Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O segundo roubo do plasma


1. Há uns três anos, mais ou menos, eu e o resto do agregado comemorámos, com orgulho, o pagamento da vigésima prestação de um enormíssimo plasma. Só deste modo mais suave seria possível, em boa verdade, a três remediados como nós, assumir a propriedade de tal tesourinho burguês. A nossa sala-de-estar era, como não me cansei de dizer durante tanto tempo, o espaço mais rico da Casa: bons sofás, móveis modernos, home cinema – e aquele grande plasma grande! Não despiciendo para a satisfação familiar, foi o pormenor de aquela despesa, tão improvavelmente ao nosso alcance, ter sido muito bem pensada, no contexto da nossa economia apertadinha, e de religiosamente havermos sido capazes de cumprir esta obrigação extra. Certa noite, olhei para o plasma e comentei como um nababo moderno: “Isto, agora, já é mesmo nosso!”
2. Mas o diabo não dorme. Nem um mês depois daquele dia glorioso e honesto, a minha Casa em Coimbra foi assaltada e muito do que havia naquela sala passou para as mãos de uns bandidos que eu odeio para sempre. Talvez quem me roubasse tivesse necessidade imperiosa de fazer dinheiro (toxicodependência, desemprego, etc.). Mas que culpa tenho eu, medíocre operário da educação, dessa merda? (Parêntesis: a polícia não pôde fazer nada.)
3. Na minha sala, há agora uma televisão contemporânea dos anos em que o querido Sporting ganhava. Não posso, por enquanto, ter outra – e, no dia em que possa (se houver esse dia), hei-de temer que me assaltem de novo.
4. No presente mês, vou receber o meu subsídio de natal com um desconto (decidido à minha revelia) de cinquenta por cento e, nos próximos dois anos, pelo menos nesses, vão também roubar-me a totalidade dos subsídios de férias e de natal. Um governo anterior desviara já, antes, uma fatia significativa do meu ordenado. Talvez quem me roube tenha necessidade imperiosa de fazer dinheiro (para pagar o BPN, o BPP, etc.). Mas que culpa tenho eu, medíocre operário da educação, dessa merda? (Parêntesis: a polícia não pode fazer nada.)

Post Scriptum: Os senhorios não deixam de cobrar as rendas. Os bancos não deixam de cobrar as prestações. Certas vozes asininas teimam em dizer que os portugueses com vencimentos mensais entre, por exemplo, mil e dois mil Euros não se devem queixar; que se têm dívidas é por sua própria culpa; que poupassem, que se precavessem. Nunca ouviram tais cavalgaduras a máxima de que os nossos passos têm o tamanho das pernas? Pernas cortadas, como manter a mesma amplitude dos passos? O meu plasma foi tranquilamente pago porque fiz as minhas contas responsavelmente, tomando como certo que não me roubavam os recursos com que a cada mês conto. Se Sócrates ou Passos Coelho me tivessem assaltado mais cedo, talvez não conseguisse pagar aquele saudoso plasma. É muito triste roubarem-nos o fruto do nosso trabalho, irmãos, sem que a polícia possa fazer nada.

Ribeira de Pena, 18 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (os Metralhas, de Disney) foi colhida, com a devida vénia, na wikipedia.]

domingo, 13 de novembro de 2011

Poema sobre Centros Comerciais & Modestas Vidas (soneto que era para ser todo em métrica regular e sempre com rima, mas não)


Basta-me este calor comercial
As luzes emprestadas a luzir
A gente perceber-se menos mal
A eternidade do shopping antes de falir.

Basta-me a francesinha e a cerveja
A tua mão por vezes, o Presente
As contas quase em dia e a Mãe viva
Alguma saúde para prosseguir.

Basta-me que a vida continue
Com batatas fritas e beleza
Basta-me o carro com gasóleo

Basta-me tu estares à minha mesa
Basta-me que a escrita continue
(Que não morra a Língua Portuguesa).


Vila Real, 13 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem revisita, com a devida vénia, o filme "Manhattan", de Woody Allen.]

Obituário de barco


Ex-promessa de mim, devir
De sonhos entretanto em lume brando
Chego ao fim, Senhor, sem bem partir
Um barco triste, traste naufragando.

Vila Real, 13 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

S. Martinho cá de dentro


1. Mil vezes tentei actualizar, junto dos meus alunos, a lenda de S. Martinho. Com maior ou menor eficácia (e maior ou menor brilho), já os pus a reflectir sobre a pobreza e a fome no mundo, o racismo, as guerras, a violência, a injustiça.
2. Lembrei-me, hoje, uma vez mais, de meu sogro, o Mestre João. Em tantas ocasiões dei por mim a duvidar que tanta bondade pudesse - mesmo - habitar o coração de um humilde contemporâneo da minha biografia. Família, amigos, até desconhecidos eram, para si, urgências, quero dizer, gente que dele facilmente levaria o pão, a roupa, o dinheiro que tivesse.
3. Agora que, de novo, recordo este santo, realço sobretudo a sua generosidade em matéria de Tempo e Atenção. Tempo e Atenção à disposição dos outros, reparai: não há maior Ouro para oferecer, na economia dos corações, que isso.
4. Nos últimos dois anos de vida do Mestre João, andei a escrever, em seu nome, para ministérios, secretarias, tribunais, procuradores, reclamando do facto provadíssimo de lhe subtraírem à pobre reforma cerca de cem Euros. Enviei, a cada missiva, declarações timbradas, fundamentações legais, contabilidades com carimbo oficial. Toda a gente respondia que sim senhor, teria razão, mas que o requerimento era para fazer em outro qualquer serviço; ou que o prazo para reclamar expirara; ou que só com advogado (e ao fim de muito tempo) seria possível julgar este caso; etc.
5. Fiz questão de, na maioria dos requerimentos, lembrar a idade provecta do requerente e, em concomitância, o tempo correr contra a própria possibilidade de reparação de justiça. A ideia que, em seu nome (e, sem muito empenho, ele próprio poderia verbalizar) era: morrendo, como compensariam a injustiça feita?
6. O Mestre João, com mais ou menos dinheiro, foi dando tudo quanto tinha a todos quantos com ele privavam ou a ele recorriam. E, entretanto, morreu. A história, em sua crueza, é esta.
7. E agora, que andamos - por exemplo - a pagar com o dinheiro que nos roubaram (salários, subsídios) loucuras como o BPN, as parcerias público-privadas, etc., recordo-me de novo deste homem tão maior que a pátria degradada onde viveu.
8. O meu sogro é a ideia verdadeira de S. Martinho. Aquele (este) Portugal hediondo (feito de notáveis como Sócrates, Passos Coelho, Dias Loureiros & Varas) é o contrário de S. Martinho.
Tenho dito.

Ribeira de Pena, 10 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Departamento Pessoal de Estar Contra a Barbárie




Contra a moderna brutidade ao quilo
E os coices contra o Português
Leiamos o Garrett ou o Camilo
Ou o magno Eça (ou todos três).

Ribeira de Pena, noit’enfim de 08 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Devolução vital


Levai-me ao Portugal de eu pequenino
Deixai-me visitar a outra vida
Dai-me o meu futuro de menino
Amai-me pela vida não havida.

Abdicai, senhores, de me julgar
E trocai vossas leis por corações
(Que o coração é o último lugar
Onde se aceitam devoluções).

Ribeira de Pena, 07 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 6 de novembro de 2011

O Inverno explicado aos filhos


Pai, o que é o Futuro?
[Perguntou ela, serena, a crescer
Brincando às andorinhas em cima do muro.)
Eu disse: Filha, é o que falta fazer.

Pai, o que é o Presente?
(Perguntou ela, serena, crescida
Na formosa lida de ser gente.)
Eu disse: Filha, é a vida.

Mas cedo se esgotou a serenidade
E veio o bruto Inverno receado
Cobrindo-nos das neves da Saudade.

Lamento-te esse olhar tão assustado
E o não poder salvar-te da Verdade:
O Presente e o Futuro são... Passado!

Vila Real, 06 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura (de Charles Spencelayh) foi colhida, com a devida vénia, em http:/www.rceliamendonça.wordpress.com.]

sábado, 5 de novembro de 2011

Fazer que faço


Cansa-me o não fazer
(Fazer apenas que faço)
Acabando por morrer
Desfeito pelo cansaço.

Ribeira de Pena, tarde de 05 de Novembro de 2011.
Joaqui Jorge Carvalho
[A pintura é um "Auto-retrato" de Almada Negreiros, datado de 1925.]

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Outubro em Coimbra


Há horas muito lindas no final de Outubro:
Um bocadinho de luz, uma palavra, um olhar.
E até o Tempo, às vezes, parece parar
No enlevo do enlevo que às vezes descubro.

Coimbra, 31 de Outubro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem ("Vinha no Outono", de José Malhoa) foi colhida, com a devida vénia, em http://mjm.imc-ip.pt.]

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Ave, Leitores. Morituri te salutant


Já o escrevi, há muito tempo; repito-o, agora: a poesia é uma espécie de “últimas palavras” de um moribundo. O poeta profere-as como que, sabendo que não tem já muito tempo, aproveita o periclitante oxigénio remanescente para dizer o essencial. Isto é, o fundamental de si que há para ficar depois de si.
O poeta laureado em 2011 com o Nobel, Tomas Tranströmer, escreve algo sobre isto (ou a pensar nisto), como ainda agora pude ler numa revista editada mensalmente pela FNAC (Novembro, 2011): “Encontramo-nos daqui a 200 anos.”
Já encomendei à MP e à VL as minhas prendas de Natal: a Claraboia, de Saramago, e a poesia (editada pela Vega) de Tranströmer. O rótulo do Nobel é chamariz não despiciendo, admito; mas determinante mesmo, em relação ao segundo dos presentinhos, foi o encontro que tive com este velho sueco através de esparsos poemas (quatro ao todo) que se me ofereceram num acaso lindo.
Gosto do cruzamento que nele há da horizontalidade do mundo & tempo quotidianos com a verticalidade religiosa (rumo aos céus) da Eternidade (pressentida, desejada, sussurrada). Esta escrita lembra a melhor poesia de alguns grandes autores portugueses, como Pessoa, Ruy Belo, Manuel António Pina, Daniel Abrunheiro, Sophia, Torga, Ramos Rosa (e de alguns menores, como eu próprio).
Deixo-vos dois poemas de Tomas Tranströmer, cheios – ambos – dessa magia que, de modo talvez nevoento, tento explicar no primeiro parágrafo desta crónica. Tomai e comei (ou bebei) todos, que este é também sangue de uma nova e eterna aliança.

Allegro

Toco Haydn depois de um dia infeliz
experimento nas mãos um suave ardor.
As teclas obedecem. Batem brandos martelos.
A tonalidade é verde, viva, aprazível.
A tonalidade diz que a liberdade existe
e que alguém se nega a pagar imposto ao imperador.
Meto as mãos nos meus bolsos-haydn
e faço de conta que encaro o mundo com calma.
Iço depois a bandeira-haydn, que significa:
“Nós não nos rendemos, mas queremos paz.”

Tomas Tranströmer
(Tradução do sueco de Alendre Pastor, in JL, ed. De 19 outubro-01 de Novembro de 2011)

Lisboa

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam
nas calçadas íngremes
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões
acenavam atrás das grades
gritavam que lhes tirassem o retrato

“Mas aqui”, disse o condutor e riu à socapa como se cortado ao meio,
“aqui estão políticos”. Vi a fachada, a fachada
E lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.

Roupa branca no azul. Os muros quentes
as moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa
“Será verdade ou só um sonho meu?”

(Tradução de Vasco Graça Moura. In 21 Poetas Suecos, Lisboa, Ed. Veja, 1980, apud Revista FNAC, ed. Novembro 2011.)

Ribeira de Pena, 02 de Novembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Aforismos de Pastelaria, segundo Nuno Costa Santos


Nuno Costa Santos, conheceis?
Eu, para meu prejuízo, não conhecia até há pouco tempo. Agora, posso dizer-vos que se trata de um jornalista e escritor com 35 anos, que – para além de várias obras no domínio da narrativa, do teatro e da poesia – trabalhou para a Grande Reportagem, para A Capital, para o Inimigo Público, e que foi ainda co-fundador do projecto “Manobras de Diversão”.
Teve também, até há poucos anos, um blogue (ainda visitável) chamado “Melancómico”. Alguns dos textos que aí publicou foram transformados em livro: Melancómico - Aforismos de Pastelaria (Lisboa, Edições Fictícias, 2007). Comprei-o no Jumbo por 1 (um!!!) Euro. Foi uma maravilhosa pechincha, esta. Encontramos, sob a forma de aforismos muito livres, reflexões carregadas de humor, de inteligência e (garanto-vos) de poesia formosamente instantânea e mínima. Glosando o autor, diria até que encontrei, em voluminho tão felizmente barato, um Livro do Desassossego menos pesado do que o original (como diria Costa Santos, um Desassossego em "versão Lidl").
Com a devida vénia, apresento-vos algumas das pérolas que o livro oferece – e que me dei ao trabalho de transcrever (quem é amigo, quem é?).


Alberto Heitor, 32 anos, génio, que nos fala do Bairro Alto
Dizem que todos os génios têm consciência que o são. Um disparate completo. Eu, por exemplo, sou um génio e não tenho consciência nenhuma disso. (p. 16)

Márcio tem uma ideia
As amizades deviam ser empresas. Assim, quando um amigo deixasse de nos falar, teríamos direito a uma indemnização. (p. 17)

A escrita emagrece
Na escrita ele é muito mais magro do que na televisão.

Pergunta o pai à mãe
Se ele preparou o doutoramento todo de pijama, por que é que teve de levar o fato escuro para a defesa da tese? (p. 18)

Queixas de um sem-abrigo
É natural que um recém-nascido se queixe da vida várias vezes ao dia. Afinal de contas, acabou de receber uma acção de despejo. (p. 19)

Enriquecimento com causa
Tem vergonha de falar sobre isso. Ficou multimilionário à custa de uma canção sobre a pobreza. (p. 19)

Não ouvido na rua
- Como é que tens medo de cães se cresceste rodeado deles?
- Olha, da mesma forma que cresci rodeado de pessoas e não perdi o medo delas. (p. 19)

Perguntas que ficam para o fim
Como é que se vai chamar o pai da criança? (p. 20)

As últimas palavras do psiquiatra
Nunca deixem o rapaz sozinho. Se não ele ainda escreve um livro. (p. 20)

Filho de zapper sabe zappar
São fim de quase doze meses. Começo a perceber que o meu filho tem algumas parecenças comigo. O petiz também gosta de fazer zapping entre os brinquedos. (p. 21)

Corpo lindo
Era tão intelectual que só se excitava com o corpo de letra. (p. 23)

Livro de reclamações
As televisões deviam ter pudor em transmitir os penáltis. São momentos de intimidade entre dois jogadores. (p. 23)

Juvenal tem uma surpresa no multibanco
O saldo da sua vida não permite novos relacionamentos. (p. 25)

O fim do problema
Passava a vida a limpar a sua imagem. Até que, um dia, sem querer, apagou-a. (p. 25)

A vergonha
Durante a fisioterapia tinha vergonha de dizer aos atletas que se tinha lesionado – ainda por cima com gravidade – a escrever um poema. (p. 27)

Especialidades da casa
Seguindo o exemplo das pessoas que colocam a placa “Boca e Dentes” junto da porta do seu prédio, Rafael resolveu colocar uma a dizer “Depressão e Diletância”. (pp. 29-30)

Acesso condicionado
Há dias em que uma pessoa está com tão pouca vontade de falar que o melhor é sair de casa com uma placa a dizer “Pessoal Autorizado Apenas”. (p. 30)

Reflexão antes do almoço de Sábado
Muitas vezes, não é fácil distinguir um diamante em bruro de um bruto em diamante. (p. 30)

Delírio gastronómico (depois da leitura do Le Monde Diplomatique)- Como é que vai querer o Oriente? Bem passado? Mal passado?
- Médio. (p. 32)

Dona Bina não sabe a resposta mas não fica calada
Isso não sei. Só sei que isto está tão mau para todos que se Cristo resolvesse descer à Terra teria de ficar alojado no Ibis. (p. 32)

Frases para usar lá em cima nos momentos de infelicidade
Isto é a terra no céu. (p. 33)

A vaidade da escrita
Sempre que escrevia um romance, contratava uma maquilhadora. (p. 32)

Relação com o excesso de velocidade
Ficou com o namorado apreendido durante três anos. (p. 34)

Das finanças públicas à vida sexual e sentimental dos cidadãos
Quando, na hora do telejornal, o primeiro-ministro falou em défice, fez-se silêncio no prédio todo. (p. 34)

Maneiras de ser considerado um “chulo da Nação” pelo homem da garagem (Lição 1)
Passar a manhã em casa, sair à hora do almoço e voltar duas horas depois com dois sacos da FNAC na mão cheios de CDs e livros. (p. 35)

Coisas que se dizem na esplanada
Sou a versão Lidl do Fernando Pessoa. (p. 34)

Temos de ser modernos
A expressão “ter o coração ao pé da boca” deve ser actualizada para “ter o coração em alta voz”. (p. 38)

Slogan para empresa dedicada ao desmancho de casamentos
Disconnecting People (p. 38)

Descendo a Avenida da Liberdade
Costuma dividir-se os homens entre utópicos e pessimistas, esquecendo que o pessimismo também pode ser uma utopia. (p. 38)

Título para biografia de autarca
Rotundamente (p. 39)

Esclarecimento provavelmente útil
Todos os romances são livros de auto-ajuda. (p. 40)

Josefino Salomão, 51 anos, dono de um quiosque, que nos fala de Odivelas
Isto da presença espanhola está tão forte que, daqui a nada, até o Corte Inglês é espanhol. (p. 40)

O pior do mundo são as personagens
Eram dois ficcionistas. Uma vez por semana, almoçavam juntos num restaurante da Baixa. Durante o repasto, as personagens dos seus livros ficavam lá fora. À porrada. Até as boazinhas. (p. 42)

Albertino Fumo, 54 anos, analista político da junta, que nos fala de Aveiras
Olhar para os cartazes de campanha depois das eleições é tão deprimente como encontrar as cuecas de fio dental da mulher no dia a seguir ao divórcio. (p. 43)

A angústia da influência
Sofro de Goethe, doutor. (p. 43)

Viagra para países
Há as potências mundiais, como os EUA. E há também as impotências mundiais, como Portugal. (p. 44)

Recibos
Ele era tão intelectual, tão intelectual que até o seu livro de recibos verdades era editado pela Assírio e Alvim. (p. 45)

Conversa de dietista II
O guloso volta sempre ao lugar do creme. (p. 45)

Super-heróis para o nosso tempo
Depois do Bananaman, o Badanaman – aquele que ganha poderes depois de ler as badanas. (p. 46)

Singela e curta homenagem a [Albert] Cossery
Foi fazer um teste psicotécnico e deu preguiçoso. (p. 47)

E ainda mais uma
Será que as pessoas da alta finança também utilizam expressões como “isto tá mau pa todos”? (p. 48)

Competição de balneário actualizada
O meu NIB é maior que o teu. (p. 49)

Questão de eficácia
Só as pessoas que se levam a sério podem brincar com elas mesmas. (p. 49)

Actualidade
A actualidade é promíscua. Todas as semanas está enrolada com um novo assunto. (p. 50)

A confissão de Lúcia
Resolvi renovar com o meu namorado por mais uma época. (p. 51)

Mais uma reflexão de dona Bina sobre literatura e assuntos afins
Muitos escritores experimentam o romance com a mesma intenção com que outros experimentam heroína: para provarem que são capazes. (p. 52)

Dona Bina dá conselhos ao neto
Ó José Jacinto, a paixão é o amor com ecstasy. (p. 52)

Poeta
Actor porno que tem medo do sexo. (p. 54)

Conversa entre animais
Aqueles sites de sexo com humanos são um nojo. (p. 54)

Isto é tudo muito bonito
A condição de turista é uma condição de esquerda. A maior parte dos turistas julga que, ao visitar um país estrangeiro, encontrou a utopia. (p. 55)

A conclusão de Márcio, depois de dar um passeio pela cidade
Portugal é uma telenovela brasileira produzida pela TVI. (p. 56)

Caso perdido
Até a pensar tenho má dicção. (p. 56)

Eugénio de Andrade num T4 em Lisboa
Boa noite. Eu vou com as térmitas. (p. 57)

Automático
Os humoristas, nos momentos de cansaço e preguiça, entram em palhaço automático. (p. 59)

Puro
É um intelectual puro. Só assiste a reality shows para imaginar tudo em livro. (p. 60)

Deixa possível para a ejaculação precoce
Pedimos desculpa pela interrupção. (p. 60)

Duas amigas
Num gesto de generosidade, ela quis emprestar o marido à amiga. Mas a amiga disse logo: “Obrigada, mas já tenho esse”. (p. 62)

Mirones de metáforas
Não se percebe por que é que os portugueses abrandam o passo para olhar os destroços de um acidente de automóvel e depois não se mostram qualquer interesse em espreitar o momento em que um escritor cria as suas metáforas. (p. 63)

Em directo do caderninho de Márcio III
A vida é uma chamada que está sempre a ir abaixo. (p. 63)

Recensões
Há escritores que, quando estão a terminar um livro, já têm recensões sobre a obra em todos os jornais. (p. 63)

Comentário de esquina
Eram muito amigos. Um era cego, o outro não. Todos os dias de manhã davam grandes passeios. Aliás, desde que o cego morreu, o outro nunca Maios soube orientar-se na cidade. (p. 65)

Suicida
Era um comboio suicida. Tinha como objectivo matar-se debaixo de uma pessoa. (p. 65)


Eu pelo menos não queria ser irmão de Einstein
Pior do que ter um irmão gémeo é ter um irmão génio. (p. 66)

Márcio pergunta
A beleza pode ser considerada um sinal exterior de riqueza? (p. 66)

Definição havaiana de poeta
O poeta é um surfista que tem medo das ondas. (p. 66)

Tu viste a cabazada que o Ramos Rosa deu ao Nuno Júdice ontem à noite?
Para além da jornada desportiva, devia haver a jornada literária. (p. 67)

A obsessão das rotundas
Era um autarca tão obcecado por rotundas que mandou construir uma no seu quarto de dormir, antes da cama. (p. 68)

Aforismo da dona Bina
O ciúme é o capricho dos pobres. (p. 70)

Da preocupação com a vestimenta
Isto precisava era de uma Ana Salazar em cada esquina. (p. 70)

Boas maneiras
Era tão bem educado que, sempre que um condutor lhe dava passagem na rua, mandava um cartão a agradecer. (p. 71)

Aforismos de Conservador utópico
Era um conservador utópico. Só queria conservar aquilo que nunca poderia ter. (p. 72)

Histórias de museu
Naquele dia, o guia do museu resolveu dizer o quanto estava farto de pintura francesa do século XIX e que a sua vida sentimental e sexual era um caos. Os turistas, esses, tiraram notas como se nada fosse. (p. 73)

O último a saber
Não se falava noutra coisa no bairro. Toda a gente sabia que a mulher se masturbava durante a noite. Menos o marido – que passava os serões a ver filmes pornográficos. (p. 73)

Karaoke tale (inspirado num episódio que se conta de Robert Palmer)
No fim da vida, entrou num clube de karaoke e, ao cantar um hit seu, não foi reconhecido por ninguém. (p. 74)

O nascimento dum prosador
Era poeta. Até ao momento em que teve de tomar um duche frio. (p. 75)

Cachet
Não era um simples médico. Era um artista. Sempre que fazia um parto, pedia um cachet bastante elevado. (p. 76)

JanuárioJanuário tinha bom feitio. O seu cão é que não. Quando se encontravam era Januário que abanava o rabo. (p. 77)

A multa lírica (e outras histórias)
Era um polícia bastante inconveniente. Em vez de multas, passava poemas. (p. 77)

Depois de ter passado o serão a ler os 35 Poemas, Márcio faz a seguinte pergunta
Terá o Rimbaud na altura mandado alguma coisa para o DN Jovem? (p. 80)

Hoje fui aos correios
Fiquei a saber que há livros do Paulo Coelho à venda nos correios. Parece-me bem. Depois do correio azul, o livro azul – o livro que é consumido em tempo recorde. (p. 80)

Até ao dia em que assassinou uma
Para apresentar um novo livro, só convidava pessoas que o tinham odiado. (p. 81)

Com 18 pessoas à espera (no mínimo)
Julgava que estava defronte do padre, na Igreja dos Anjos. E então, durante meia hora, confessou-se à caixa multibanco. (p. 81)

E, para terminar, a minha preferida:

A biografia de Orlando
Orlando passou a vida a envelhecer. (p. 81)

Ribeira de Pena, 25 de Outubro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

E, no entanto, eles esforçam-se...


Podem as mulheres em geral verberar os consabidos defeitos da fauna masculina – a superficialidade, o materialismo, a insensibilidade, a brutidade, a pulsão venatória, o défice de romantismo e de boas maneiras. Mas é justo que vão igualmente reconhecendo o esforço que, apesar de tudo, os pobres dos homens fazem para melhorar, evoluir, corresponder – tanto quanto possível – às exigências constantes e inclementes das senhoras.
Por exemplo: um amigo meu interrompe, subitamente, certa noite de copos e convívio. Nota-se-lhe no rosto a preocupação urgente, quase terror, por alguma missão essencial por cumprir. Ele esclarece-nos em voz muito séria:
- Tenho de ir, pá. Já me esquecia de que a minha mulher faz hoje anos de casada…

Arco de Baúlhe, 21 de Outubro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (pintura "Mulher dormindo", do brasileiro Ralfe Braga) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.flickr.com.]

Um homem cortado ao meio


De Italo Calvino conhecia, até ontem, alguns livros: Palomar, Seis Propostas Para o Próximo Milénio, As Cidades Invisíveis, Se Numa Noite de Inverno Um Viajante, O Barão Trepador. O último destes títulos foi, sem dúvida, o que mais me agradou (aliás, impressionou). Gosto de boas histórias consubstanciadas em boa escrita.
Várias vezes tropeçara já, em artigos ou entrevistas, no título O Visconde Cortado ao Meio. Pude, numa noite, devorá-lo, enfim, porque se me ofereceu a oportunidade de o requisitar na biblioteca da minha escola (edição da Teorema, Lisboa, 2009).
O milagre da leitura beijou-me novamente! Como não quero roubar a amigos o prazer (provável) da leitura, apenas me permito confidenciar-vos que se trata de uma espécie de alegoria dos sentimentos – em concreto, um discurso sobre a dramática contradição que, com raras excepções, habita o ser humano: um ser de paz & guerra; tolerância & radicalismo; criação & destruição; bondade & maldade.
Em certa medida, há na obra um permanente diálogo – no seio do próprio indivíduo – entre o Deus e o Diabo de que somos feitos. O signo que preside à metáfora vai buscar o significante a um episódio (só possível no universo da narrativa): alguém – “um visconde” - perde metade do corpo (no sentido longitudinal), na sequência de um episódio de guerra. Uma metade sobrevive e, hélas, essa metade é a sua metade má. Páginas (capítulos) adiante, descobre-se que a outra metade (a metade boa) também sobrevivera. O combate entre ambas as metades torna-se inevitável. Ofereço-vos, como introdução ao prazer de uma provável leitura, um passo relativo ao duelo entre os dois lados da condição humana:
«Era uma madrugada toda em tons de verde; no prado, os dois subtis adversários, vestidos de negro, mantinham-se firmes em atitude de expectativa. O leproso fez soar a sua trompa: era o sinal combinado. O céu vibrou como uma membrana estendida. Nas cavernas as gralhas enfiaram as unhas na terra, sem tirarem a cabeça debaixo da asa, as garças arrancaram as penas do próprio corpo com grande sofrimento, a boca da minhoca mordeu o seu próprio rabo, a víbora ente4rrou em si mesma os seus dentes venenosos, as vespas perderam os ferrões, quebrando-os nas pedras, e todas as coisas se voltavam contra si próprias, a geada das poças de água gelava, os líquenes tornavam-se pedras e as pedras líquenes, as folhas secas tornavam-se terra, e a seiva, tornada espessa e dura, matava a vida da própria árvore que se alimentava dela. Assim o homem se lançava também contra si próprio, com ambas as mãos armadas de uma grande espada.» (pp. 152-153.)

Revejo o nosso Fernando Pessoa (ou Vergílio Ferreira) nesta maravilha enunciatória: “O homem contra si próprio.”

Arco de Baúlhe, 20 de Outubro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Política caseira e vezeira


Reservo para mim próprio a azia e nojo que algumas das medidas anunciadas pelo primeiro-ministro provocaram.
Gostaria, contudo, de telegraficamente lembrar alguns dados que a retórica do governo (e também a dos pançudos mediáticos que, com a parcialidade habitual, arrotam nos média as suas "verdades") ignora.
1 - Os funcionários públicos não são culpados da situação do país. São trabalhadores, têm contratos com o Estado, servem a população. Retirar-lhes o salário (o pão) é atitude pouco séria e de legalidade questionável.
2 - A haver sacrifícios, eles deveriam ser universais e proporcionais aos rendimentos das famílias. Não é a mesma coisa "retirar" dois mil euros (2 subsídios) a um único sujeito passivo que vive com esposa, filhos, idosos a cargo, etc. ou a outro que seja solteiro e viva só, ou tenha um(a) cônjuge a trabalhar também.
3 - Entre outras indignidades, o que os governos vêm roubando aos funcionários públicos serve para pagar a dívida que alguns ladrões consabidamente deixaram em alguns bancos. No caso do BPN, é público que muita gente importante beneficiou do descalabro anunciado. Agora, é do nosso conhecimento que o Estado assume aquele deastre e paga-o - mas ninguém devolve dinheiro e ninguém vai preso. (O ex-governador do Banco de Portugal foi até premiado com uma espécie de pré-reforma dourada no BCE). Como é possível?!!!
4 - O PSD deitou abaixo o governo anterior porque - sustentou - não era justo continuar a sobrecarregar os portugueses com sacrifícios tão duros e injustos. Agora, com o silêncio cúmplice (talvez incomodado) do CDS, sai-se com este brutal orçamento para 2012. Passos Coelho já confessou que estas medidas não correspondem ao seu "programa". Ora, em minha opinião, a consequência desta disparidade entre as promessas eleitorais e prática governativa deveria ser a convocação de eleições gerais.
5 - Fui buscar a imagem do apocalipse à internet. Exageros meus, má fortuna, amor ardente...

Ribeira de Pena, 17 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 15 de outubro de 2011

Intercidades


Enquanto as árvores fugiam fugiam fugiam
E os olhos morriam cansados cansados cansados
Aterrou uma deusa.

Viajou terrena e plácida terrena e plácida terrena e plácida
No banco prosaico de uma carruagem carruagem
Carruagem
Sem esconder a sua condição de deusa.

Todas as árvores e casas e homens
Enfeitavam a vertigem da perda.
Toda a minha viagem desaguando aí
No banco setenta-e-um, janela
De um amor impossível e perfeito.

Simão, Camilo e Teresa de comboio
De comboio de comboio de comboio
E uma infinita mágoa em mim
Por não te ter por não te ter


(Toda a posse do olhar é irónica
E mentirosa)

O mais belo rosto de uma Grécia aqui
Eras tu.
E a maior tristeza do mundo era eu não
Poder dizer-te: O mais belo rosto
De uma Grécia aqui aqui aqui

És tu.

Ribeira de Pena, 15 de Outubro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (cartaz apresentado no âmbito do SCENA 2011 - Colóquio Internacional "A cenografia no mundo sem fronteiras", um festival de artes performativas levado a efeito entre 26 e 29 de Abril de 2011, especificamente concebido para o workshop “O Comboio”, baseado no conto de Raymond Carver) foi colhida, com a devida vénia., em http://www.scenalisboa.blogspot.com.]