Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Bom Pasto, a Língua Portuguesa


É bom pasto a Língua Portuguesa
Colho nela sempre o alimento.
Se de mim foge, às vezes, a beleza,
Se me falta ou farta o sentimento,

Jamais falta a palavra que me diz -
O meu não ficar e não partir
O estar entre feliz e infeliz
O adjectivo certo a descobrir.

Coimbra, 27 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é a de um selo homenageando o Rei & Poeta D. Dinis, monarca que formalmente instituiu o Português como língua do Reino.]

Café Durée


Ao fundo da sala
O homem e o jornal.
Sobre a mesa
À frente do homem
A chávena e o cheiro
(entre parêntesis)
A café morto.

Já vi em outro tempo
O homem e o jornal
(outro homem? outro jornal?)
E já senti cheiros semelhantes
A esta ausência de café.

Quanto tempo mais ali estará
o homem e o jornal e o cheiro
Morrendo?

Outro café, por favor
(Ouço, digo).

Coimbra, 26 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na wikipédia.

Senhora entrando num táxi, à Estação Velha


Geométrico o sorriso singular
Da turista nunca mais apercebida –
Depois somente a rua irregular
E a regular ausência de outra vida.

Coimbra, 26 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.texasselvagem.blogspot.com]

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Acção, Cenas e Personagens na Narrativa Dinisiana: As Pupilas do Senhor Escritor



Entrei na mítica Sala dos Capelos às dez horas da manhã. "Medo cénico", eventualmente letal, como explicou um dia (reportando-se ao Estádio Santiago Bernabéu) o grande Jorge Valdano.
Além da MP, havia quatro colegas do Curso para assistirem ao acto. (Agradeci-lhes. Agradeço-lhes.)
Durante duas horas e quarenta e cinco minutos, expus, argumentei, ouvi, respondi. Suei muito. E saí - Deus seja louvado - "Doutor".
Missão comprida. Missão cumprida.
A minha mãe gabou-se do facto a três ou quatro vizinhas. Tirámos fotografias e lamentámos os mortos que já não estão aqui para se abraçar.
Devolvi o fato alugado às quatro e meia da tarde e marquei uma festa familiar para sábado.
Fui felicitado pela MP, pela VL, por irmãos, por amigos avulsos. O telemóvel trouxe-me a generosidade e a doçura de ausentes-presentes.
Dia lindo, como eu adivinhara há cerca de quatro anos.

Nota dissonante: morreu Maria Lúcia Lepecky, uma grande Professora que citei tantas vezes no enunciado. Dedico também a esta Senhora luminosa, em hora talvez já tardia, a minha tese sobre Júlio Dinis.

Coimbra, 25 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto de Maria Lúcia Lepecky foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pneliteratura.pt.]

sábado, 23 de julho de 2011

Maratona


Uma maratona é coisa mais de não desistir que de, simplesmente, ganhar.
Tenho para breve um encontro com uma parte linda do meu destino. O meu pai já não pode estar senão pelo coração. Assim o Mestre João. Assim o Botelho.
Haverá ainda a concretude respirando de minha mãe. E o oxigénio sine qua non da MP. E o da VL.
Abençoada a vida que ainda temos.
Vou de fato alugado. Os sapatos são do meu irmão e apertam-me um pouco.
Toda a gente que vale a pena estará comigo (incluindo mortos).
Até já.

Coimbra, 23 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 19 de julho de 2011

Por gritar


Uma pata sebenta sobre as nossas cabeças.
Um bicho nojento com aritmética porca.
Um olhar satânico com Excel na menina dos olhos.
Uma voz urrada como as daquela outra (mesma) inquisição d'antanho.
O triunfo da mentira.
O triunfo dos porcos.
A gente (nós) abaixo de gente.
O já não podermos sequer gritar!

Ribeira de Pena, 18 de Julho de2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura supra é, obviamente, a do famoso "Grito" de Münch.]

sábado, 16 de julho de 2011

Coisa de dentro


Veio na "Visão" (edição de 14-07-2011). Alguém declarou o seu amor, nos muros de uma Escola de Salvatera de Magos, a tinta e paixão:
"Amo-te internamente Margarida."

Provavelmente sem querer (ou, se calhar, muito querendo), o sujeito de enunciação disse algo de fundamental e definitivo sobre o amor: que se trata de coisa interna. Coisa invisível para quem não veja as coisas com o coração (como explicou Exupéry). Coisa inexplicável para quem não, por si próprio, a experimente (como disse Camões). Coisa sem sentido para quem esteja de fora daqueles muros, daquela tinta, daquela pureza ortográfica (como, agora, vos digo eu).
Glosando Espanca, amar ou "Ser Poeta" ...

É ter fome, é ter sede de infinito
Por elmo as manhãs de oiro e de cetim
É condensar o mundo num só grito

E é amar-te assim internamente...
Etc. etc.

Ribeira de Pena, 16-07-2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.estado.com.br.]

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Míngua lunar


A lua que ali vejo é só metade
Da lua inteira que já vi nascer.
Assim sucede com toda a Verdade:
Somos sempre aquém de a conhecer
E há muito, muito mais realidade
Que esta que julgamos perceber.

Coimbra, 13 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.flordcerejeira.blogspot.com.]

Varanda coimbrinha


Da esplanada exterior do Fórum, um borrão de céu interrompe o dia funcionário que (me) estava sendo. O Mondego espreguiçando-se. Algum sol ainda contra as sete e meia da noite. As casas roçando umas nas outras, naquela inclinação que a torre, sobranceira, mal vigia. Carrinhos como de brincar percorrendo, pachorrentos, a ponte muito santa e muito clara. Um casal de namorados, a dois metros da minha escrita, em hormonal idílio, inaugurando uma coisa seminal qualquer (versos, espermatozóides, sonhos, famílias, ressentimentos, silêncios, música, dádivas, dívidas).
Coimbra, pois. Sou aqui.

Coimbra, 13 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.panoramio.com.]

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Apocalypse Now


Um homem sai da reunião com colegas "relatores" (responsáveis pela avaliação de outros colegas) com um aperto no estômago. Saem todos com o mesmo ar preocupado, resignado, triste.
Tem-se hoje a certeza absoluta de que a avaliação de desempenho (esta avaliação de desempenho) é um monstro. De que maldades, injustiças, incongruências, absurdas loucuras e porcaria em geral saem, fétidas, de muitas horas e quilómetros de burocracia. De que, curvados pela necessidade de pagarmos a mercearia do nosso quotidiano, somos involuntários cúmplices do Horror.
Parabéns a Sócrates, a Maria de Lurdes Rodrigues, a Valter Lemos, a Isabel Alçada, etc. que assim conseguiram ferir de morte (e, creio eu, para sempre) uma profissão nobre e limpa! (Pergunto-me se o modelo de avaliação - este ou o anterior - não terá sido fabricado, em fim-de-semana divertido, por professores e alunos compinchas da Universidade Independente...)
Demito-me de mim, acho eu.
Professor? Sei lá.
Ainda aqui ando (pelas razões, supra-ditas, da mercearia pessoal). Essa é que é essa.
Mas não estou verdadeiramente cá, senhores. Sou um fantasma. Tenho nojo do que somos. Daquilo em que nos tornámos.

Ribeira de Pena, 11 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (do filme Appocalypse Now, de Coppola) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cinemacomlucy.blogspot.com]

sábado, 9 de julho de 2011

Oração com dimensão não exclusivamente espiritual


Peço-te, Senhor, a Saúde, em primeiro;
Depois, o Amor e a Beleza.
E peço-te, ó Deus, também Dinheiro -
Que me cansa já tanta pobreza!

Vila Real, 09 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de W. Disney) foi colhida., com a devida vénia, em http://www.reformandosemdonheiro.blogspot.com.]

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Notas sobre um texto (a)parecido


Havia, na rua da minha infância, um rapaz chamado Qualquer Coisa Matos. Dizia-se que tinha jeito para o desenho. O senhor Faustino do talho vira-o a pôr no papel o focinho de um cão e assegurava:
“Ficou mesmo aparecido!”

É claro que “aparecido” é, ali, corruptela de “parecido”. Aliás, pelo tempo fora, até hoje, ouço erros fonéticos iguais ou próximos.
Há minutos, no devir da leitura de um capítulo de Palomar (de Italo Calvino), lembrei-me do senhor Faustino. É que o escritor italiano reproduz tão certeiramente, ali, o ser humano que me apeteceu dizer-lhe:
“Ficou tão parecido, senhor Italo!”

Ou, para ser justo com a dimensão criadora do ofício literário:
“Ficou tão aparecido, senhor Calvino!”


Ribeira de Pena, 07 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

"Confiança precisa-se"


Li no jornal Público, no dia 05-07-2011, um sensato artigo sobre a questão dos famosos “mercados” e, na periferia gordurosa do fenómeno, da questão das (não menos famosas) “agências de rating”. [Este artigo, sublinho, antecipou-se ao “murro no estômago” de que, muito justamente, se queixou ontem o nosso primeiro-ministro.]
Declaradamente do lado do sistema financeiro, mas de forma desempoeirada e um pouco menos cínica do que é o neoliberal costume, os dois autores deste artigo (João Caetano, professor universitário; e Nicolás Lori, investigador universitário) sugerem a forma de se recuperar confiança – dos mercados em Portugal; e de Portugal no sistema (capitalista).
«Esta confiança só poderá surgir através das seguintes acções:
1. Que quem deve, poupe, para pagar mais depressa as suas dívidas.
2. Que quem emprestou dinheiro seja tolerante, para que não sufoque quem deve.
3. Que quem produz, venda mais barato, para dar mais emprego aos que trabalham e mais produtos a quem os procura.
4. Que quem compra, viva de forma discreta e honesta, proporcionalmente [sic] ao que produz.»

Enunciado de bom senso, parece-me. E o bom senso é, também no mundo da economia e das finanças, uma espécie de aragem de oxigénio: respira-se, por momentos, melhor.

Ribeira de Pena, 07 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http;//www.ficoindignado.wordpress.com]

terça-feira, 5 de julho de 2011

Da sombra


Falece o Sol assim suavemente
Submersa a luz em sono entardecido;
Na sombra sinto bem a graça ausente
O Nada que sucede a termos sido.

Ribeira de Pena, 05 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhioda, com a devida vénia, em http://www.parrque-de-lazer-de-bragadas.jpg.]

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Carreira do(c)ente


1. Vejo rostos fechados, gestos feros, bocejos desencantados, locução impaciente, alguma melancolia travestindo a resignação e vice-versa.

2. A temida-anuciada-fatal enxurrada burocrática fez-nos negaças no mês de Junho e desabou sobre o mês de Julho. Autómatos embrutecidos cumprem a sua tragédia funcionária: levantamento de faltas, seriação de acções e sessões de formação, preenchimento de grelhas grelhinhas grelhonas, cálculo (até às décimas) de classificações por domínios parâmetros itens, quotas (por universo específico) para Muito Bom, Excelente, Coisa Nenhuma, actas de reuniões preparatórias ou de monitorização do processo, legislação por decreto circular aditamento esclarecimento suspensão correcção, critérios de desempate, plataforma número de identificação palavra-passe, prazo para tomar conhecimento para reclamações para reapreciações para decisões, e-mails, telefonemas, recados, desespero desespero desespero desespero desespero desespero.

3. Para que é tudo isto (que é Nada)?

4. Converso com um colega, cúmplice do que profissionalmente (e pessoalmente) sou-quero ser. Coincidimos num conjunto de ideias tão singelas e luminosas como o dia lá fora: e se este mês de Julho – no todo ou em parte – fosse para tratar da mais preciosa matéria de todas – os alunos? E se os professores estivessem ocupados na recuperação de meninas e meninos com dificuldades de aproveitamento/progressão? E se os professores estivessem a ocupar-se (e aos nossos jovens) com projectos de música, teatro, literatura, desenho, escultura?

5. Ou, enfim, à falta de outra possibilidade interessante, se estivéssemos todos quietos sem gastar luz, papel, tinta e sangue em coisas estúpidas estúpidas estúpidas estúpidas estúpidas estúpidas estúpidas estúpidas estúpidas estúpidas estúpidas?

Ribeira de Pena, 04 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.economiaclara.wordpress.com]