente nos trará.

Saúde & Sorte, Amigas, Amigos!


Coimbra, 23 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (Charlie Brown e amigos) foi colhida, com a devida vénia, de Peanuts, de Charles M. Schulz.]

Metáforas para quê (Arte Poética)


Metáforas porquê, para quê, perguntas
No devir de leituras à hora do café.
Respondo-te como sei, afinal repetindo
O que já há séculos
(hipérbole catacrética)

Te venho afirmando em verso e prosa:
Metáforas por não saber, amor, da linguagem
O bastante para dizer quanto queremos
Ou por sentir o insuportável excesso do por-dizer
(Face, amor, aos limites do código que nos deram).

E vê que o mesmo explica talvez a poesia em geral
Ou a narrativa em seus vários rostos
Ou a rima e os rimos das palavras entrebeijando-se
(E o iô-iô de brilhos e de sentidos nelas, delas).
Vê ainda que a ideia de metáfora atravessa a pintura
E a escultura, e outras artes
(Exceptua a Música que é uma coisa maior -
Uma espécie de verdadeiro Deus universal
Acima d'isto tudo que ora digo).


A metáfora, amor, é uma arma
Contra (digamos assim) a falta de linguagem essencial.

O poeta, amor, usa (assim digamos) a metáfora
Em legítima defesa.

Coimbra, 23 de dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho.
[A imagem (Cesário Verde, por que motivo não?) foi colhida, com a devida vénia, na wikipedia.]

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

La durée (versão optimista)


Tenho, em cada poro, em cada lapso de real visto, em cada transeunte, uma oferta da vida como ela (me) é. A verdade chega-nos mais nítida à medida que vamos ficando antigos: é, senhoras & senhores, isto. É o que nos é dado alcançar com os dedos ou os olhos: árvores, amores, amigos, ruas (conhecidas ou não), telefonemas, emails, um certo livro certo (novo Vargas Llosa por estes dias), uma crónica de Pina no JN, um poema no canil do Daniel Abrunheiro, um golo do Sporting (Carrillo, de cabeça - eia!), uma promessa a mim próprio, uma efeméride (boa ou má), um excesso de sangue por desaguar à passagem de Gwyneth Paltrow.
Caminho por Coimbra, ao entardecer, com fingida pressa, apenas para não destoar dos passos azafamados de conterrâneos com hora marcada para algum dever. Num Café, junto à rodoviária, tomo um café e saboreio um um pastel de Tentúgal, mas do que me alimento mais é desta coisa imprecisa, porém física, chamada hoje.
Café, pastel de Tentúgal, dia: sabe-me tudo tão bem!

Coimbra, 22 de dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (avenida Fernão de Magalhães, foto antiga) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.forumcoimbra.com.]

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Um Camilo em seu convencional deserto



Uma criatura com ares de doutor em economia, de fraca figura e de frágil gramática, anda há uns anos a falar das finanças portuguesas na televisão por cabo e, de quando em vez, na TVI e no Diário Económico. Chama-se Camilo Lourenço e, entre muitos clichês (que não desmereceriam o mais caceteiro dos taxistas do aeroporto), deu agora em opinar sobre o que manifestamente desconhece - professores, avaliação, sindicalistas. Ora, um ignorante com tempo de antena, num país de pacóvios, pode bem tornar-se numa espécie de guru dos tristes. E, hélas, tal sucedeu!
O seu mais recente arroto opinativo foi sobre Mário Nogueira e o facto de este decano sindicalista ter sido avaliado, enquanto professor "de carreira", com a classificação de "Bom". O escândalo, na peixeirada enunciatória do senhor Lourenço, estava na circunstância de Mário Nogueira não dar aulas há 21 anos. Se o pobre plumitivo se tivesse instruído um pouco mais acerca do assunto, correria menos riscos de dizer as baboseiras que diz...
A avaliação de um sindicalista, que se mantém "professor" porque essa é a sua profissão, faz-se nos termos aceitáveis que o seu labor específico, em cada circunstância, determina. O mesmo se passa, afinal, com professores avaliadores, professores formadores, professores com funções de gestão, etc.
Já me parece mais estranha a sua aversão (também cultivada, por exemplo, por Sócrates e por Passos Coelho) ao sindicalismo tout court (e Lourenço fala mesmo de quem anda "naquela vida"). Tresanda a saudosismo salazarento, ó Camilinho!
Qualquer português sem preconceitos percebe esta verdade óbvia: se o Mário Nogueira "lhes" provoca tantos pruridos, é porque o sindicalista está a fazer bem a sua função. E eu, que nunca fui da sua cor partidária, admiro neste homem a seriedade, a coerência, a coragem - e a paciência (mais cristã, até, que marxista) com os camilóides desta vida...
Um abraço (e um cravo vermelho) para Mário Nogueira!

Coimbra, 21 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pracadarepublicaembeja.net.]

Nobre Povo


O governo português (supostamente formado por portugueses) quer pôr os portugueses a emigrar. A Troika (que não quer senão garantir os Euros dos portugueses) quer que governo e patrões portugueses despeçam os trabalhadores portugueses. Alguns portugueses, intoxicados por governantes portugueses (de Sócrates a Passos Coelho) e por loquazes plumitivos portugueses (de Sousa Tavares a Pereira Coutinho), vão defendendo, de modo directo ou indirecto, o ataque ao funcionalismo público - portugueses ao serviço de portugueses - como panaceia (ou vingança) para os problemas dos portugueses.
Os próximos capítulos prometem.

Coimbra, 21 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.essps.pt]

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Anedota com Freud e aliterações (tudo inventado)


Em Viena, em velha casa de passe
Enfrentou Freud frígida fraulein
E embora herr Sigmund se esforçasse
Por acordar na liben Grafstein
A líbido perdida (e a infância) -
Não pôde nela encontrar o homem
O frémito frenético (essa ânsia
de fomes que se comem ou nos comem).

Ribeira de Pena, 19 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (uma pintura de Claude Monet, datada de 1868 e intitulada "La rivière") foi colhida - com a devida vénia - em http:www.artfindig.com.]

domingo, 18 de dezembro de 2011

Versos sobre a eterna idade


Amo muito as pessoas que amo
(Não há, creio, outra forma de amar senão esta
Com o advérbio muito sempre vizinho do verbo –
E nenhum problema vejo nessa intensa condição amatória)
Mas amo excessivamente as pessoas que amo mais
Que todas
E sangro todos os dias de mais pelo excesso de saudades
De elas não estarem fisicamente ao pé de mim amando-as.

Todos os dias é como se morresse por temer que se vão.
Todos os segundos, incluindo os dos meus frágeis sonos, doem.
Morro antes de morrer por não suportar a ideia de Fim um dia
(Conhecendo contudo essa fatalidade insuportável de haver fim:
O meu pai, o José Manuel, o Mestre João, a minha infância)
E quase me apetece a morte para não a sentir mais, isto é
Para, morrendo, haver enfim a morte da morte, isto é
O amor simplesmente, que era o meu destino verdadeiro
Antes de o mundo se complicar tanto, se sujar tanto, se estragar
Tanto.

Era uma vez o meu pai a cantar uma música do tony de matos
E a minha mãe a chegar da praça com peixe couves fruta pastéis
Um livro (para mim que estou felizmente doente e tenho estes mimos)
E a televisão a começar ao meio-dia com a mais louca corrida do mundo
E ruídos de carros, de vozes (gargalhadas de algum operário da Renault)
E lá fora o cão Dick a ladrar, como sempre, como amanhã decerto, isto é
O tempo repetindo-se igual e simples sem mudanças, sem fim obrigatório.
Era uma vez a Eternidade, aquela certa terna eterna idade.

A verdade do apocalipse chega-me quarenta anos atrasada
Muito outra da catequista sensual do Bairro do Brinca, rapariga
Terna e paciente, que cheirava a flores e gostava da minha escrita
(Os meus primeiros prémios literários foram as suas mãos sobre
O meu cabelo, a sua voz doce elogiando-me, o talvez pecado
Dos seus olhos amarando nos meus, ou vice-versa):
Inferno, mãezinha, é haver morte. E o céu é não bem
O presente, mas aquele tempo em que estivemos já, lembras-te -
Era a nossa Casa antiga, essa concha anti-nuclear que cheirava
A café e a torradas logo pela manhã, a tua voz embalando o Nelo
A Fátima muito loira e bonita com uma bandoleta branca
O Tó sonhando com motos e carros ao lado do pai, e eu
Muito precocemente assustado com a possibilidade de algo mudar
(Eu contra o Tempo, muito antes de perceber que havia inferno),
Mãezinha.

Acordei hoje cheio de saudades e de raiva contra o verbo morrer.
Escrevo como quem diz palavrões e faz figas.
Está um Dezembro frio na avenida da Noruega, em Ribeira de Pena.
A puta da morte que me saia da frente, pá, e me deixe ver ainda
O sol que há!

Ribeira de Pena, 18 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (já utilizada neste Muito Mar em ocasião anterior) reporta alguma tarde na Praia de Mira, aí por 1969.]

sábado, 17 de dezembro de 2011

Dezembro com Novidade


Tarde de Dezembro, fim do primeiro período de aulas, sala de convívio da minha escola, aí pelas cinco da tarde. Os alunos do Clube de Música (sob direcção do meu competentíssimo colega Vítor Santos) chegam ao palco e, vencidos os primeiros nervos, cantam. No público (em mim), sucede à descontracção uma espécie de aviso de Novidade iminente, algo entre o religioso e um aviso de terramoto da Protecção Civil: canções dos Queen, de Adele, dos Guns & Roses, do Projecto Amália, etc. assaltam-nos ouvidos, inteligência, coração.
Apeteceu-me chorar, em determinado instante. Porque, irmãos, a Beleza pode doer mortalmente - como tão bem se lê na menina Cristina (inventada por Vergílio Ferreira) da Aparição tocando piano ou iluminando apenas com a sua presença as existências à roda.
Murmurei para o lado – para o Dinis, a Cláudia ou o Vitor: “Isto é tão importante, pá. Será que eles sabem disto lá em Lisboa?”
Com “Eles” queria (quero) dizer os governantes, a religião matemático-liberal de muitos governos e ministérios da educação…
Houve, nesta querida tarde de 16 de Dezembro, desde as duas às cinco e meia, um lume bom à volta e por dentro de nós. Eu também já tive professores que, nos anos setenta do século XX, me puseram a cantar, a representar, a declamar, a apresentar festas. A minha escola era a Rainha Santa Isabel, à Pedrulha, e dela me acontece frequentemente ter saudades muitas. Estou agora deste lado (o Presente), no aconchego cúmplice de outros colegas tão professores como se deve ser, versão possível do meu setor Silveira, ou Gouveia, ou da setora Dora. Os olhos contemporâneos dos alunos do Arco são os meus olhos daquele longínquo século XX: estado puro puro puro de alegria e de felicidade.
De modo que, digamos, ser professor é coisa formosa e doce, apesar de tudo quanto de feio e amargo outros nos digam, façam.
Com “outros” quero dizer “eles”.

Ribeira de Pena, 17 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (inspiração provável de Vergílio Ferreira para a personagem Cristina, de Aparição), foi colhida - com a devida vénia - em http://vferreira.no.sapo.pt.]

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O que é difícil


Segunda-feira, 12 de Dezembro. Aproveito duas horas de intervalo em afazeres familiares para corrigir testes de Francês, à mesa de um Café sossegado numa rua discreta da Póvoa de Varzim. A empregada observa-me de soslaio. Traz-me um, dois cafés. Eu aponto-sublinho-evidencio erros. Aprovo-felicito-pontuo méritos. Dez, vinte, vinte e cinco testes. Ficam por corrigir algumas composições e lançar na grelha os resultados obtidos pelos meus alunos. Coisa para se concluir, portanto, à noite, talvez à lareira.
Peço ainda uma torrada e um chá. A empregada não resiste à interpelação que talvez lhe estivesse mordendo a língua há muito tempo:
- É professor, não é?
Lá lhe confesso que sim.
E ela:
- Ai, coitadinho!... Imagino o difícil que deve ser corrigir tantos testes.
A réplica sai-me automaticamente, obtemperada por sorriso antigo e triste:
- Difícil é estar desempregado...

Ribeira de Pena, 14 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.precariosinflexiveis.org.]

P'lo olhar


Tantas vezes caio na Rua Tristeza;
Como tantas vezes o pó de mil vidas.
Mas às vezes subo, p’lo olhar, à Beleza
E vale tudo a pena, quedas incluídas.

Ribeira de Pena, 14 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (d'A Insustentável Leveza do Ser, de Kundera/Kaufman) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.biancache.blogspot.com.]

História para o Porvir


Dou-te, vida, a mão e levo-te ao cinema
(Rio-me contigo na penumbra da história)
Cá fora, entre choupos, invento um poema
Que por mim guardas (ou não?) na memória.

Compro-te um gelado se for verão
(Ou um croissant quente no inverno)
Dou-te, talvez tremendo, a minha mão
E falo-te baixinho, grave e terno.

Despeço-me no Arco de Almedina
Logo deixando, ó triste, de existir
(Tão grande é essa força pequenina)...

Até que eu fico, enfim, em vez de ir!
E eis, vida, o mais que há da minha sina
Para contar aos outros no porvir.

Ribeira de Pena, 13 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Luzes da Cidade, de Chaplin) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ochaplin.blogspot.com.]

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Vita Brevis


Há das casas a sombra ao entardecer
E sinos repicando o nosso fim.
Ai, breves são a luz e o viver
E é tão grande o Mar depois de mim!

Ribeira de Pena, 12 de dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto (assinada por Luísa Costa) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.aeiou.com.
Este é o último poema do meu livro A Palavra Vale, trabalho com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

PS: Thierry Proença dos Santos, Professor e investigador da Universidade da Madeira, fez parte do Júri deste Prémio Literário, na companhia de José Eduardo Franco, escritor e Professor no Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa da Universidade de Lisboa; de Jorge Moreira, presidente da Assembleia Municipal de Machico; de Lucinda Moreira, docente de Português da Escola Básica e Secundária de Machico; de Nelson Veríssimo, escritor e Professor da Universidade da Madeira; de José Tolentino Mendonça, poeta e Professor da Universidade Católica de Lisboa; e de Leonor Martins Coelho, Professora e investigadora da Universidade da Madeira. Ora, Thierry Proença dos Santos redigiu para o volume publicado pela Junta de Freguesia de Machico um belo texto intitulado “Breves notas de leitura em jeito de Prefácio”. Respigo dois trechos que particularmente me souberam a um delicioso bónus, por ser tão gratificante, aos olhos de quem escreve, perceber nos outros olhares assim atentos e competentes sobre a escrita feita.
Referindo-se ao meu trabalho, A Palavra Vale, ao de Amadeu Baptista, Sequência de Machico, e ao de Luís de Aguiar, Machico. Quebranta Terra Onde Choram os Pássaros, diz (pp. 10-11):
“Cada uma das obras traduz, à sua maneira, modos de conhecimentos sobre Machico que a escrita transforma em fábula do lugar, ou melhor, em lugar fabuloso. Os sujeitos poéticos cruzaram os sítios e os tempos deste povoado, as crenças e os gestos do seu quotidiano, os dados históricos e a sua tradição ancestral. Fizeram emergir ecos de outras culturas (clássica, oriental, literária), perspectivando deste modo a cultura local e conectando-a ao resto do mundo. Captaram realidades físicas do espaço evocado, reconfigurando-as por meio da subjectividade e estabelecendo, por conseguinte, um vínculo transtemporal e transgeográfico. Nestas transacções de índole espiritual, a temática da escrita do tempo, da vida e do cosmos emerge entrelaçada nas suas dimensões eufórica e disfórica, unificadas tanto pelo reiterar de tópicos (a lenda de Machim e de Ana d’Arfet, vultos históricos, o diálogo com o destino, Machico e a sua toponímia, o sentimento insular da distância, provas de vida que as circunstâncias locais originaram…) como pelo questionamento da essência humana na sua relação com o espaço que o circunscreve.”

Referindo-se especificamente ao meu trabalho, escreve (pp. 11-12):
“A composição A Palavra Vale, de Joaquim Jorge Carvalho […], cativa pelo modo como liga ironicamente a convenção literária com o íntimo processo criativo. Os vinte poemas aqui conjugados alternam formas e modelos, de tradição erudita ou popular, e surgem-nos ligados à declamação ou à recitação, com uma qualidade rítmica e musical apreciável, sem deixar de exibir intencionalmente as costuras da técnica expressiva do fazer poético. Num tom por vezes paródico, a exuberância da voz do texto revela-se na abordagem lúdica do tema, ao desconstruir formas fixas e figuras de estilo (ousando até trocadilhos), convidando o enunciatário a confrontar-se com este rodopio de versos multiformes e multisignificantes. Por vezes, o sujeito poético procura dar o ponto de vista do lugar, o da baía de Machico, ou recriar possíveis falas da terra e das suas gentes (preste-se atenção ao jogo das interpelações: o sujeito dirige-se ora a um vós extemporâneo, ora a Tristão Vaz, ora à pessoa amada, ao público em geral…). Assim, A Palavra Vale apresenta-se não somente como reflexão sobre a linguagem e projecção de um espaço arquetípico, mas também como sonho e jogo de vida interior, combinado com um fino sentido de auto-derisão.”


O meu obrigado a Machico, pois claro!
JJC

Caminho solar


Os meus passos a caminho da praia
Assustam as lagartixas
Esfomeadas de sol.
Olho para trás para as ver rir
Do meu próprio susto verde
E rio-me também.

Ribeira de Pena, 12 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.po-d-arroz.blogspot.com.
Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

Fruta do Dia


Em memória da Dona Carolina Freitas Spínola, avó da MP.


A velha sentiu a luz solar
Descendo sobre a anoneira
E comeu a anona como se fosse o sol.
Em seu coração sentiu
Naquela manhã
Que era para sempre dia.

Ribeira de Pena, 12 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.amador.blogs.sapo.pt.
Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]