Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

domingo, 3 de julho de 2011

A razão que gera


Na arrumação lenta de livros, discos, cartas, papéis vários, dou de caras com um postal de Natal de 2003. Trata-se de uma missiva artesanal, muito bonita em sua singeleza, que a minha cunhada Guida nos enviou. Desejava-nos simplesmente "Um Natal com muita alegria". Subscrevia também o texto a irmã, a muito querida Lina.
Dentro do postal, encontro um papelinho com um coração vermelho sobre um globo amarelo. À volta, noto ainda um círculo branco. Uma legenda explica a imagem: "Aliança do Amor para todos."
No verso do papelinho, há ainda duas mensagens manuscritas (uma perpendicular à outra). A primeira que leio é de cariz técnico: "Mensagem e desenho de João Ornelas. Impressão de Alberto." A segunda é o meu sogro, ainda com fôlego para andar pelo mundo, a falar-nos:
"Unidos para construir. Eis a razão que gera o Amor."

Na assinatura, leio ainda: "São os votos de Maria e João."
Para quem não está por dentro dos meandros da minha família madeirense, "Alberto" é um dos amadíssimos filhos do meu sogro. "Maria" é o nome da sua mulher. Em quatro linhas, este homem sentiu necessidade de incluir, à roda do seu nome verbalizado, outra gente para além de si, próxima de si. Ora, isto não é um acaso, asseguro-vos. Tem que ver com a sua inteireza. É coisa consubstancial à ética do amor.

"Unidos para construir", disse/diz o Mestre João.

Ribeira de Pena, 02 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

Para Sempre


Fim de semana a trabalhar com grelhas, legislação, apontamentos cheios de percentagens e de merdas para ponderar. Interrompo, por razões de sanidade física e mental, a burocracia kafkiana da avaliação do desempenho de docentes e volto à (re)leitura de um grande romance de Vergílio Ferreira, pouco celebrado embora, o Para Sempre (Lisboa, Bertrand Editora, 1996).
A Beleza reentra na minha vida, naturalmente. Falando da figura amada, sujeita como todos ao fascismo do envelhecimento, o narrador escreve (na página 46) a fidelidade da admiração essencial:
«[és] um ser plausível dentro da tua corrupção.»


E falando do mágico período da sua (como da nossa) meninice, escreve (na página 47):
«[...] liberdade, como a alegria, no exacto momento da infância, que é quando o mundo começa a existir e o dever não foi ainda inventado.»


E falando da pobreza do quotidiano humano quando despido da memória, dos sonhos, do Amor, escreve (na página 56):
«Que pulha a realidade.»


Voltarei, daqui a pouco, à corrupção implausível da minha vidinha funcionária. O monstro da avaliação docente permaneceu, para vergonha de quem nos prometeu que não. Trabalho sem liberdade nem alegria porque não tenho outro remédio. Que pulha, Vergílio, a realidade!

Ribeira de Pena, 03 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Presente teimoso


Estava numa roda de amigos e, como tantas vezes, pus-me a contar histórias sobre o meu pai, com o meu pai.
No final de cada episódio, no devir das gargalhadas ou dos acenos de espanto (ou dos olhares de admiração, ou dos gestos de incredulidade divertida), eu dizia:
“O meu pai é um prato!”
Ou:
“O meu pai tem muita pinta!”
Ou:
“O meu pai diz que não, mas eu conheço-o…”
O meu tempo verbal, senhores, teima em ser presente, embora o meu pai já cá não esteja, comigo, neste lugar da narrativa.
Ora, talvez o amor seja também isto: a luta (revolucionária) contra este fascismo que há na gramática da mortalidade.

Arco de Baúlhe, 01 de Julho de4 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://clubefotografia.blogspot.com.]

Esparsa sobre Ver


A semiótica dos olhares é uma arte antiga e especiosa. Expoentes dessa exegese não conheço melhores do que algumas mães muito amantes de seus filhos, alguns homens e algumas mulheres muito amantes uns dos outros, e – perdoai-me os que chafurdam apenas na prosa da vidinha - alguns poetas muito amantes da poesia.

Ribeira de Pena, 30 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.croissantauchocolattt.blogspot.com.]

Sobre o governo alegadamente novo


O novo governo, afinal, não mexe na avaliação dos professores.
O novo governo, afinal, resolve (ou finge que resolve) o problema das contas públicas indo ao bolso dos suspeitos do costume.
O novo governo é velho.

Ribeira de Pena, 30 de Junho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.aeiou.expresso.pt]

Morte mediática


Morreu um cantor-actor-modelo chamado Angélico Vieira. Era, como toda a raça humana, demasiado vivo e novo para morrer. Isso mesmo, exactamente isso, mas elevado à caricatura porque tinha menos de trinta anos e era admirado (tenho-o percebido, em rajadas de televisão, rádio, jornais, net) por muita gente.
Morreu, digamos assim, outra vez o Féher do Benfica. Ou o James Dean. Ou o Freddy Mercury.
É tão humanamente simples, tão humanamente triste e tão humanamente compreensível que as pessoas falem e se comovam com a morte de outros-afinal-como-nossos. A morte, assim, caricaturalmente explicada ao povo.

Ribeira de Pena, 30 de Junho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.amopintar.com]

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Sobre uma coisa chamada Viver


Viajar de comboio é talvez a imagem mais próxima que tenho da vida passando. Eu-passageiro avanço, à boleia férrea e imparável da locomotiva, mas vejo bem como, simultânea à conquista de metros-lugares-pessoas, vou perdendo pessoas-lugares-metros.
Viajo/vivo, portanto, ganhando e perdendo ao mesmo tempo. A viagem terá um fim, claro. Só então terminará a minha colecção de perdas; igualmente nesse momento, nada mais terei para ganhar.
Eis que os alunos do nono ano se despedem de nós, embarcando noutras etapas. Eis que colegas se esfumam nos destinos avulsos de cada um e nos deixam a sua falta em lugar das suas humanidades. Eis como a nossa existência lectiva se interrompe para, a prazo, novos rostos e vozes e passos se juntarem a rostos e vozes e passos que somos.
Avançamos, portanto, à boleia férrea e imparável do comboio da vida. Perdemos. Ganhamos. Perdemos.
Não há fim enquanto não for o fim. Pouca-terra, pouca-terra.

Arco de Baúlhe, 8 de Junho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto foi publicado, em primeira instância, no terceiro número deste ano lectivo do jornal "Arco-Íris" (Junho, 2011). A imagem (Estação Velha, Coimbra) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.agripinas.blog.com.]

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O Lobo Milagreiro


Um livro emprestado pela minha colega Filomena Ribeiro (que lecciona Língua Portuguesa, no segundo ciclo) entreteve-me as horas do feriado do Dia de Corpo de Deus. Com base num escrito de S. Francisco de Assis, um francês do século XX, Raymond Bruckberger, construiu uma bela história sobre o bem e o mal, a justiça e a perfídia, o egoísmo e certa solidariedade (não tenhamos medo do adjectivo...) cristã.
A novela intitula-se O Lobo Milagreiro (Ed. Lisboa Editora, 2007) e tem tradução para o Português do grande Jorge de Sena. Reitero, à boleia magnífica desta narrativa: os nossoa alunos aprendem a gostar de ler, lendo. A selecção de textos deve, no primeiro, no segundo e no terceiro ciclos (pelo menos, neste universo básico), ter em conta o interesse da intriga, a competência da narração, a clareza do enunciado – e ainda um fundo edificante que, a não existir, desperdiçará uma das dimensões fundamentais da leitura no contexto educativo.
Por isso me congratulo com o facto de, em meu tempo de menino, ter contado com professores que me deram a ler histórias com – não tenho vergonha disto !… - “moral”.
Eu sei, hoje, que a noção de “moral” artístico-literária não é, não deve ser desligável da própria escrita (de cada escrita) e, em muitos casos, se restringe ao universo único e específico de cada obra em particular que lemos/apreciamos.
Mas na “base”, como diria Eça, aprendem-se e consolidam-se aspectos básicos.
Não é mau que os jovens leitores se habituem a reconhecer na literatura um potencial edificante: Isto é, um esforço de, pela palavra, se perseguir a justiça. De se perseguir a verdade. De se perseguir o bem. De, enfim, se perseguir a Beleza (que é, como dizia o senhor Platão, isto tudo junto).

Vila Real, 23 de Junho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Espertolândia, essa terra sem dívida soberana


Um dos senhores funcionários da ERC (Entidade Reguladora da Comunicação), dr. Elísio de Oliveira, recebe todos os meses, do Estado português, um subsídio para pagamento da habitação. O subsídio ascende a 941,25 euros – novecentos e quarenta e um euros e vinte e cinco cêntimos (mensais, repito). Explicação: o senhor tem residência fiscal no Porto e o seu actual local de trabalho é Lisboa.
Justo? Vamos conceder que sim, não obstante haver professores, psicólogos, educadores e educadoras de infância, auxiliares de acção educativa, senhores e senhoras da limpeza, etc. que, sendo embora também funcionários do mesmo Estado, não recebem um cêntimo para subvencionar despesas de habitação, transporte, telefone, and so on
Mas este senhor em concreto, segundo diz o Correio da Manhã (edição de 22-06-2011), tem afinal casa em Lisboa! O juiz Pedro Mourão, do Tribunal Constitucional, não nega que, ainda assim, o subsídio recebido esteja “formalmente” justificado. Mas lá aduz que “é imoral”.
Sem se rir, o beneficiário desta mordomia discorda: a sua verdadeira casa fica no Porto; aquela em Lisboa não é a sua residência, trata-se simplesmente de um – atenção à palavra – “investimento”.
Devíamos tirar o chapéu a tanta franqueza e a tal rigor enunciatório. O Estado vai-lhe pagando a casa que ele comprou para si, não é?
Poderíamos, se nos faltasse a generosidade, chamar um roubo a esta situação? Poderíamos. Mas, se virmos bem, o senhor tem muita razão. Aquilo foi (e é) essencialmente um “investimento”. Um magnífico “investimento”!
No planeta Terra, reinam os espertos. Parece que no céu não é bem assim, mas isso ainda está por provar…

Vila Real, 23 de Junho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Discurso mínimo para quem fosse capaz de ouvir


Não confundas Amigo com Umbigo
Nem Rota com Rato
Nem Nata com Nada
Nem Ser com Ter
Nem Existir com Desistir!

Percebes?
(Já agora: não confundas Perceber com Obedecer!)

Ribeira de Pena, 22 de Junho com 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto que ilustra o texto é uma das imagens de Kipling (célebre autor do poema “If”) disponíveis na net.]

Fadiga d'homem


O maior cansaço nem é corporal
(Braços, pernas, respiração):
É o feito de fadiga racional,
De cívico desgaste, solidão –

A mim cansam-me os burros prepotentes
E as vozes ignorantes da tolice;
Que eu morro é de sofrer, impaciente,
A bruta brutidade da burrice.

Ribeira de Pena, 22 de Junho com 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (representando Sísifo e sua eterna pena) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.conhecimentoepisteme.blogspot.com.]

terça-feira, 21 de junho de 2011

Anedota ordinária (com Bocage, para disfarçar)


Era uma vez, outra vez, Bocage.
Noite sadina avançada, o poeta ama uma cantora estrangeira (talvez italiana, se considerarmos o facto de ela gemer com as vogais muito abertas) e compõe, mentalmente, certo soneto com vocação para escândalo.
Na sala ao lado, um amigo do escritor, religioso mais de ofício que de vocação, extermina garrafas de tinto e pedaços de frango, fingindo-se incomodado com o barulho dos amores vizinhos. Berra:
- Manuel Maria! Elmano! Afasta-te das mulheres que elas são o Mal!...
O pré-romântico responde-lhe lá de dentro, comovido pela violência (urrada, dramática) do êxtase da fêmea:
- Deixá-lo, padre inquisidor. Há males que se vêm por bem!

Ribeira de Pena, 20 de Junho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Já são cinco horas?







Alunos do 7.º ano do Arco vieram a Ribeira de Pena, ontem, para um roteiro camiliano. Camilo Castelo Branco, em boa verdade, é para alunos tão novos sobretudo um pretexto para a aventura de um dia diferente. Algo ficará, acredito, da figura do grande escritor, da sua obra, das suas palavras e histórias com Minho e Trás-os-Montes dentro. Mas o fundamental é o convívio, o sorvedouro de novidades, os gritos, as gargalhadas, a juventude explodindo como flores em primavera incessante e doida.
Para os professores (e decerto para os esforçados guias) é cansativa esta lida com tanta e avulsa energia! É preciso gritar que tenham cuidado com a estrada, com as alturas, com as correrias, com as brincadeiras perigosas...
Quando, pelas dezassete horas, a jornada terminava, eu senti - confesso - o antecipado alívio do regresso à plácida condição de adulto quietinho da silva.
Mas aconteceu isto: à entrada para a camioneta que o levaria de volta à terra natal, um menino chamado Artur (que não é meu aluno) lamentou-se com um sorriso triste e travesso:
- Já são cinco da tarde? Quem me dera que ainda agora o dia estivesse a começar...
Ora, isto faz-nos crescer a alma - não é, Senhorinha? Não é, Rosário? Não é, Odete? Não é, Telmo? Não é, Beatriz? Não é, Luísa? Não é, Daniel? Não é, Emanuel?
E, claro, com a alma assim, tão longe de ser pequena, vale tudo a pena. Tudo!
(Não é, senhor Fernando Pessoa?)

Ribeira de Pena, 17 de Junho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

Astronomia do Passado Perdido


Um americano, de barba e óculos enormes, a falar de mistérios do universo: parece que aquilo dos buracos negros tem a ver com a ideia de anti-matéria...
O meu problema com o tempo passado está decerto ligado a este fenómeno astronómico: tudo me vai morrendo. Um buraco negro reduz a pó a matéria que eu era (e o meu pai, e o José Manuel, e o Mestre João, e o Francisco Botelho, e a Tia Rosário...).
Saudades? Talvez as saudades sejam feitas de anti-matéria.
Eu lembro-me tanto de tantas perdas e cabe tudo num buraco negro...
E atenção: não sei se estou a falar de amor ou morte, caros amigos!

Ribeira de Pena, 17 de Junho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.evanog.com.]

terça-feira, 14 de junho de 2011

Oitava aparentemente ingénua


Durante horas deste lindo dia
Sou imortal de novo, até morrer
A luz que me empresta a Alegria
De por certas horas não haver
A morte, essa eterna negação
De eu gozar na vida o estar-vivendo
(E escrevo mesmo como quem à mão
O sol defende, em mim, de ir morrendo.)

Ribeira de Pena, 14 de Junho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura ("Primavera") é de Pierre-Auguste Renoir.]