Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

domingo, 4 de setembro de 2011

Despedida (com chuviscos)


De minha casa vejo falecer
O Verão amado, a liberdade.
Regressa a guilhotina do dever -
Adeus ó minha mãe, adeus cidade.

Ah, pudesse eu para sempre ter
Comigo um terno eterno Estio!
Ai quem me dera, amor, de novo ser
Dos meus dias dono e senhorio!

Coimbra, 04 de Setembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.fabel.blogspot.com.]

sábado, 3 de setembro de 2011

Colegas (des)contratados


Alguns dos melhores professores que tenho conhecido são "contratados". Essa evidência não me conduz à irresponsável (precipitada, bruta) conclusão de que se deva facilmente despedir "efectivos" para os substituir pelos novos; mas defendo a necessidade de, por um lado, não enganar os jovens candidatos à docência com promessas de empregabilidade mentirosas - e de, por outro, canalizar esta gente cheia de energia e de (legítima) vontade de trabalhar para lugares e funções úteis para o país.
Bem sei que a situação económica obriga a constrangimentos cínicos. Bem sei que a taxa de natalidade tem dominuído e que isso, mais tarde ou mais cedo, se tinha de fazer sentir no mercado de trabalho. Mas há ainda muito, tanto por fazer!
Por exemplo, não se percebe por que motivo, depois do concurso, há ainda cerca de quinze mil lugares por preencher; terá sido para roubar quinze dias de vencimento aos desgraçados por colocar?
Por exemplo: como se admite que, na formação ou em estabelecimentos de ensino privado, haja ainda quem acumule com outros empregos?
Etc.
Sei de colegas que deram o melhor de si pela profissão e que, entretanto, embriagados pelo optimismo mentiroso de sucessivos governos, se atreveram a constituir família, a comprar casa e carro, a ter filhos - e agora desesperam por umas migalhas para fazer face aos compromissos.
É um tempo muito triste, este que vivemos. Trata-se de um Presente que se vai parecendo, cada vez mais, com os piores Passados.

Coimbra, 02 cde Setembro de 2011.
Joaqui Jorge Carvalho

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

27


Há vinte e sete anos, o Sporting veio a Coimbra ganhar à Académica por 5-1. Nesse mesmo dia (um Domingo lindo lindo), a minha mulher dava à luz a nossa filha, a VL.
Depois, ficou tudo mais complicado - para mim e para o Sporting. Mas, no meu caso, ficou tudo também muito mais rico.
O amor por um(a) filho(a) é a forma mais fascista e também mais verdadeira de amor. É um constante, profundo, eterno fogo que arde e que se vê e que se sente.
Pus o despertador para as 23h59m do dia 01 de Setembro e fui gloriosamente, graças a esse cuidado, o primeiro a fazer chegar ao seu telemóvel uma mensagem de parabéns. Rezava assim:
"Feliz aniversário,única filha única." (E assinei "Taxi Driver", uma piada só nossa).
Vinte e sete anos disto e não muda nada, senhores. Que a minha filha é única muitas vezes única.

Coimbra, 02 de setembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

Liberdade verdadeira


Costumo, no início de cada ano lectivo, exigir aos meus alunos que, nas nossas aulas, se sintam todos, sempre, à vontade. Depois, para moderar excessos indesejáveis, acrescento (normalmente sorrindo): “Desde que o professor se sinta também à vontade, claro. Ora, num ambiente sem respeito, compreendem, o professor não se sente à vontade.”
Revi-me, agora, na minha condição de professor e pessoa num belo poema de Cesariny (“Autoridade e Liberdade são uma e mesma coisa”, in As Mãos na Água e a Cabeça no Mar), que vos ofereço:

Autoridade é do que é autor.
Só a autoridade confere autoridade.
A autoridade não é uma quantidade.
Todo o homem é teatro de uma inexpugnável autoridade.
Aquele que julga ser possível autorizar ou desautorizar a autoridade de outrem não sabe no que se mete.
Liberdade.
A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só. Mas são mais reverbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moda corrente do libertino.
Pode prender-se um homem e pô-lo a pão e água. Pode tirar-se-lhe o pão e não se lhe dar a água. Pode-se pô-lo a morrer, pendurado no ar, ou à dentada, com cães. Mas é impossível tirar-se-lhe seja que parte for da liberdade que ele é.
Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime. Quanto mais perseguido mais perigoso. Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro – nunca sairá um escravo.
Autoridade e liberdade são uma e a mesma coisa.


Coimbra, 02 de Setembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem, de Salgueiro Maia (porque tem tudo a ver), foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pt-br.facebook.com.]


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Fim sazonal


Morre, pois, o Verão, coisa tão pouca
(Falta tanto agora para o Verão…)
Atrela-se o Outono à minha boca
Teme o Inverno já meu coração.


Coimbra, 01 de Setembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.papeldeparede.etc.br.]

Mi(ni)stério


Os ministérios da educação sabem muito pouco do divino mistério da educação.

Coimbra, 01 de Setembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.paraprofessoresealunos.blogspot.com.]

Brilho precisa-se


Sou um ourives da chuva. Procuro, em cada gota caindo sobre o vidro da minha Nissan, uma faísca preciosa que me salve da mercearia de existir.

Coimbra, 01 de Setembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.photoshoptotal.com.]

Casais Monteiro


Adolfo Casais Monteiro é um nome muito interessante do modernismo português. Para além da sua própria qualidade como escritor e ensaísta, foi igualmente importante para o estudo e a consagração de, por exemplo, Fernando Pessoa.
Num poema intitulado “Aurora”, em que Casais Monteiro aduz especiosa explicação do ofício poético, há um verso que se tornou uma espécie de mármore da nossa linguagem colectiva: “Voo sem pássaro dentro”. O verso serviu, aliás, de título para um volume de poesia do autor, publicado em 1954. (Durante algum tempo, por razões que não consigo aduzir, estive convencido de que esse verso era de Cesariny – e já ousei até reinventá-lo, nesse pressuposto errado, em Desapontamentos dos Dias, mas aí colocando o “pássaro” bem no interior do seu exercício voador.]
Pus-me à procura deste poema “Aurora”, no tão utilitário Google, por tanto me apetecer trazê-lo ao meu (nosso) “Muito Mar”. Ei-lo:

Aurora

a poesia não é voz - é uma inflexão.
dizer, diz tudo a prosa. no verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. no verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
e aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro dentro.


Viva Casais Monteiro.

Coimbra, 31 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://produto.mercadolivre.com.]


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Trasfega


A MP levou para a Madeira, a recomendação minha, um livro de contos intitulado Trasfega (Lisboa, Ed. Dom Quixote, 2003), de Cristóvão de Aguiar. No regresso, quis discutir comigo alguns aspectos de algumas das narrativas e eu, por dever de exegese, obriguei-me a reler a obra.
Cristóvão de Aguiar é um escritor açoriano que mereceria, da parte de críticos e das instituições académicas, um reconhecimento maior. A pátria parece preferir, à literatura, derivados industriais sousa tavares, rebelo pintos, dos santos, etc.
Conheci pessoalmente este exímio cultor da palavra literária, no âmbito de um Prémio Literário em que fiz parte do Júri, e pude até, numa das reuniões de trabalho, beneficiar de uma sua generosa oferta – queijinho dos Açores, com o pão e vinho que se pôde arranjar. Aproveitei a ocasião para lhe solicitar, em dois dos seus livros, a graça de autógrafos; ele acedeu e acrescentou-lhes simpáticas dedicatórias.
A sua maior obra é, sem dúvida, Raiz Comovida, canto ilhéu & universal que me parece superior ao canónico Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, ou ao celebrado Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo. [Parênteses: a expressão “Raiz Comovida” é um achado; não deve haver melhor designação para isto que se passa com quem faz da linguagem um tributo permanente ao chão de onde vem.]
Trasfega é – humanamente e literariamente - uma brisa de beleza, singeleza e engenho. À boleia de histórias muito simples e, apesar disso, sempre surpreendentes, cruzamo-nos com o pensamento, as emoções e os modos de falar da gente do povo (sobretudo, da gente das ilhas). No meu (pessoalíssimo) Plano Nacional de Leitura, eis um livrinho para recomendar muito vivamente.
Reli-o na praia da Tocha, num cantinho atlântico muito limpo e sereno que pede meças a qualquer estância turística do nosso país.
Bem a propósito, a páginas tantas, Cristóvão de Aguiar cita o intemporal Torga:
“O destino destina, mas o resto é connosco.”
Num tempo cheio deste negrume ominoso que a crise e respectiva retórica trouxeram aos nossos dias, vale a pena o aconchego torgaguiariano, não achais?
O destino é o destino, pois sim. Mas enquanto há vida, é connosco.

Coimbra, 30 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto de Cristóvão de Aguiar foi colhida, com a devida vénia, em http://www.blogueforanadaevaotres.blospot.com.]

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Família(s)


Na infância, sente-se a verdade; na maturidade, percebe-se. Por exemplo, que a família é muito importante para a felicidade do ser humano.
Os gregos lá descobriram, sem grande dificuldade, que a raça humana é eminentemente gregária. Um deles, talvez o maior de todos, chamou ao mamífero que somos um animal social. Tudo a ver com a noção de família, senhores.
Sei hoje que temos, ao longo da nossa vida, não uma mas várias famílias: os pais, os irmãos, os primos; a mulher (ou o marido), os filhos; os amigos; os colegas; os nossos alunos; os vizinhos; a arte; a religião; o clube; a humanidade.
Quando escrevo, é tudo muito incompleto se não houver, para o que produzo, leitores.
De modo que, atenção, podemos sobreviver sozinhos. Mas precisamos de uma família (de várias famílias) para viver.

Coimbra, 25 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.familyguy.com.br.]

Ofício intelectual


Um amigo lança-me a provocação:
- O problema deste país é haver muitos intelectuais.
Respondo:
- É um problema haver quem diga que ser intelectual é um problema.
Ele volta à carga:
- Não me lixes, pá. Que faz um intelectual, hã?
Eu não estou à espera de uma pergunta tão radical e levo dois, três segundos a retorquir. Consigo-o, enfim. E, como o enunciado me agrada, (e)levo-o a texto blogável.
Respondo:
- O trabalho do intelectual consiste no esforço de arrumação lógica e dinâmica da informação e do conhecimento.


PS: O meu amigo, atenção, não se ficou. Disse-me ainda: "Tá bem, abelha!"

Coimbra, 24 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

22 de Agosto


Se eu estivesse na Madeira e o Mestre João fosse vivo, hoje era dia de festa rija: espetada, pãozinho bom, vinho a rodos, música, gargalhadas. O pretexto para a celebração seria (mais) um aniversário - o 51.º - de casamento. Sei que, no Caniçal, como de costume, houve missa e que, com menos gente que habitualmente, a família se reuniu.
A minha filha, certo dia, interpretando o que sentíamos todos, saiu-se com esta: "O dia 22 de Agosto é o nosso Natal na Madeira." Certíssimo, VL!
Ainda estava vivo o Mestre João quando eu escrevi (e lhe dediquei), em 2008, uma novela intitulada A Casa Circular. A personagem principal desta narrativa era determinado "Manuel Vieira" que, em boa verdade, tinha muito do meu sogro. Permito-me recordar, aqui, o final do terceiro capítulo:
«A família era o bilhete de identidade de Manuel Vieira. O seu lugar. O seu calendário. O motivo para acordar todos os dias e acreditar no futuro.
- E os outros, mestre Manuel? - perguntara, uma vez, o padre Fontinhas.
- Os outros são parte da família - respondera o velho, à gargalhada.
E acrescentara, tocado subitamente pela graça da poesia em seu discurso de homem simples:
- A minha família é como a minha Igreja. Não tem tecto.»
Senhor João, Mestre, Amigo: que grande honra foi tê-lo conhecido!

Coimbra, 22 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

Síndrome de Helder Postiga


Que triste é nunca bem realizar
O destino apetecido que sonhamos.
Tão dura é esta febre de faltar
Sempre qualquer coisa ao que tentamos.

Que triste é nunca ser grande o bastante
(Subir ao quase Olimpo e ficar fora)
Dói tanto estarmos só a um instante
De chegar a tempo à certa hora.

Coimbra, 22 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.coisa-de-leoes.blogspot.com.]

domingo, 21 de agosto de 2011

Sporting, isto é, a crise


Sou do Sporting Clube de Portugal desde que nasci. A minha família toda, incluindo a que veio a decorrer do meu casamento e dos casamentos de meus irmãos, é (salvo lamentáveis excepções) sportinguista.
Estou, depois de termos empatado com o Beira-Mar, aborrecido como um Nietzsche em fase terminal. Mas sou, agora, ainda mais sportinguista. (Percebe-se isto? Claro que não: o amor é da esfera, sobretudo, do irracional.)
O jogo de hoje, para além da dolorosa incompetência (inadaptação ou má forma) de Wolwswinkel, de Schaars, de Matías Fernandez, de João Pereira, etc., ficou marcado pela ausência de um árbitro mimado que, por não suportar as (justíssimas) queixas do presidente do Sporting, corroboradas aliás por tudo quanto é jornalista em Portugal, se recusou a apitar.
Esta ausência merece alguma reflexão. Num país onde toda a gente se queixa da arbitragem, bastou o Sporting lamentar-se publicamente - e logo os medíocres do apito se sentiram "ofendidos". Que dizer, então, das recorrentes alfinetadas de Pinto da Costa (quando o sistema, por segundos, falha)? Ou das queixas (em sede, até, de tribunal, com divulgação de escutas e tudo) do Benfica? Etc., etc., etc.???
Portanto, os senhores árbitros (quero dizer: estas almas, incompetentes e bem pagas) têm acessos de comichão ética (só) quando se trata do Sporting, não é verdade?
O raio que os parta!

PS: O treinador Domingos Paciência ainda não percebeu que, entre Schaars, André Santos e Rinaudo, só pode jogar um de cada vez?
PPS: O melhor defesa lateral esquerdo do Sporting é, em minha opinião, Diego Capel.
PPPS: Helder Postiga deveria ter, no Sporting, a posição "10", isto é, a que, no Benfica, tem Aymar.

Coimbra, 21 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ponto de ordem


Em Madrid, ontem, o Papa Bento XVI lembrou que a economia deve centrar-se, mais do que na maximalização do lucro, nas necessidades da pessoa humana.
Ainda não se conhecem as reacções dos sempre sensíveis mercados...

Coimbra,19 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho