Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

domingo, 31 de julho de 2011

Ferrugem


Estes meus olhos são os mesmos olhos meus que, em 1983, se emocionaram com a beleza amável do rio. Lembro-me: corri entre a Estação Velha e o Choupal, tomei um apressado banho, almocei, apanhei o autocarro n.º 2 (Praça da República-Pedrulha), passei pela oficina onde o meu pai trabalhava e obtive vinte escudos para café, escrevi à MP sobre metáforas ribeirinhas de amor e vida.
O Mondego é o mesmo (trotei por lá hoje, em marcha de quarentão tardio, suando as estopinhas).
Passaram, de um parágrafo para o outro, 28 anos.
Sinto já, na cabeça e no metabolismo em geral, a inelutável ferrugem. Vão falhando as articulações, a digestão fácil, os sonhos.
Apesar de tanto sol, não vejo razões para optimismos.
Entretanto, irmãos, tomemos café, passeemos, amemo-nos.
Como se não houvesse relógio.

Coimbra, 31 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.poesialusa.blogs.sapo.pt.]

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Um ano sem o Mestre João


O Mestre João, meu sogro, partiu há um ano.
A MP. a VL e eu estaremos amanhã numa igreja, em Coimbra, em memória desta ideia exemplar de Homem.
Eu gostava muito dele. Gosto muito dele. Faz falta ao mundo. Faz-me falta.

Coimbra, 30 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

Anorexia de Estado


Economistas enxameiam a televisão e, com a propriedade de um médico do século XVIII, falam exuberantemente de "gorduras do Estado".
A mim, que olho para estes sabichões muito de fora, parece-me que Portugal caminha, cada vez mais, para essoutra delicada condição da anorexia.
Mas não tenho dúvidas: a seu tempo, estes falastrões da economia & finanças também arranjarão uma explicação a posteriori para a falência das sábias merdas que hoje lhes parecem a cura de tudo.

Coimbra, 29 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dobebe.com.]

Legislação laboral


Com José Sócrates ao longe rindo-se de nós todos, o novo governo esforça-se por tornar, com medidas d'além troika, o anterior governo quase simpático.
Dizia-se de Passos Coelho que era um feroz neoliberal como nunca se vira no PSD. Eu desconfiei, prudentemente, deste rótulo antecipado. Et pourtant...
Um jovem Secretário de Estado do Ministério do Emprego foi à Assembleia da República anunciar terríveis me(r)didas na área da legislação laboral: vai ser mais fácil e mais barato despedir os trabalhadores portugueses. Explicou, com generosa bonomia, que se tratava de tornar mais flexível o mercado de trabalho.
Ouvi tanbém na rádio um economista importante lembrar que em Portugal o problema está nos "custos do trabalho". Custa a pagar "tanto" aos portugueses e, depois, custa "tanto" despedi-los.
Ocorreu-me esta possibilidade: se optássemos (pelo menos no funcionalismo público) pela escravatura? Mais barato não haverá, senhores.
Aqui está uma solução que os neoliberais ainda não aventaram (pelo menos em público). Ofereço-vo-la.

Coimbra, 28 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.betaolemela.blspot.com.]

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Bom Pasto, a Língua Portuguesa


É bom pasto a Língua Portuguesa
Colho nela sempre o alimento.
Se de mim foge, às vezes, a beleza,
Se me falta ou farta o sentimento,

Jamais falta a palavra que me diz -
O meu não ficar e não partir
O estar entre feliz e infeliz
O adjectivo certo a descobrir.

Coimbra, 27 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é a de um selo homenageando o Rei & Poeta D. Dinis, monarca que formalmente instituiu o Português como língua do Reino.]

Café Durée


Ao fundo da sala
O homem e o jornal.
Sobre a mesa
À frente do homem
A chávena e o cheiro
(entre parêntesis)
A café morto.

Já vi em outro tempo
O homem e o jornal
(outro homem? outro jornal?)
E já senti cheiros semelhantes
A esta ausência de café.

Quanto tempo mais ali estará
o homem e o jornal e o cheiro
Morrendo?

Outro café, por favor
(Ouço, digo).

Coimbra, 26 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na wikipédia.

Senhora entrando num táxi, à Estação Velha


Geométrico o sorriso singular
Da turista nunca mais apercebida –
Depois somente a rua irregular
E a regular ausência de outra vida.

Coimbra, 26 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.texasselvagem.blogspot.com]

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Acção, Cenas e Personagens na Narrativa Dinisiana: As Pupilas do Senhor Escritor



Entrei na mítica Sala dos Capelos às dez horas da manhã. "Medo cénico", eventualmente letal, como explicou um dia (reportando-se ao Estádio Santiago Bernabéu) o grande Jorge Valdano.
Além da MP, havia quatro colegas do Curso para assistirem ao acto. (Agradeci-lhes. Agradeço-lhes.)
Durante duas horas e quarenta e cinco minutos, expus, argumentei, ouvi, respondi. Suei muito. E saí - Deus seja louvado - "Doutor".
Missão comprida. Missão cumprida.
A minha mãe gabou-se do facto a três ou quatro vizinhas. Tirámos fotografias e lamentámos os mortos que já não estão aqui para se abraçar.
Devolvi o fato alugado às quatro e meia da tarde e marquei uma festa familiar para sábado.
Fui felicitado pela MP, pela VL, por irmãos, por amigos avulsos. O telemóvel trouxe-me a generosidade e a doçura de ausentes-presentes.
Dia lindo, como eu adivinhara há cerca de quatro anos.

Nota dissonante: morreu Maria Lúcia Lepecky, uma grande Professora que citei tantas vezes no enunciado. Dedico também a esta Senhora luminosa, em hora talvez já tardia, a minha tese sobre Júlio Dinis.

Coimbra, 25 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto de Maria Lúcia Lepecky foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pneliteratura.pt.]

sábado, 23 de julho de 2011

Maratona


Uma maratona é coisa mais de não desistir que de, simplesmente, ganhar.
Tenho para breve um encontro com uma parte linda do meu destino. O meu pai já não pode estar senão pelo coração. Assim o Mestre João. Assim o Botelho.
Haverá ainda a concretude respirando de minha mãe. E o oxigénio sine qua non da MP. E o da VL.
Abençoada a vida que ainda temos.
Vou de fato alugado. Os sapatos são do meu irmão e apertam-me um pouco.
Toda a gente que vale a pena estará comigo (incluindo mortos).
Até já.

Coimbra, 23 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 19 de julho de 2011

Por gritar


Uma pata sebenta sobre as nossas cabeças.
Um bicho nojento com aritmética porca.
Um olhar satânico com Excel na menina dos olhos.
Uma voz urrada como as daquela outra (mesma) inquisição d'antanho.
O triunfo da mentira.
O triunfo dos porcos.
A gente (nós) abaixo de gente.
O já não podermos sequer gritar!

Ribeira de Pena, 18 de Julho de2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura supra é, obviamente, a do famoso "Grito" de Münch.]

sábado, 16 de julho de 2011

Coisa de dentro


Veio na "Visão" (edição de 14-07-2011). Alguém declarou o seu amor, nos muros de uma Escola de Salvatera de Magos, a tinta e paixão:
"Amo-te internamente Margarida."

Provavelmente sem querer (ou, se calhar, muito querendo), o sujeito de enunciação disse algo de fundamental e definitivo sobre o amor: que se trata de coisa interna. Coisa invisível para quem não veja as coisas com o coração (como explicou Exupéry). Coisa inexplicável para quem não, por si próprio, a experimente (como disse Camões). Coisa sem sentido para quem esteja de fora daqueles muros, daquela tinta, daquela pureza ortográfica (como, agora, vos digo eu).
Glosando Espanca, amar ou "Ser Poeta" ...

É ter fome, é ter sede de infinito
Por elmo as manhãs de oiro e de cetim
É condensar o mundo num só grito

E é amar-te assim internamente...
Etc. etc.

Ribeira de Pena, 16-07-2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.estado.com.br.]

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Míngua lunar


A lua que ali vejo é só metade
Da lua inteira que já vi nascer.
Assim sucede com toda a Verdade:
Somos sempre aquém de a conhecer
E há muito, muito mais realidade
Que esta que julgamos perceber.

Coimbra, 13 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.flordcerejeira.blogspot.com.]

Varanda coimbrinha


Da esplanada exterior do Fórum, um borrão de céu interrompe o dia funcionário que (me) estava sendo. O Mondego espreguiçando-se. Algum sol ainda contra as sete e meia da noite. As casas roçando umas nas outras, naquela inclinação que a torre, sobranceira, mal vigia. Carrinhos como de brincar percorrendo, pachorrentos, a ponte muito santa e muito clara. Um casal de namorados, a dois metros da minha escrita, em hormonal idílio, inaugurando uma coisa seminal qualquer (versos, espermatozóides, sonhos, famílias, ressentimentos, silêncios, música, dádivas, dívidas).
Coimbra, pois. Sou aqui.

Coimbra, 13 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.panoramio.com.]

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Apocalypse Now


Um homem sai da reunião com colegas "relatores" (responsáveis pela avaliação de outros colegas) com um aperto no estômago. Saem todos com o mesmo ar preocupado, resignado, triste.
Tem-se hoje a certeza absoluta de que a avaliação de desempenho (esta avaliação de desempenho) é um monstro. De que maldades, injustiças, incongruências, absurdas loucuras e porcaria em geral saem, fétidas, de muitas horas e quilómetros de burocracia. De que, curvados pela necessidade de pagarmos a mercearia do nosso quotidiano, somos involuntários cúmplices do Horror.
Parabéns a Sócrates, a Maria de Lurdes Rodrigues, a Valter Lemos, a Isabel Alçada, etc. que assim conseguiram ferir de morte (e, creio eu, para sempre) uma profissão nobre e limpa! (Pergunto-me se o modelo de avaliação - este ou o anterior - não terá sido fabricado, em fim-de-semana divertido, por professores e alunos compinchas da Universidade Independente...)
Demito-me de mim, acho eu.
Professor? Sei lá.
Ainda aqui ando (pelas razões, supra-ditas, da mercearia pessoal). Essa é que é essa.
Mas não estou verdadeiramente cá, senhores. Sou um fantasma. Tenho nojo do que somos. Daquilo em que nos tornámos.

Ribeira de Pena, 11 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (do filme Appocalypse Now, de Coppola) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cinemacomlucy.blogspot.com]

sábado, 9 de julho de 2011

Oração com dimensão não exclusivamente espiritual


Peço-te, Senhor, a Saúde, em primeiro;
Depois, o Amor e a Beleza.
E peço-te, ó Deus, também Dinheiro -
Que me cansa já tanta pobreza!

Vila Real, 09 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de W. Disney) foi colhida., com a devida vénia, em http://www.reformandosemdonheiro.blogspot.com.]