Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Poema do Engenho


À noite a voz do engenho
Fala d'avós de antanho.

A santidade do lugar vem da história
Tem a santa idade da memória.

Um eu antes de mim passou por além
E as saudades que sinto são de si também.

À noite o engenho regressa -
É a regra, essa:
Quando a noite regressa.

Ribeira de Pena, 05 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vistadaserra.blogspot.com. Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

domingo, 4 de dezembro de 2011

Baía (bem) dita


De poucos versos se faz uma baía -
Um talvez que vá da Queimada ao Forte
E outro que seja o mar assediando as pedras.
Poucos mais se requerem,
Mas é preciso que cada verso
Seja o verso indicado, se possível exacto
(que enfim a gramática do que digo esteja certa).
Sem isso a baía dita não seria esta baía que quero dizer
E os meus versos, por não serem meus, não seriam
Versos.

Ribeira de Pena, 04 de dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.hoteis.com. Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

sábado, 3 de dezembro de 2011

Efeméride pequininha


Vinte e oito anos depois daquele dia frio e célere: a cabeleireira da rua sem tempo para pressas; a Salvina , nosso porto santo e desconcertante; tu entrando, por engano doido, no carro de um sapateiro que nada tinha que ver com o casamento; a velocidade suicida do meu irmão Tó transportando-te até à Igreja de Santa Cruz; algumas colegas de faculdade espreitando, à esquina do Café homónimo, a novidade que éramos; o padre José furioso com o atraso e o seu discurso vertiginoso até aos nossos sins; a festa italiana na garagem do senhor Antero; a tua irmã cobiçada pelos fotógrafos e, no silêncio ao lado, o teu irmão Fernando ainda imortal e luminoso; o teu pai, o meu pai, o senhor Antero, todos muito antes de estarem mortos; a tua mãe ainda nova e espantada com o tamanho do almoço; a minha mãe ainda nova e rindo-se de alguma piada brejeira da tia Belinha; tu tão formosa como a melhor literatura que eu já alguma vez tivesse conhecido; a VL nove meses depois para ficar tudo certo.
Vinte e oito anos já!
Obrigado, pequininha.

Ribeira de Pena, 03 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (uma rosa para a MP) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.globomidia.com.]

Soneto da baía metonímica


Eu sou, Tristão Vaz, esta baía
Mais a serra e as ribeiras escondidas
Descendo até ao chão da maresia
No gesto derradeiro de mil lidas.

Sou, homem, a baía que tão alto
Aumenta o horizonte do que vês
Apátrido, anónimo basalto
Depois, por ti chegando, português.

Não sei que me farás, aonde vou
(Sou só o que há na arte antes de ser) –
O meu destino mal se iniciou…

Hei por certo que nos falta perceber
O lado mais secreto do que sou
A certa identidade por saber.

Ribeira de Pena, 03 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.gonio.blogspot.com. Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Lenda (inexacta) de Machim


Um pássaro obliquante foge de Machim
(náufrago ao contrário, voador)
E o indivíduo da lenda talvez lamente
A ausência, em si, de asas que voassem.
Mas depois a baía enche-se de sol
(a mulher amada murmura um verso com os olhos)
E nenhuma inveja já d’ave se dá
No coração do homem.
Nenhum pássaro
(talvez pense)
Nenhum pássaro
Voa mais que o meu amor.

Arco de Baúlhe, 02 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vistadaserra.blogspot.com.
Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Mar a haver


Entre o Piquinho e o Paraíso, no verão
Corre um fio de ribeira rumo ao mar.
Resistem-lhe calhaus, vegetação
E o próprio solo negro, irregular.

Olho à tardinha o fio em curso
Cansado de correr pelo seu mar
E essa teimosia do percurso
Ilustra o meu próprio procurar -

Que nesta ribeira entardecida
Corre sumária seiva, calma e doce
Semelhante ao da minha pobre vida
(A esta ou talvez outra que eu fosse).

Não vejo daqui o que há-de vir
Depois de a ribeira ser já mar
Mas antegozo a glória de cumprir
O gesto, a gesta de desaguar.

Ribeira de Pena, 01 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.madeira-gentes-lugares.blogspot.com. Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A palavra vale


O vale de Machico tem que se lhe diga.
É lá que moro
(No vale, isto é, na palavra vale)
Entre as montanhas e o mar.

Alguma coisa há-de ligar o vale
A valor
(Vale geográfico a vale vocabular).
Alguma coisa há-de ligar valer
A dizer.
Alguma coisa há-de ligar a realidade
Ao amor.

Moro pois entre este fado cartográfico-civil
E o devir
(O devir é o que falta dizer).
Machico, percebei, é só o início, e já é muito -
O resto sou eu ao volante da minha condição.

As montanhas são as paredes da minha casa
Original
(O berço, a concha aconchegante)
E o mar milenar é um convite
Ao futuro.

Vai-se de vale a valor ao ritmo das ondas
Dentro da língua portuguesa.
Vai-se e volta-se e volta-se e volta-se.

Às vezes navega-se para vermos Machico
Ao longe.

Ribeira de Pena, 30 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.aeiou.pt. Este poema faz parte do meu livro de poemas "A Palavra Vale" com que venci o Prémio Literário Francisco Álvares de Nóbrega (Machico - Madeira). A Junta de Freguesia de Machico editou um volume intitulado V Concurso Literário de Poesia Francisco Álvares de Nóbrega (Outubro, 2011) que, além do meu trabalho, inclui os trabalhos classificados no 2.º e 3.º lugares.]

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Broncos ocos roncos


Conheci aquela besta na caixa do hipermercado, gaja eficiente com a leitura óptica e com os preços, mas também desabrida e loquaz, com aquela anafada ignorância das faladoras cheias de clichês e veneno. Declamava "política", a aventesma, estimulada pelo sorriso abúlico de um elefante de saias que (também) odiava "os das esquerdas". A da caixa roncava: que era bem feito tirar os subsídios aos funcionários públicos, pois eles não faziam nenhum e deram cabo do país; que este governo leva as coisas a direito e assim é que tem de ser; que os professores e os médicos e os enfermeiros e os das câmaras vão mas é trabalhar; que quem faz greve não gosta de vergar a mola. Toda esta merda enquanto me edificava, peça a peça, o preço da fruta e do café que eu ali fora, em má hora, adquirir. Por um segundo, a porca olhou-me nos olhos à procura de alguma concordância que eu lhe desse: encontrou o glaciar do meu desprezo e, talvez, do meu ódio.
Com a idade tornei-me menos paciente, menos tolerante, menos cristão. Tendo agora a considerar porcos os ignorantes e a cuspir, por enquanto metaforicamente, sobre os seus roncos cheios de vacuidade ou porcaria.

Coimbra, 27 de Novembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.porcobovino.blogspot.com.]

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Nudez


Admiro, da mesa mais esconsa da pastelaria, a competência milenar do vento em seu ofício de despir as árvores. E, depois, essa nudez de troncos e ramos, vista daqui, é também um fruto.

Cabeceiras de Basto, 23 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.holehorror.blogspot.com.]

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Quadra de um jovem de vinte anos para Demi Moore


De alguns maduros frutos o sabor
É mel tão doce e forte, tão preciso
Que, à hora de o provar, o provador
Confunde paladar com paraíso.

Ribeira de Pena, 22 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Demi Moore) foi colhida - com a devida vénia - na wikipedia.]

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Casa de Partida


Um homem sonha que foi a todo o lado e que voltou, feliz, à casa de partida, carregado de tesouros.
Acordando, contudo, descobre que está na dita casa de partida sem haver partido para lado algum, isto é, cheio apenas de sonhos por cumprir, isto é, de nada.
O pior é que acorda cansado, como se os esforços feitos-sentidos durante o sonho implicassem, afinal, nos músculos da sua condição presente.
À míngua de forças, deixa cair os sonhos e substitui, por exemplo, a ideia de morar junto à praia por vinte euros de gasóleo e um café.
Gostava, em menino, de apanhar conchas à beira do mar. Agora, à noitinha, escuta o vento nas árvores, os uivos de cães ou lobos durante a escuridão repetida, os gemidos d’horas da igreja de Santa Marinha ou do Salvador - e faz de conta que, apesar de tudo, está tudo certo. Mas não.

Vila Real, 21 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem - do maravilhoso filme “Adeus, Pai”, de Luís Filipe Rocha (1996) - foi colhida, com a devida vénia, em http://www.setimapartitura.blogspot.com.]

sábado, 19 de novembro de 2011

Encontro, seguido de Amor, seguido de Tempo, seguido de Morte (sendo tudo Tempo)


Olá, viúva de mim
Esperei a vida por ti.
Por demorares tanto assim
É que eu morri.

Ribeira de Pena, 18 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (cartaz do filme The Dead, de John Huston, com base no conto homónimo de James Joyce) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.imd.com.]

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O segundo roubo do plasma


1. Há uns três anos, mais ou menos, eu e o resto do agregado comemorámos, com orgulho, o pagamento da vigésima prestação de um enormíssimo plasma. Só deste modo mais suave seria possível, em boa verdade, a três remediados como nós, assumir a propriedade de tal tesourinho burguês. A nossa sala-de-estar era, como não me cansei de dizer durante tanto tempo, o espaço mais rico da Casa: bons sofás, móveis modernos, home cinema – e aquele grande plasma grande! Não despiciendo para a satisfação familiar, foi o pormenor de aquela despesa, tão improvavelmente ao nosso alcance, ter sido muito bem pensada, no contexto da nossa economia apertadinha, e de religiosamente havermos sido capazes de cumprir esta obrigação extra. Certa noite, olhei para o plasma e comentei como um nababo moderno: “Isto, agora, já é mesmo nosso!”
2. Mas o diabo não dorme. Nem um mês depois daquele dia glorioso e honesto, a minha Casa em Coimbra foi assaltada e muito do que havia naquela sala passou para as mãos de uns bandidos que eu odeio para sempre. Talvez quem me roubasse tivesse necessidade imperiosa de fazer dinheiro (toxicodependência, desemprego, etc.). Mas que culpa tenho eu, medíocre operário da educação, dessa merda? (Parêntesis: a polícia não pôde fazer nada.)
3. Na minha sala, há agora uma televisão contemporânea dos anos em que o querido Sporting ganhava. Não posso, por enquanto, ter outra – e, no dia em que possa (se houver esse dia), hei-de temer que me assaltem de novo.
4. No presente mês, vou receber o meu subsídio de natal com um desconto (decidido à minha revelia) de cinquenta por cento e, nos próximos dois anos, pelo menos nesses, vão também roubar-me a totalidade dos subsídios de férias e de natal. Um governo anterior desviara já, antes, uma fatia significativa do meu ordenado. Talvez quem me roube tenha necessidade imperiosa de fazer dinheiro (para pagar o BPN, o BPP, etc.). Mas que culpa tenho eu, medíocre operário da educação, dessa merda? (Parêntesis: a polícia não pode fazer nada.)

Post Scriptum: Os senhorios não deixam de cobrar as rendas. Os bancos não deixam de cobrar as prestações. Certas vozes asininas teimam em dizer que os portugueses com vencimentos mensais entre, por exemplo, mil e dois mil Euros não se devem queixar; que se têm dívidas é por sua própria culpa; que poupassem, que se precavessem. Nunca ouviram tais cavalgaduras a máxima de que os nossos passos têm o tamanho das pernas? Pernas cortadas, como manter a mesma amplitude dos passos? O meu plasma foi tranquilamente pago porque fiz as minhas contas responsavelmente, tomando como certo que não me roubavam os recursos com que a cada mês conto. Se Sócrates ou Passos Coelho me tivessem assaltado mais cedo, talvez não conseguisse pagar aquele saudoso plasma. É muito triste roubarem-nos o fruto do nosso trabalho, irmãos, sem que a polícia possa fazer nada.

Ribeira de Pena, 18 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (os Metralhas, de Disney) foi colhida, com a devida vénia, na wikipedia.]

domingo, 13 de novembro de 2011

Poema sobre Centros Comerciais & Modestas Vidas (soneto que era para ser todo em métrica regular e sempre com rima, mas não)


Basta-me este calor comercial
As luzes emprestadas a luzir
A gente perceber-se menos mal
A eternidade do shopping antes de falir.

Basta-me a francesinha e a cerveja
A tua mão por vezes, o Presente
As contas quase em dia e a Mãe viva
Alguma saúde para prosseguir.

Basta-me que a vida continue
Com batatas fritas e beleza
Basta-me o carro com gasóleo

Basta-me tu estares à minha mesa
Basta-me que a escrita continue
(Que não morra a Língua Portuguesa).


Vila Real, 13 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem revisita, com a devida vénia, o filme "Manhattan", de Woody Allen.]

Obituário de barco


Ex-promessa de mim, devir
De sonhos entretanto em lume brando
Chego ao fim, Senhor, sem bem partir
Um barco triste, traste naufragando.

Vila Real, 13 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho