Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Recuperação momentânea da imortalidade


Café, torrada, manteiga
Sol à mesa e um jornal -
Manhã minha, manhã meiga
Manhã de eu ser imortal.

Coimbra, 05 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto é um outreu, em Edinburgh, no ano ainda agora de 1986.]

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A Música do Mundo


Defendi, à roda dos romances de Júlio Dinis, que uma boa história compreende sempre ritmo e melodia. Por ritmo, deve entender-se a intriga nuclear (por exemplo, em As Pupilas do Senhor Reitor, Daniel separa-se de Margarida, esquece-a por alguns capítulos, redescobre-a); por melodia, deve entender-se a acção (ou, como preferi chamar-lhe, um a intriga periférica que “é”, em boa verdade, a aldeia dinamicamente contada – com os contributos de João Semana, José das Dornas, João da Esquina, etc.).
Sendo o romance o modo literário que, por excelência, representa a própria vida humana, não me parece impertinente estender esta metáfora ao mundo que habitamos e somos.
E passa-se que toda a gente, de modo mais ou menos eloquente, fala do ritmo vertiginoso da vida moderna, mas que raros se dão ao trabalho de reflectir sobre a sua melodia (ou a falta dela).

Coimbra, 04 de Agosto (parabéns, Nelo!) de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (d’As Pupilas) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.universidadefalada.com.]

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Bom Professor


Por enquanto, eu não duvido das boas intenções do novo ministro da Educação, Nuno Crato. Mas confirmei ontem, durante a sua reunião com deputados dos vários partidos, que se trata de um voluntarista pouco preparado e, em vários domínios, com ideias comprovadamente erradas. Confunde, por exemplo, classificação com avaliação e instrução com educação. A sua obsessão com exames, que dava um bom boneco em pseudo-debates televisivos, afigura-se coisa pobre como programa de governo.
Ocupo-me, para já, da sua noção de “bom professor”: aquele que - cito, obviamente, de cor - é capaz de apresentar melhores resultados escolares, elevando os conhecimentos científicos e as capacidades dos seus alunos, no contexto de um determinado quadro programático-curricular. A esta luz, medir-se-á a qualidade do professor apenas pelos resultados escolares dos respectivos discentes (aqui comparecendo os amados exames).
Ora, alunos e professores sabem que esta ideia do senhor ministro está incompleta. Porque ser professor é “isso”, sem dúvida, mas é também (e muitas vezes sobretudo) muito mais do que isso. E quem não perceber esta nuance quase nada percebe.
Se Nuno Crato tiver a humildade dos sábios, que passa muito por reconhecer a ignorância (ou a incompletude do que conhece-sabe), ainda vai a tempo de ser um bom ministro.

Coimbra, 03 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (Michelle Pfeiffer num filme de 1995, Mentes Perigosas), foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cinemahistoriaeducacao.com.]

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Soneto de ver mais


Por vezes se liberta o meu olhar
Da pobre, imediata condição:
É quando sinto olhos de voar
Buscando o mais que haja além da mão –

Por exemplo, é quando vejo o mar
Tocando-se de céu (e o céu de chão)
Ou quando, à falta de o mirar,
Finjo que ele existe em vez de não.

Há muito ser eterno em ver o mar
E em ser maior o visto que a visão;
Há muita eternidade no olhar

Se à pobre, imediata condição
O olhador souber acescentar
As asas de olhar com ilusão.

Coimbra, 02 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto da praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.fotodependente.com.]

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Qual o Plano


Fui jogador de futebol, estudante. Sou adepto do futebol (a verde e branco) e professor.
Sei por experiência própria da importância da liderança, isto é, de termos bons líderes, de sermos bons líderes. Quem cumpre ordens, funções, tarefas necessita de acreditar que, acima de si, há uma visão, uma estratégia, um plano. O que se faz tem, a essa luz, sentido, lógica, razão de ser.
Fui jogador de futebol e, ainda que preferisse jogar do lado direito, apressava-me a correr para a faixa esquerda do campo se o treinador mo pedia. Acreditava que essa era decerto a melhor opção, pois claro.
Fui estudante e, ainda que não gostasse de aulas excessivamente expositivas ou de trabalhos de grupo, cumpria as minhas obrigações discentes. Acreditava que aquele sacrifício, a prazo, daria frutos.
Sou adepto do Sporting e, ainda que me pareça errada contratação de certos jogadores e a dispensa de outros (por exemplo), busco no mais fundo de mim alguns motivos de esperança. Acredito que outros, com mais tempo e competência, pensaram no assunto e escolheram o caminho certo.
Sou professor e sei que, mais do que obrigado a ser sempre popular, estou obrigado a conduzir os meus alunos pelos caminhos mais correctos e produtivos. Acredito que o processo e os frutos do processo são justos e bons.
No domínio da religião, deve haver um semelhante contrato de confiança entre criaturas e Criador.
Como, fora de catecismos convencionais, gosto da ideia de Deus, interrogo-me não poucas vezes sobre a visão, a estratégia, o plano que o Grande Autor tem para a minha pobre personagem. Sei tão pouco desta minha narrativa!
Olho para trás e pergunto: e agora? Para que foi isto tudo? Para que é isto tudo? Como se conclui, senhores, esta diegese pessoal?

Dito isto, vou correr. Coisa mais fácil, hoje: está um dia chuvoso, de temperatura amável. Também enquanto corro a minha vida se escreve.

Coimbra, 01 de Agosto de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto foi colhida, com a devida vénia, em http://www.praia-de-mira-com.]

domingo, 31 de julho de 2011

Ferrugem


Estes meus olhos são os mesmos olhos meus que, em 1983, se emocionaram com a beleza amável do rio. Lembro-me: corri entre a Estação Velha e o Choupal, tomei um apressado banho, almocei, apanhei o autocarro n.º 2 (Praça da República-Pedrulha), passei pela oficina onde o meu pai trabalhava e obtive vinte escudos para café, escrevi à MP sobre metáforas ribeirinhas de amor e vida.
O Mondego é o mesmo (trotei por lá hoje, em marcha de quarentão tardio, suando as estopinhas).
Passaram, de um parágrafo para o outro, 28 anos.
Sinto já, na cabeça e no metabolismo em geral, a inelutável ferrugem. Vão falhando as articulações, a digestão fácil, os sonhos.
Apesar de tanto sol, não vejo razões para optimismos.
Entretanto, irmãos, tomemos café, passeemos, amemo-nos.
Como se não houvesse relógio.

Coimbra, 31 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.poesialusa.blogs.sapo.pt.]

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Um ano sem o Mestre João


O Mestre João, meu sogro, partiu há um ano.
A MP. a VL e eu estaremos amanhã numa igreja, em Coimbra, em memória desta ideia exemplar de Homem.
Eu gostava muito dele. Gosto muito dele. Faz falta ao mundo. Faz-me falta.

Coimbra, 30 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

Anorexia de Estado


Economistas enxameiam a televisão e, com a propriedade de um médico do século XVIII, falam exuberantemente de "gorduras do Estado".
A mim, que olho para estes sabichões muito de fora, parece-me que Portugal caminha, cada vez mais, para essoutra delicada condição da anorexia.
Mas não tenho dúvidas: a seu tempo, estes falastrões da economia & finanças também arranjarão uma explicação a posteriori para a falência das sábias merdas que hoje lhes parecem a cura de tudo.

Coimbra, 29 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dobebe.com.]

Legislação laboral


Com José Sócrates ao longe rindo-se de nós todos, o novo governo esforça-se por tornar, com medidas d'além troika, o anterior governo quase simpático.
Dizia-se de Passos Coelho que era um feroz neoliberal como nunca se vira no PSD. Eu desconfiei, prudentemente, deste rótulo antecipado. Et pourtant...
Um jovem Secretário de Estado do Ministério do Emprego foi à Assembleia da República anunciar terríveis me(r)didas na área da legislação laboral: vai ser mais fácil e mais barato despedir os trabalhadores portugueses. Explicou, com generosa bonomia, que se tratava de tornar mais flexível o mercado de trabalho.
Ouvi tanbém na rádio um economista importante lembrar que em Portugal o problema está nos "custos do trabalho". Custa a pagar "tanto" aos portugueses e, depois, custa "tanto" despedi-los.
Ocorreu-me esta possibilidade: se optássemos (pelo menos no funcionalismo público) pela escravatura? Mais barato não haverá, senhores.
Aqui está uma solução que os neoliberais ainda não aventaram (pelo menos em público). Ofereço-vo-la.

Coimbra, 28 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.betaolemela.blspot.com.]

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Bom Pasto, a Língua Portuguesa


É bom pasto a Língua Portuguesa
Colho nela sempre o alimento.
Se de mim foge, às vezes, a beleza,
Se me falta ou farta o sentimento,

Jamais falta a palavra que me diz -
O meu não ficar e não partir
O estar entre feliz e infeliz
O adjectivo certo a descobrir.

Coimbra, 27 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é a de um selo homenageando o Rei & Poeta D. Dinis, monarca que formalmente instituiu o Português como língua do Reino.]

Café Durée


Ao fundo da sala
O homem e o jornal.
Sobre a mesa
À frente do homem
A chávena e o cheiro
(entre parêntesis)
A café morto.

Já vi em outro tempo
O homem e o jornal
(outro homem? outro jornal?)
E já senti cheiros semelhantes
A esta ausência de café.

Quanto tempo mais ali estará
o homem e o jornal e o cheiro
Morrendo?

Outro café, por favor
(Ouço, digo).

Coimbra, 26 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na wikipédia.

Senhora entrando num táxi, à Estação Velha


Geométrico o sorriso singular
Da turista nunca mais apercebida –
Depois somente a rua irregular
E a regular ausência de outra vida.

Coimbra, 26 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.texasselvagem.blogspot.com]

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Acção, Cenas e Personagens na Narrativa Dinisiana: As Pupilas do Senhor Escritor



Entrei na mítica Sala dos Capelos às dez horas da manhã. "Medo cénico", eventualmente letal, como explicou um dia (reportando-se ao Estádio Santiago Bernabéu) o grande Jorge Valdano.
Além da MP, havia quatro colegas do Curso para assistirem ao acto. (Agradeci-lhes. Agradeço-lhes.)
Durante duas horas e quarenta e cinco minutos, expus, argumentei, ouvi, respondi. Suei muito. E saí - Deus seja louvado - "Doutor".
Missão comprida. Missão cumprida.
A minha mãe gabou-se do facto a três ou quatro vizinhas. Tirámos fotografias e lamentámos os mortos que já não estão aqui para se abraçar.
Devolvi o fato alugado às quatro e meia da tarde e marquei uma festa familiar para sábado.
Fui felicitado pela MP, pela VL, por irmãos, por amigos avulsos. O telemóvel trouxe-me a generosidade e a doçura de ausentes-presentes.
Dia lindo, como eu adivinhara há cerca de quatro anos.

Nota dissonante: morreu Maria Lúcia Lepecky, uma grande Professora que citei tantas vezes no enunciado. Dedico também a esta Senhora luminosa, em hora talvez já tardia, a minha tese sobre Júlio Dinis.

Coimbra, 25 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto de Maria Lúcia Lepecky foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pneliteratura.pt.]

sábado, 23 de julho de 2011

Maratona


Uma maratona é coisa mais de não desistir que de, simplesmente, ganhar.
Tenho para breve um encontro com uma parte linda do meu destino. O meu pai já não pode estar senão pelo coração. Assim o Mestre João. Assim o Botelho.
Haverá ainda a concretude respirando de minha mãe. E o oxigénio sine qua non da MP. E o da VL.
Abençoada a vida que ainda temos.
Vou de fato alugado. Os sapatos são do meu irmão e apertam-me um pouco.
Toda a gente que vale a pena estará comigo (incluindo mortos).
Até já.

Coimbra, 23 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 19 de julho de 2011

Por gritar


Uma pata sebenta sobre as nossas cabeças.
Um bicho nojento com aritmética porca.
Um olhar satânico com Excel na menina dos olhos.
Uma voz urrada como as daquela outra (mesma) inquisição d'antanho.
O triunfo da mentira.
O triunfo dos porcos.
A gente (nós) abaixo de gente.
O já não podermos sequer gritar!

Ribeira de Pena, 18 de Julho de2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura supra é, obviamente, a do famoso "Grito" de Münch.]