Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sábado, 13 de agosto de 2011

Um modelo fatalmente melhor que os anteriores


O ministro da Educação, Nuno Crato, apresentou a sua proposta de modelo de avaliação dos professores.
Não será, por certo, o modelo ideal. Mas é, creio profundamente, muito melhor que os impostos pelas senhoras Rodrigues e Alçada.
Numa primeira leitura, vejo a possibilidade de se diminuir o ataque ao bom ambiente entre pares, nas escolas, e a (pelo menos, parcial) devolução de Tempo a professores e alunos para o que é realmente essencial - o ensino, a aprendizagem.
Por muito justas que sejam as razões para discordar deste novo modelo, é preciso - para já - distingui-lo do maiúsculo Nojo que, nos últimos seis anos, têm sido as outras propostas.
Dito.

Coimbra, 13 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.missdevil.blogs.sapo.pt.]

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Recessão



1. Regresso a Coimbra ao princípio da noite. Muito mar pude eu ver, ao longo da tarde, na praia (tão) limpa da Tocha.
2. A MP na Madeira; a VL no Alentejo: a minha casa, portanto, quase cheia de nada.

Coimbra, 12 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[Fotos JJC)

Conhecer para Ver


O melhor entrevistador da rádio portuguesa chama-se Carlos Vaz Marques. Ouvi-o hoje, pelas dezanove e picos, no programa “Pessoal e Transmissível”, a entrevistar um sábio – José Hermano Saraiva.
Retive, entre outras pérolas do quase nonagenário, esta maravilha:
«Muita gente diz: “Só se conhece o que se vê. Eu acho o contrário – só se vê verdadeiramente o que se conhece.”»
Amen, Professor.

Coimbra, 12 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto foi colhida, com a devida vénia, em http://www.alma-algarvia.blogspot.com.]

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Autoestrada do Sul


Durante parte do dia de hoje, devorei (com indecente volúpia) Todos os Fogos o Fogo, um livro de contos de de Julio Cortázar (tradução de Carlos Barata, Editorail Estampa, Lisboa, 1987). O conto que dá nome à obra é o sétimo de oito. Deverei aqui falar, no Muito Mar, de alguns deles nos próximos tempos. (Ou não.) Para já, em avaliação global, adianto a minha preferência pelo primeiro, “Autoestrada do Sul”.
Durante um gigantesco engarrafamento, que dura vários dias, desesperam de chegar a Paris numerosos viajantes, diversíssimos entre si no que se refere a profissão, estrato socioeconómico, idade, estado civil, cultura, etc. Por imperativos da situação, olham-se, cumprimentam-se, partilham informações, esperanças e medos, trocam palavras. Convivem. A falta de água, de alimentos, de saúde, de companhia, de carinho resolve-se (ou vai-se resolvendo) com a intervenção dos ocupantes dos carros vizinhos.
Só de vez em quando se avança (dez, vinte, cem metros), mas essa circunstância - a priori, um odioso contratempo - revela-se afinal uma oportunidade para as pessoas se conhecerem, se aproximarem, se enriquecerem umas das outras. No final do conto, quando os carros voltam a andar normalmente, i.e., quando o problema algures na via fica resolvido, o enunciado narrativo parece lamentar-se desta sobrevinda normalidade. Um desabafo - que é simultaneamente de uma personagem e do próprio narrador – explicita claramente esta ideia (página 41):
«[…] corria-se a oitenta quilómetros
Em direcção às luzes que aumentavam mais e mais sem que já se soubesse porquê tanta pressa, porquê essa corrida na noite entre carros desconhecidos, onde ninguém sabia nada dos outros, onde toda a gente olhava fixamente para a frente, só para a frente.»

Percebe-se que, tendo havido tempo para o milagre, se formara entre os auto(i)mobilizados uma espécie de co-humanidade essencial. Ou seja, uma comunidade de gente solidária. A marcha retomada interromperá esse estado (ou, de um ponto de vista filosófico, esse estádio).
Uma comunidade é, pois, gente vivendo (n)uma comum idade.

Coimbra, 10 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

Diário de um Banana 3


Na terça-feira, pela manhã, li o Diário de um Banana 3, de Jeff Kinney (Ed. Booksmile). O livro foi-me emprestado pelo meu sobrinho António Conceição. Lembra, no conceito e na linguagem, o Diário de Adrian Mole, de Sue Townsend, ou o boneco Calvin, criado por Bill Watterson: humor inteligente, com saudáveis pitadas de nonsense. Não admira que os livros de Kinney sejam este consabido sucesso editorial. As pessoas gostam e precisam (cada vez mais) de se rir. E o riso inteligente é uma espécie sublime de comunicação!

Coimbra, 10 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

Escola Pública


Incomoda-me a frequência com que, nos jornais e - sobretudo - na net, se multiplicam os comentários maldosos, malcriados e injustos contra os professores. O governo do PS encarregou-se de fomentar um desprestígio para a classe docente que levará anos a reparar (se a situação for ainda reparável). A cada notícia sobre negociações entre sindicatos e governo, milhares de ignorantes destilam ódio, ressentimento, fúria nazi: os professores são, nas palavras de gente com mais bílis que gramática, "maus, privilegiados, incompetentes, egoístas".
A este panorama muito triste soma-se uma (ainda pouco visível) guerra entre "contratados" e "efectivos". Esquecidos de que os mais velhos estiveram sempre na primeira linha da luta (contra uma avaliação iníqua e burocrática; contra o cariz precário da situação dos mais novos), jovens professores acham que o problema está no pessoal "instalado", "dos quadros". Já vi alguns contratados a afirmar que a avaliação é, afinal, coisa positiva porque permite ver quem são "os melhores" (uma destas opiniões apareceu escrita num fórum social, em código vagamente aparentado com o Português). Isto é, a desejada selva (laboriosamente engendrada por Sócrates, Maria de Lurdes Rodrigues e Valter Lemos) começa a produzir os seus efeitos entre os docentes.
Talvez valesse a pena aos sindicatos reforçar a aposta nesta explicação ao país profundo do que está em causa: que a Escola Pública sofre actualmente um ataque terrível (diminuição de recursos; degradação dos recursos); que a morte (rápida ou lenta) da Escola Pública é um retrocesso na qualidade da nossa democracia; que a desconsideração dos educadores é uma das faces mais visíveis das agressões perpetradas sobre a nossa Escola. "Nossa", verdadeiramente "nossa", porque pública.
Em última análise, para os professores, trabalhar no ensino público ou no ensino privado vem a dar no mesmo. Tal como sucede com médicos, pilotos, motoristas, advogados, recepcionistas, informáticos, enfermeiros, canalizadores, etc.
Mas "isto" não é já igual se considerarmos o interesse do cidadão comum. O serviço público é de todos. O serviço privado é de quem o puder pagar.

Coimbra, 10 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.naoinercial.wordpress.com.]

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Presente


Ó sagradas manhãs que me comovem!
Ó minha pulcra paz de país breve!
Ó divino Presente onde se movem
Os passos e os olhos de quem escreve!

Coimbra, 08 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.skyrapescity.com.]

domingo, 7 de agosto de 2011

Feios, Porcos e Maus


Passou, uma vez mais, na RTP2 o filme Feio, Porcos e Maus, de Ettore Scola. Um grande filme, sem dúvida. Durante cerca de duas horas, desfila à nossa frente um cortejo de miséria e degradação. Interessante (e até bizarro) é percebermos, na narrativa, a simultaneidade de duas dimensões contrárias: a tragédia e a cómédia. Parece um paradoxo isto de um espectador sóbrio se rir das misérias da condição humana. Questão: por que rimos nós, então, perante uma tão cruel representação da indignidade?
Em entrevista à Sic, Eduardo Lourenço cita Baudelaire lembrando que o riso é uma forma de resistência. Por alguns momentos, em vez de lamentarmos a fragilidade da condição humana, aceitamo-la alegremente como parte desta identidade que somos. E rindo nos distanciamos, por zigomáticos instantes, da fatalidade do nosso destino mortal. Isto mesmo acontece com Feios, Porcos e Maus.
Mas o filme de Scola não deixa de ser uma séria e dolorosa visão desta terrível desumanidade que o mundo moderno (ainda) compreende. No final da película, atravessando a manhã da periferia romana, uma menina de (talvez) nove-dez anos, carrega dois garrafões e um balde. Como faz todos os dias, vai buscar água para a barraca onde vive a família. O bairro da lata desperta vagarosamente, numa rotina sans cesse: operários promíscuos cruzam-se com putas conspícuas e ladrões iníquos; domésticas aliviam a bexiga e desempregados dão vazão à testosterona; adolescentes e matronas tratam da higiene pessoal, acendendo vontades incestuosas; uma velha avó espera que a televisão comece a transmitir; etc.
A menina, do alto do planalto, olha a cidade dos outros. Já a tínhamos visto muito inocente e virginal no início da história. Mas agora está grávida, a menina. Não nos rimos.

Coimbra. 07 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.]

sábado, 6 de agosto de 2011

Motor


Os carros envelhecem, degradam-se, avariam. Como as pessoas. Como tudo.
O meu irmão Emanuel e o sogro, sr. Avelino, ofereceram-me esta manhã de sábado e, durante mais de três horas, trataram da minha tão usada carrinha: filtro de óleo, filtro de ar, óleo, plaquetes de travões.
Esparsamente, eu e o meu sobrinho David colaborávamos - ligando uma ficha à tomada mais próxima; trazendo ferramentas, panos de limpeza, etc. Aproveitámos para conversar.
O David é um rapaz muito curioso e muito vivo. Adora automóveis e motos. Quer saber tudo sobre mecânica, electricidade, combustível, modelos e marcas, técnicas, velocidades.
Aí pelo meio-dia, demos por nós a explorar o mundo mágico das metáforas. O David falou na idade da Nissan Primera, eu falei na minha própria velhice. Disse-lhe: "A carrinha é como nós, David."
O David perguntava: "E onde estão as pernas dela?"
Eu: "São as rodas."
"E os olhos?"
"São os faróis."
"E o sangue?"
"O óleo, o gasóleo."
Ao fim de muitas perguntas e respostas, tínhamos construído já uma divertida alegoria. Fiz-lhe, a dada altura, um teste:
"E o motor - o que é, David?"
O meu sobrinho, dominando bem a lógica da metáfora, respondeu imediatamente:
"É o coração, claro."

Portanto: fui tratar da vida da minha carrinha, hoje. Que a morte é não haver motor.

Coimbra, 06 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Recuperação momentânea da imortalidade


Café, torrada, manteiga
Sol à mesa e um jornal -
Manhã minha, manhã meiga
Manhã de eu ser imortal.

Coimbra, 05 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto é um outreu, em Edinburgh, no ano ainda agora de 1986.]

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A Música do Mundo


Defendi, à roda dos romances de Júlio Dinis, que uma boa história compreende sempre ritmo e melodia. Por ritmo, deve entender-se a intriga nuclear (por exemplo, em As Pupilas do Senhor Reitor, Daniel separa-se de Margarida, esquece-a por alguns capítulos, redescobre-a); por melodia, deve entender-se a acção (ou, como preferi chamar-lhe, um a intriga periférica que “é”, em boa verdade, a aldeia dinamicamente contada – com os contributos de João Semana, José das Dornas, João da Esquina, etc.).
Sendo o romance o modo literário que, por excelência, representa a própria vida humana, não me parece impertinente estender esta metáfora ao mundo que habitamos e somos.
E passa-se que toda a gente, de modo mais ou menos eloquente, fala do ritmo vertiginoso da vida moderna, mas que raros se dão ao trabalho de reflectir sobre a sua melodia (ou a falta dela).

Coimbra, 04 de Agosto (parabéns, Nelo!) de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (d’As Pupilas) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.universidadefalada.com.]

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Bom Professor


Por enquanto, eu não duvido das boas intenções do novo ministro da Educação, Nuno Crato. Mas confirmei ontem, durante a sua reunião com deputados dos vários partidos, que se trata de um voluntarista pouco preparado e, em vários domínios, com ideias comprovadamente erradas. Confunde, por exemplo, classificação com avaliação e instrução com educação. A sua obsessão com exames, que dava um bom boneco em pseudo-debates televisivos, afigura-se coisa pobre como programa de governo.
Ocupo-me, para já, da sua noção de “bom professor”: aquele que - cito, obviamente, de cor - é capaz de apresentar melhores resultados escolares, elevando os conhecimentos científicos e as capacidades dos seus alunos, no contexto de um determinado quadro programático-curricular. A esta luz, medir-se-á a qualidade do professor apenas pelos resultados escolares dos respectivos discentes (aqui comparecendo os amados exames).
Ora, alunos e professores sabem que esta ideia do senhor ministro está incompleta. Porque ser professor é “isso”, sem dúvida, mas é também (e muitas vezes sobretudo) muito mais do que isso. E quem não perceber esta nuance quase nada percebe.
Se Nuno Crato tiver a humildade dos sábios, que passa muito por reconhecer a ignorância (ou a incompletude do que conhece-sabe), ainda vai a tempo de ser um bom ministro.

Coimbra, 03 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (Michelle Pfeiffer num filme de 1995, Mentes Perigosas), foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cinemahistoriaeducacao.com.]

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Soneto de ver mais


Por vezes se liberta o meu olhar
Da pobre, imediata condição:
É quando sinto olhos de voar
Buscando o mais que haja além da mão –

Por exemplo, é quando vejo o mar
Tocando-se de céu (e o céu de chão)
Ou quando, à falta de o mirar,
Finjo que ele existe em vez de não.

Há muito ser eterno em ver o mar
E em ser maior o visto que a visão;
Há muita eternidade no olhar

Se à pobre, imediata condição
O olhador souber acescentar
As asas de olhar com ilusão.

Coimbra, 02 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto da praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.fotodependente.com.]

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Qual o Plano


Fui jogador de futebol, estudante. Sou adepto do futebol (a verde e branco) e professor.
Sei por experiência própria da importância da liderança, isto é, de termos bons líderes, de sermos bons líderes. Quem cumpre ordens, funções, tarefas necessita de acreditar que, acima de si, há uma visão, uma estratégia, um plano. O que se faz tem, a essa luz, sentido, lógica, razão de ser.
Fui jogador de futebol e, ainda que preferisse jogar do lado direito, apressava-me a correr para a faixa esquerda do campo se o treinador mo pedia. Acreditava que essa era decerto a melhor opção, pois claro.
Fui estudante e, ainda que não gostasse de aulas excessivamente expositivas ou de trabalhos de grupo, cumpria as minhas obrigações discentes. Acreditava que aquele sacrifício, a prazo, daria frutos.
Sou adepto do Sporting e, ainda que me pareça errada contratação de certos jogadores e a dispensa de outros (por exemplo), busco no mais fundo de mim alguns motivos de esperança. Acredito que outros, com mais tempo e competência, pensaram no assunto e escolheram o caminho certo.
Sou professor e sei que, mais do que obrigado a ser sempre popular, estou obrigado a conduzir os meus alunos pelos caminhos mais correctos e produtivos. Acredito que o processo e os frutos do processo são justos e bons.
No domínio da religião, deve haver um semelhante contrato de confiança entre criaturas e Criador.
Como, fora de catecismos convencionais, gosto da ideia de Deus, interrogo-me não poucas vezes sobre a visão, a estratégia, o plano que o Grande Autor tem para a minha pobre personagem. Sei tão pouco desta minha narrativa!
Olho para trás e pergunto: e agora? Para que foi isto tudo? Para que é isto tudo? Como se conclui, senhores, esta diegese pessoal?

Dito isto, vou correr. Coisa mais fácil, hoje: está um dia chuvoso, de temperatura amável. Também enquanto corro a minha vida se escreve.

Coimbra, 01 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto foi colhida, com a devida vénia, em http://www.praia-de-mira-com.]

domingo, 31 de julho de 2011

Ferrugem


Estes meus olhos são os mesmos olhos meus que, em 1983, se emocionaram com a beleza amável do rio. Lembro-me: corri entre a Estação Velha e o Choupal, tomei um apressado banho, almocei, apanhei o autocarro n.º 2 (Praça da República-Pedrulha), passei pela oficina onde o meu pai trabalhava e obtive vinte escudos para café, escrevi à MP sobre metáforas ribeirinhas de amor e vida.
O Mondego é o mesmo (trotei por lá hoje, em marcha de quarentão tardio, suando as estopinhas).
Passaram, de um parágrafo para o outro, 28 anos.
Sinto já, na cabeça e no metabolismo em geral, a inelutável ferrugem. Vão falhando as articulações, a digestão fácil, os sonhos.
Apesar de tanto sol, não vejo razões para optimismos.
Entretanto, irmãos, tomemos café, passeemos, amemo-nos.
Como se não houvesse relógio.

Coimbra, 31 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.poesialusa.blogs.sapo.pt.]