Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Forte


Do Forte à minha infância
É um instantinho só.
Piratas espreitam silenciosamente
A praia
E eu escondo-me e disparo
Imaginários canhões de muito, tanto alcance.

Sobre o mar há balas e destroços
Como surfistas colorindo a tarde –

Digo
(ou penso)
Meus senhores,
Sou eu o salvador da baía!

E rio-me por dentro
Do aparente velho que se vê.

Ribeira de Pena, 08 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.buzico.no.sapo.pt. Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Linda


Os melhores romances
Os melhores poemas
As mais belas palavras da língua
Estão nos teus olhos,
Linda.

Enquanto a camioneta não chega
O entardecer resiste à noite
Porque
O sol nasce de estares olhando a rua
Entardecida
Porque
Os teus olhos são o contrário da noite.

Que triste é ver-te partir
Pelas seis e meia da tarde.
Que triste é o mar por não estares.
Que triste é haver noite,
Amor.

Ribeira de Pena, 07 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.g6-team.net. Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Deus e o encenador cansado

A peça foi escrita por mim e chama-se "Às portas do Céu". Há nela, à maneira de Mestre Gil, personagens celestes ou para-celestes, como Deus, S. Pedro e alguns anjos funcionários. E há as almas, de méritos diversos e sempre discutíveis, em busca da respectiva Eternidade.
O rapaz que representa Deus portou-se mal - uma vez, duas, três, quatro, demasiadas vezes. Exausto, optei enfim por expulsá-lo do palco e obrigá-lo a jazer, por uns inteiros dez minutos, no fundo da sala, junto à porta.
O resto do ensaio correu bem.
De modo que, concluo, às vezes é preciso pôr os actores na ordem para a peça verdadeiramente se concretizar. Nem que o problema seja com Deus.
Amen.

PS: E Deus me perdoe a redacção.

Arco de Baúlhe, 06 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.guerreirodareal.blogspot.com.]

O Furado


O meu coração começa antes do furado
A caminho da Prainha.
Para lá chegar
Sobe-se a Ribeira Seca
E mais montanha,
Atravessa-se
A ausência de luz
E confia-se no mar a haver
Depois.

Notai, porém, que o meu coração não
Se confina a uma freguesia
Só.

Arco de Baúlhe, 06 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.diariobombeiro.blogspot.com. Este poema faz parte do meu livro de poesia "A Pakavra Vale" com que venci o Prémio Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Machico, 2010). A Junta de Freguesia publicou, em Outubro de 2011, um volume que compreende este trabalho e os dos autores classificados em 2.º e 3.º lugar. Uma nota mais: O termo "furado" significa, na Madeira, "túnel".]

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Poema do Engenho


À noite a voz do engenho
Fala d'avós de antanho.

A santidade do lugar vem da história
Tem a santa idade da memória.

Um eu antes de mim passou por além
E as saudades que sinto são de si também.

À noite o engenho regressa -
É a regra, essa:
Quando a noite regressa.

Ribeira de Pena, 05 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vistadaserra.blogspot.com. Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

domingo, 4 de dezembro de 2011

Baía (bem) dita


De poucos versos se faz uma baía -
Um talvez que vá da Queimada ao Forte
E outro que seja o mar assediando as pedras.
Poucos mais se requerem,
Mas é preciso que cada verso
Seja o verso indicado, se possível exacto
(que enfim a gramática do que digo esteja certa).
Sem isso a baía dita não seria esta baía que quero dizer
E os meus versos, por não serem meus, não seriam
Versos.

Ribeira de Pena, 04 de dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.hoteis.com. Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

sábado, 3 de dezembro de 2011

Efeméride pequininha


Vinte e oito anos depois daquele dia frio e célere: a cabeleireira da rua sem tempo para pressas; a Salvina , nosso porto santo e desconcertante; tu entrando, por engano doido, no carro de um sapateiro que nada tinha que ver com o casamento; a velocidade suicida do meu irmão Tó transportando-te até à Igreja de Santa Cruz; algumas colegas de faculdade espreitando, à esquina do Café homónimo, a novidade que éramos; o padre José furioso com o atraso e o seu discurso vertiginoso até aos nossos sins; a festa italiana na garagem do senhor Antero; a tua irmã cobiçada pelos fotógrafos e, no silêncio ao lado, o teu irmão Fernando ainda imortal e luminoso; o teu pai, o meu pai, o senhor Antero, todos muito antes de estarem mortos; a tua mãe ainda nova e espantada com o tamanho do almoço; a minha mãe ainda nova e rindo-se de alguma piada brejeira da tia Belinha; tu tão formosa como a melhor literatura que eu já alguma vez tivesse conhecido; a VL nove meses depois para ficar tudo certo.
Vinte e oito anos já!
Obrigado, pequininha.

Ribeira de Pena, 03 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (uma rosa para a MP) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.globomidia.com.]

Soneto da baía metonímica


Eu sou, Tristão Vaz, esta baía
Mais a serra e as ribeiras escondidas
Descendo até ao chão da maresia
No gesto derradeiro de mil lidas.

Sou, homem, a baía que tão alto
Aumenta o horizonte do que vês
Apátrido, anónimo basalto
Depois, por ti chegando, português.

Não sei que me farás, aonde vou
(Sou só o que há na arte antes de ser) –
O meu destino mal se iniciou…

Hei por certo que nos falta perceber
O lado mais secreto do que sou
A certa identidade por saber.

Ribeira de Pena, 03 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.gonio.blogspot.com. Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Lenda (inexacta) de Machim


Um pássaro obliquante foge de Machim
(náufrago ao contrário, voador)
E o indivíduo da lenda talvez lamente
A ausência, em si, de asas que voassem.
Mas depois a baía enche-se de sol
(a mulher amada murmura um verso com os olhos)
E nenhuma inveja já d’ave se dá
No coração do homem.
Nenhum pássaro
(talvez pense)
Nenhum pássaro
Voa mais que o meu amor.

Arco de Baúlhe, 02 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vistadaserra.blogspot.com.
Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Mar a haver


Entre o Piquinho e o Paraíso, no verão
Corre um fio de ribeira rumo ao mar.
Resistem-lhe calhaus, vegetação
E o próprio solo negro, irregular.

Olho à tardinha o fio em curso
Cansado de correr pelo seu mar
E essa teimosia do percurso
Ilustra o meu próprio procurar -

Que nesta ribeira entardecida
Corre sumária seiva, calma e doce
Semelhante ao da minha pobre vida
(A esta ou talvez outra que eu fosse).

Não vejo daqui o que há-de vir
Depois de a ribeira ser já mar
Mas antegozo a glória de cumprir
O gesto, a gesta de desaguar.

Ribeira de Pena, 01 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.madeira-gentes-lugares.blogspot.com. Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A palavra vale


O vale de Machico tem que se lhe diga.
É lá que moro
(No vale, isto é, na palavra vale)
Entre as montanhas e o mar.

Alguma coisa há-de ligar o vale
A valor
(Vale geográfico a vale vocabular).
Alguma coisa há-de ligar valer
A dizer.
Alguma coisa há-de ligar a realidade
Ao amor.

Moro pois entre este fado cartográfico-civil
E o devir
(O devir é o que falta dizer).
Machico, percebei, é só o início, e já é muito -
O resto sou eu ao volante da minha condição.

As montanhas são as paredes da minha casa
Original
(O berço, a concha aconchegante)
E o mar milenar é um convite
Ao futuro.

Vai-se de vale a valor ao ritmo das ondas
Dentro da língua portuguesa.
Vai-se e volta-se e volta-se e volta-se.

Às vezes navega-se para vermos Machico
Ao longe.

Ribeira de Pena, 30 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.aeiou.pt. Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Broncos ocos roncos


Conheci aquela besta na caixa do hipermercado, gaja eficiente com a leitura óptica e com os preços, mas também desabrida e loquaz, com aquela anafada ignorância das faladoras cheias de clichês e veneno. Declamava "política", a aventesma, estimulada pelo sorriso abúlico de um elefante de saias que (também) odiava "os das esquerdas". A da caixa roncava: que era bem feito tirar os subsídios aos funcionários públicos, pois eles não faziam nenhum e deram cabo do país; que este governo leva as coisas a direito e assim é que tem de ser; que os professores e os médicos e os enfermeiros e os das câmaras vão mas é trabalhar; que quem faz greve não gosta de vergar a mola. Toda esta merda enquanto me edificava, peça a peça, o preço da fruta e do café que eu ali fora, em má hora, adquirir. Por um segundo, a porca olhou-me nos olhos à procura de alguma concordância que eu lhe desse: encontrou o glaciar do meu desprezo e, talvez, do meu ódio.
Com a idade tornei-me menos paciente, menos tolerante, menos cristão. Tendo agora a considerar porcos os ignorantes e a cuspir, por enquanto metaforicamente, sobre os seus roncos cheios de vacuidade ou porcaria.

Coimbra, 27 de Novembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.porcobovino.blogspot.com.]

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Nudez


Admiro, da mesa mais esconsa da pastelaria, a competência milenar do vento em seu ofício de despir as árvores. E, depois, essa nudez de troncos e ramos, vista daqui, é também um fruto.

Cabeceiras de Basto, 23 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.holehorror.blogspot.com.]

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Quadra de um jovem de vinte anos para Demi Moore


De alguns maduros frutos o sabor
É mel tão doce e forte, tão preciso
Que, à hora de o provar, o provador
Confunde paladar com paraíso.

Ribeira de Pena, 22 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Demi Moore) foi colhida - com a devida vénia - na wikipedia.]

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Casa de Partida


Um homem sonha que foi a todo o lado e que voltou, feliz, à casa de partida, carregado de tesouros.
Acordando, contudo, descobre que está na dita casa de partida sem haver partido para lado algum, isto é, cheio apenas de sonhos por cumprir, isto é, de nada.
O pior é que acorda cansado, como se os esforços feitos-sentidos durante o sonho implicassem, afinal, nos músculos da sua condição presente.
À míngua de forças, deixa cair os sonhos e substitui, por exemplo, a ideia de morar junto à praia por vinte euros de gasóleo e um café.
Gostava, em menino, de apanhar conchas à beira do mar. Agora, à noitinha, escuta o vento nas árvores, os uivos de cães ou lobos durante a escuridão repetida, os gemidos d’horas da igreja de Santa Marinha ou do Salvador - e faz de conta que, apesar de tudo, está tudo certo. Mas não.

Vila Real, 21 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem - do maravilhoso filme “Adeus, Pai”, de Luís Filipe Rocha (1996) - foi colhida, com a devida vénia, em http://www.setimapartitura.blogspot.com.]