Ouvi, pela segunda vez, no passado dia 17 de Agosto, na TSF, uma entrevista de Carlos Vaz Marques a Nando Parrado, o autor de Milagre nos Andes (Ed. Casa das Letras). O livro consiste sobretudo no relato de acontecimentos verídicos, vividos pelo entrevistado e por mais quarenta e quatro outros passageiros do avião Fairchild, da Força Aérea Uruguaia, em 1972. Na viagem – com destino ao Chile - seguia uma equipa de râguebi (da qual fazia parte Nando Parrado) que iria jogar uma partida amistosa com uma formação chilena. O avião despenhou-se na vasta zona dos Andes. Vinte e nove almas sobreviveriam à queda e, mais tarde, dezasseis apenas seriam finalmente resgatados de um lugar remoto.
Parrado, na sequência da queda do avião, ficou três dias inconsciente, com o crânio estilhaçado, mas sobreviveu. Como os seus companheiros de infortúnio, resistiu a ferimentos, cansaço, frio (temperaturas de trinta graus negativos), fome, solidão, desespero. Ele próprio encetou uma jornada, que durou dias, até encontrar alguém que enfim contactasse entidades de salvamento. Setenta e dois dias depois do início da tragédia, dezasseis almas, já dadas como oficialmente mortas, regressaram vivas ao mundo dos vivos.
Nando Parrado, sobre a ideia de morrer, explica que o desaparecimento de um homem não altera em quase nada o curso do mundo. Com simplicidade desconcertante, explicou que o regresso à sua terra ocorreu depois de haverem sido rezadas várias missas por sua alma, e que essa circunstância lhe permitira perceber, em concreto, o que se passava depois do nosso próprio passamento. Cito de cor:
“Que se passa quando morremos? Não se passa nada. Não acontece nada. Cães andam pelo jardim, táxis fazem serviços, meninos brincam, homens e mulheres trabalham, raparigas conversam à entrada de um Café, etc. Não acontece nada de diferente. Tudo continua igual.”A ideia encerra uma óbvia lição. Por exemplo, não nos tomarmos demasiado a sério enquanto vivos; termos consciência da nossa finitude e efemeridade; prevenirmo-nos contra a vaidade e a glória (sempre) fugaz.
Mas eu, que ainda não pude morrer e voltar, tenho uma experiência igualmente profunda que acrescenta algo ao tema. Digo-vo-la: já vi partir gente querida, próxima, insubstituível - e essas pessoas fazem-me, todos os dias, falta.
De modo que, Nando Parrado, vista a coisa do lugar onde (ainda) me encontro, algo se passa quando alguém desaparece. Muitas vezes, tudo.
Coimbra, 18 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho









