
Nuno Costa Santos, conheceis?
Eu, para meu prejuízo, não conhecia até há pouco tempo. Agora, posso dizer-vos que se trata de um jornalista e escritor com 35 anos, que – para além de várias obras no domínio da narrativa, do teatro e da poesia – trabalhou para a Grande Reportagem, para A Capital, para o Inimigo Público, e que foi ainda co-fundador do projecto “Manobras de Diversão”.
Teve também, até há poucos anos, um blogue (ainda visitável) chamado “Melancómico”. Alguns dos textos que aí publicou foram transformados em livro:
Melancómico - Aforismos de Pastelaria (Lisboa, Edições Fictícias, 2007). Comprei-o no Jumbo por 1 (um!!!) Euro. Foi uma maravilhosa pechincha, esta. Encontramos, sob a forma de aforismos muito livres, reflexões carregadas de humor, de inteligência e (garanto-vos) de poesia formosamente instantânea e mínima. Glosando o autor, diria até que encontrei, em voluminho tão felizmente barato, um
Livro do Desassossego menos pesado do que o original (como diria Costa Santos, um Desassossego em "versão Lidl").
Com a devida vénia, apresento-vos algumas das pérolas que o livro oferece – e que me dei ao trabalho de transcrever (quem é amigo, quem é?).
Alberto Heitor, 32 anos, génio, que nos fala do Bairro AltoDizem que todos os génios têm consciência que o são. Um disparate completo. Eu, por exemplo, sou um génio e não tenho consciência nenhuma disso. (p. 16)
Márcio tem uma ideiaAs amizades deviam ser empresas. Assim, quando um amigo deixasse de nos falar, teríamos direito a uma indemnização. (p. 17)
A escrita emagreceNa escrita ele é muito mais magro do que na televisão.
Pergunta o pai à mãeSe ele preparou o doutoramento todo de pijama, por que é que teve de levar o fato escuro para a defesa da tese? (p. 18)
Queixas de um sem-abrigoÉ natural que um recém-nascido se queixe da vida várias vezes ao dia. Afinal de contas, acabou de receber uma acção de despejo. (p. 19)
Enriquecimento com causaTem vergonha de falar sobre isso. Ficou multimilionário à custa de uma canção sobre a pobreza. (p. 19)
Não ouvido na rua- Como é que tens medo de cães se cresceste rodeado deles?
- Olha, da mesma forma que cresci rodeado de pessoas e não perdi o medo delas. (p. 19)
Perguntas que ficam para o fim Como é que se vai chamar o pai da criança? (p. 20)
As últimas palavras do psiquiatraNunca deixem o rapaz sozinho. Se não ele ainda escreve um livro. (p. 20)
Filho de zapper sabe zapparSão fim de quase doze meses. Começo a perceber que o meu filho tem algumas parecenças comigo. O petiz também gosta de fazer zapping entre os brinquedos. (p. 21)
Corpo lindoEra tão intelectual que só se excitava com o corpo de letra. (p. 23)
Livro de reclamaçõesAs televisões deviam ter pudor em transmitir os penáltis. São momentos de intimidade entre dois jogadores. (p. 23)
Juvenal tem uma surpresa no multibancoO saldo da sua vida não permite novos relacionamentos. (p. 25)
O fim do problemaPassava a vida a limpar a sua imagem. Até que, um dia, sem querer, apagou-a. (p. 25)
A vergonhaDurante a fisioterapia tinha vergonha de dizer aos atletas que se tinha lesionado – ainda por cima com gravidade – a escrever um poema. (p. 27)
Especialidades da casaSeguindo o exemplo das pessoas que colocam a placa “Boca e Dentes” junto da porta do seu prédio, Rafael resolveu colocar uma a dizer “Depressão e Diletância”. (pp. 29-30)
Acesso condicionadoHá dias em que uma pessoa está com tão pouca vontade de falar que o melhor é sair de casa com uma placa a dizer “Pessoal Autorizado Apenas”. (p. 30)
Reflexão antes do almoço de SábadoMuitas vezes, não é fácil distinguir um diamante em bruro de um bruto em diamante. (p. 30)
Delírio gastronómico (depois da leitura do Le Monde Diplomatique)- Como é que vai querer o Oriente? Bem passado? Mal passado?
- Médio. (p. 32)
Dona Bina não sabe a resposta mas não fica caladaIsso não sei. Só sei que isto está tão mau para todos que se Cristo resolvesse descer à Terra teria de ficar alojado no Ibis. (p. 32)
Frases para usar lá em cima nos momentos de infelicidadeIsto é a terra no céu. (p. 33)
A vaidade da escritaSempre que escrevia um romance, contratava uma maquilhadora. (p. 32)
Relação com o excesso de velocidadeFicou com o namorado apreendido durante três anos. (p. 34)
Das finanças públicas à vida sexual e sentimental dos cidadãosQuando, na hora do telejornal, o primeiro-ministro falou em défice, fez-se silêncio no prédio todo. (p. 34)
Maneiras de ser considerado um “chulo da Nação” pelo homem da garagem (Lição 1)Passar a manhã em casa, sair à hora do almoço e voltar duas horas depois com dois sacos da FNAC na mão cheios de CDs e livros. (p. 35)
Coisas que se dizem na esplanadaSou a versão Lidl do Fernando Pessoa. (p. 34)
Temos de ser modernosA expressão “ter o coração ao pé da boca” deve ser actualizada para “ter o coração em alta voz”. (p. 38)
Slogan para empresa dedicada ao desmancho de casamentosDisconnecting People (p. 38)
Descendo a Avenida da LiberdadeCostuma dividir-se os homens entre utópicos e pessimistas, esquecendo que o pessimismo também pode ser uma utopia. (p. 38)
Título para biografia de autarcaRotundamente (p. 39)
Esclarecimento provavelmente útilTodos os romances são livros de auto-ajuda. (p. 40)
Josefino Salomão, 51 anos, dono de um quiosque, que nos fala de OdivelasIsto da presença espanhola está tão forte que, daqui a nada, até o Corte Inglês é espanhol. (p. 40)
O pior do mundo são as personagensEram dois ficcionistas. Uma vez por semana, almoçavam juntos num restaurante da Baixa. Durante o repasto, as personagens dos seus livros ficavam lá fora. À porrada. Até as boazinhas. (p. 42)
Albertino Fumo, 54 anos, analista político da junta, que nos fala de AveirasOlhar para os cartazes de campanha depois das eleições é tão deprimente como encontrar as cuecas de fio dental da mulher no dia a seguir ao divórcio. (p. 43)
A angústia da influênciaSofro de Goethe, doutor. (p. 43)
Viagra para paísesHá as potências mundiais, como os EUA. E há também as impotências mundiais, como Portugal. (p. 44)
RecibosEle era tão intelectual, tão intelectual que até o seu livro de recibos verdades era editado pela Assírio e Alvim. (p. 45)
Conversa de dietista IIO guloso volta sempre ao lugar do creme. (p. 45)
Super-heróis para o nosso tempoDepois do
Bananaman, o
Badanaman – aquele que ganha poderes depois de ler as badanas. (p. 46)
Singela e curta homenagem a [Albert] CosseryFoi fazer um teste psicotécnico e deu preguiçoso. (p. 47)
E ainda mais umaSerá que as pessoas da alta finança também utilizam expressões como “isto tá mau pa todos”? (p. 48)
Competição de balneário actualizadaO meu NIB é maior que o teu. (p. 49)
Questão de eficácia Só as pessoas que se levam a sério podem brincar com elas mesmas. (p. 49)
ActualidadeA actualidade é promíscua. Todas as semanas está enrolada com um novo assunto. (p. 50)
A confissão de LúciaResolvi renovar com o meu namorado por mais uma época. (p. 51)
Mais uma reflexão de dona Bina sobre literatura e assuntos afinsMuitos escritores experimentam o romance com a mesma intenção com que outros experimentam heroína: para provarem que são capazes. (p. 52)
Dona Bina dá conselhos ao netoÓ José Jacinto, a paixão é o amor com ecstasy. (p. 52)
PoetaActor porno que tem medo do sexo. (p. 54)
Conversa entre animaisAqueles sites de sexo com humanos são um nojo. (p. 54)
Isto é tudo muito bonitoA condição de turista é uma condição de esquerda. A maior parte dos turistas julga que, ao visitar um país estrangeiro, encontrou a utopia. (p. 55)
A conclusão de Márcio, depois de dar um passeio pela cidadePortugal é uma telenovela brasileira produzida pela TVI. (p. 56)
Caso perdidoAté a pensar tenho má dicção. (p. 56)
Eugénio de Andrade num T4 em Lisboa
Boa noite. Eu vou com as térmitas. (p. 57)
AutomáticoOs humoristas, nos momentos de cansaço e preguiça, entram em palhaço automático. (p. 59)
PuroÉ um intelectual puro. Só assiste a reality shows para imaginar tudo em livro. (p. 60)
Deixa possível para a ejaculação precocePedimos desculpa pela interrupção. (p. 60)
Duas amigasNum gesto de generosidade, ela quis emprestar o marido à amiga. Mas a amiga disse logo: “Obrigada, mas já tenho esse”. (p. 62)
Mirones de metáforasNão se percebe por que é que os portugueses abrandam o passo para olhar os destroços de um acidente de automóvel e depois não se mostram qualquer interesse em espreitar o momento em que um escritor cria as suas metáforas. (p. 63)
Em directo do caderninho de Márcio IIIA vida é uma chamada que está sempre a ir abaixo. (p. 63)
RecensõesHá escritores que, quando estão a terminar um livro, já têm recensões sobre a obra em todos os jornais. (p. 63)
Comentário de esquinaEram muito amigos. Um era cego, o outro não. Todos os dias de manhã davam grandes passeios. Aliás, desde que o cego morreu, o outro nunca Maios soube orientar-se na cidade. (p. 65)
SuicidaEra um comboio suicida. Tinha como objectivo matar-se debaixo de uma pessoa. (p. 65)
Eu pelo menos não queria ser irmão de EinsteinPior do que ter um irmão gémeo é ter um irmão génio. (p. 66)
Márcio perguntaA beleza pode ser considerada um sinal exterior de riqueza? (p. 66)
Definição havaiana de poetaO poeta é um surfista que tem medo das ondas. (p. 66)
Tu viste a cabazada que o Ramos Rosa deu ao Nuno Júdice ontem à noite?Para além da jornada desportiva, devia haver a jornada literária. (p. 67)
A obsessão das rotundasEra um autarca tão obcecado por rotundas que mandou construir uma no seu quarto de dormir, antes da cama. (p. 68)
Aforismo da dona BinaO ciúme é o capricho dos pobres. (p. 70)
Da preocupação com a vestimentaIsto precisava era de uma Ana Salazar em cada esquina. (p. 70)
Boas maneirasEra tão bem educado que, sempre que um condutor lhe dava passagem na rua, mandava um cartão a agradecer. (p. 71)
Aforismos de Conservador utópicoEra um conservador utópico. Só queria conservar aquilo que nunca poderia ter. (p. 72)
Histórias de museuNaquele dia, o guia do museu resolveu dizer o quanto estava farto de pintura francesa do século XIX e que a sua vida sentimental e sexual era um caos. Os turistas, esses, tiraram notas como se nada fosse. (p. 73)
O último a saberNão se falava noutra coisa no bairro. Toda a gente sabia que a mulher se masturbava durante a noite. Menos o marido – que passava os serões a ver filmes pornográficos. (p. 73)
Karaoke tale (inspirado num episódio que se conta de Robert Palmer)No fim da vida, entrou num clube de karaoke e, ao cantar um hit seu, não foi reconhecido por ninguém. (p. 74)
O nascimento dum prosadorEra poeta. Até ao momento em que teve de tomar um duche frio. (p. 75)
CachetNão era um simples médico. Era um artista. Sempre que fazia um parto, pedia um cachet bastante elevado. (p. 76)
JanuárioJanuário tinha bom feitio. O seu cão é que não. Quando se encontravam era Januário que abanava o rabo. (p. 77)
A multa lírica (e outras histórias)Era um polícia bastante inconveniente. Em vez de multas, passava poemas. (p. 77)
Depois de ter passado o serão a ler os 35 Poemas, Márcio faz a seguinte perguntaTerá o Rimbaud na altura mandado alguma coisa para o DN Jovem? (p. 80)
Hoje fui aos correiosFiquei a saber que há livros do Paulo Coelho à venda nos correios. Parece-me bem. Depois do correio azul, o livro azul – o livro que é consumido em tempo recorde. (p. 80)
Até ao dia em que assassinou umaPara apresentar um novo livro, só convidava pessoas que o tinham odiado. (p. 81)
Com 18 pessoas à espera (no mínimo)Julgava que estava defronte do padre, na Igreja dos Anjos. E então, durante meia hora, confessou-se à caixa multibanco. (p. 81)
E, para terminar, a minha preferida:
A biografia de OrlandoOrlando passou a vida a envelhecer. (p. 81)
Ribeira de Pena, 25 de Outubro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho