Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Morte (parcial) do Sol


À entrada do prédio, junto à roda dianteira de um utilitário japonês, jaz uma borboleta muito linda.
É (era) uma beleza muito magra, esta, revestida de uma cor rara que não sei dizer senão como uma viagem delicada entre o branco e o amarelo. Vista de cima (e vista de depois), parece-me um bocadinho de sol sepulto.
É essa luz devinda morta que carrego no pensamento, enquanto subo as escadas. Tenho fome, há uns deliciosos restos de massa do dia anterior à minha espera, mas urgentemente anoto, no verso da factura da luz, este instantâneo triste do meu dia.
E escrevo-o/inscrevo-o aqui, só para me lembrar mais claramente de uma coisa, não sei bem o quê, que ali perdi.

Ribeira de Pena, 04 de Maio de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vhrportal.geek.vault.org.]

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Cervantes e a certa Dulcineia


O que salvou Dulcineia de ser uma mera mulher do campo (suada, indiscreta, bruta) foi a distância generosa a que Dom Quixote a apreciou. Houvesse o último cavaleiro da península ousado aproximar-se e, em lugar do mavioso canto que julgou ouvir, escutaria as mais vernáculas imprecações; em lugar da perfeição grácil de curvas angélicas, teria reparado nas regueifas adiposas daquele traseiro camponês.
O ideal existe melhor visto de longe.

Arco de Baúlhe, 02 de Maio de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a debvida vénia, em http:www.4rt4.blogspot.com.]

domingo, 1 de maio de 2011

Gotta Keep Reading


Um querido colega chamou-me a atenção para um vídeo que corre, por estes dias, no Youtube. Trata-se de um espectáculo de música, dança e expressão dramática levada a cabo por alunos e professores da Ocoee Middle School, Florida, que celebra, de modo divertido, o prazer de ler. O sucesso desta iniciativa pode medir-se, em parâmetros americanos, pela visibilidade mediática já obtida, nomeadamente a que resultou da divulgação no programa “Oprah”.
Em concreto, o tal espectáculo resume-se à adaptação do tema “I gotta feelin’” dos Black Eyed Peas. Naquela escola da Florida, o título deveio “Gotta keeep reading” (‘Cause this book gonna be a good book”, etc.). As imagens mostram-nos um grande concerto ao vivo, com a música contagiando a multidão e com esta, em clima de festa, a mover ancas, braços, pernas, cabeças, entoando o refrão - e, como por feitiço, sacando de livros para uma leitura (digamos assim) irreprimível.
[Parênteses: a música dos Black Eyed Peas foi (lembram-se?) o hino escolhido por Carlos Queirós, esse conhecido e abastado teórico do futebol, para a campanha portuguesa no Mundial de Futebol de África do Sul. Só isto já era suficiente para eu duvidar da bondade da coisa…]

Não estou contra o uso da imaginação e do contributo (cúmplice) de artes performativas no sentido de promover a leitura. Defendo até, de forma “leninista”, o uso de todas as diplomacias para benefício de uma causa que consideremos nobre. Mas faz-me impressão esta ideia, muito em voga na cultura e na educação hodiernas, de se medir o interesse e o sucesso de iniciativas pela quantidade dos intervenientes, pela exuberância “espectacular” do enunciado, pelo eco mediático que se obtenha.
Em termos sucintos, arrepia-me a fatalidade de a aparência prevalecer sobre a essência.
Ora, no caso da promoção e culto da leitura, quem verdadeiramente gosta de livros (e de jornais ou de revistas) sabe bem que a leitura se trata, em regra, de um exercício solitário, discreto, feito no recato possível de um quarto, de uma sala, de um banco de jardim, de uma nesga de praia, de alguns centímetros de assento rodoviário ou ferroviário, de um qualquer território escatológico-sanitário, etc.
As grandes iniciativas como as da Ocoee Middle School (como outras lusitanas vaidades, que vivem para a estatística e para as fátuas evidências parolo-mediáticas), ainda que nos agradem como experiências originais ou como performances inócuo-engraçadas, são muito menos amigas do livro e da leitura do que certas Eminências Pardas imaginam.
O gosto da leitura promove-se com exemplos simples, diários, persistentes (em casa, na Escola, na sociedade). Aprende-se a gostar de ler, lendo – e não gritando aos quatro ventos que “Ler é importante”, ou que “Ler é fixe” (versão cenoura), ou, ainda menos, que “Ler é obrigatório” (versão chicote).

PS - Já agora: Torci sempre (e teimosamente torço) o nariz à transformação das bibliotecas em “Centro de Recursos”. E creio, aliás que os verdadeiros amantes dos livros e da leitura não gostaram dessa, digamos assim, "evolução".

Ribeira de Pena, 01 de Maio de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.savevid.com.]

sábado, 30 de abril de 2011

Livro havido, livro a haver


Cumpre-se, hoje,dia 30 de Abril de 2011, uma etapa mais da minha biografia pessoal e literária. Um livro sai para as mãos de gente como eu e, quando (e se) se der o milagre do encontro que a leitura é, as minhas palavras escritas acrescentar-se-ão à linguagem de cada leitor e à particularidade de cada leitura. Não só, porém: também ao que eu entrevi-sugeri-enunciei se hão-de somar a visão, a inteligência e a sensibilidade de diversas pessoas (elas próprias diversíssimas).
Um livro tem o sentido que o autor sonhou para a criação, mais os sentidos que cada viajante leitor lhe descobrir-oferecer.
O livro, enfim, faz-se do que li (em outros livros e na minha vida) e do que alguns magníficos outros emprestarem, de si próprios, ao texto.
Leitores, Amigos: ajudai-me a fazer este livro!

Ribeira de Pena, 30 de Abrio de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.desertosedeserificacao.blogspot.com.]

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Serenidade


Uma brisa morna percorre a tarde-noite. O planeta, sentido daqui, é um lugar de amável serenidade. Há ainda, nesta hora do ocaso diurno, a lembrança boa de um dia bom.
Pergunta: Então como vamos?
Resposta: Menos mal. Bem. Vivos.

Ribeira de Pena, 28 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura (de Degas) foi colhida, com a devida vénie, em http:://www.um-buraco-na-sombra.netsigma.pt.]

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Um Barco Chamado Sophia Loren


No próximo dia 30 de Abril, se fosse vivo, o meu pai completaria 73 anos.
No próximo dia 30 de Abril, a Biblioteca Municipal de Ribeira de Pena comemora o seu primeiro aniversário e lança, na ocasião, um livrinho meu intitulado Um Barco Chamado Sophia Loren. O livro será apresentado pelo meu Amigo Daniel Abrunheiro, Jornalista e (grande) Escritor.
Fica aqui o convite a quem tiver tempo e paciência para tal: a cerimónia começa às 15h30m, com a representação de uma peça por alunos ribeirapenenses (texto e encenação da minha responsabilidade). No final, a Câmara Municipal oferece um "Verde de Honra".
Aguardo, com grata ansiedade, esse dia provavelmente formoso.
O meu Pai faz 73 anos e vai, creio bem, lá estar.

Arco de Baúlhe, 28 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

Mia Couto, Tradutor de Chuvas


Não sou um grande entusiasta da literatura de Mia Couto, mas reconheço-lhe – sem remédio - uma invulgar habilidade no manuseamento plástico da língua.
Uma amiga emprestou-me, por uma manhã, um livro de poemas deste biólogo moçambicano, com um belo título: Tradutor de Chuvas(Lisboa, Ed. Caminho, 2011.)
Respigo, do interessante voluminho, alguns versos dignos de nota:
Na página 9, do poema “Saudade”: “Que saudade / tenho de Deus.” (Ecoa aqui um poema de Ana Luísa Amaral – “Nostalgia – / Saudade de Deus.”)
Na página 12, do poema “Clandestino”: “Não era o amor / que eu procurava. Buscava o amar.” (Ecoam aqui uns versos de Pessoa: “Amo como o amor ama. / Não tenho motivo para amar-te mais que amar.”)
Na página 19, do poema “Falas de Uns”: “O homem faz amor / Para se sentir bem. // A mulher faz amor / Quando se sente bem.”
Na página 44, do poema “Pecado muito pouco original”: “Não foi despudor. / A mulher se vestiu, sim, para ser eterna.”
Na página 48, do poema “Flores”: “[…] só a semente / oferece flores.”
Na página 65, do poema “Sazonais Eternidades”: “A saudade / é o que ficou / do que nunca fomos.”
Na página 71, do poema “Sementeira”: “O poeta / faz agricultura às avessas: / numa única semente / planta a terra inteira. // […] Afinal, / não era a palavra que lhe faltava. // Era a vida que ele, nele, desconhecia.”
Na página 80, do poema “Medos”: “Medo do amor / quando tudo é fome. // […] E morrermos / de tanta eternidade.”
Na página 93, do poema “Declaração de Bens”: “Uma única certeza / demora em mim: / o que em nós já foi menino / não envelhecerá nunca.”
Na página 99, do poema “O Homem sem Janela”: “[…] Sou o homem sem janela: / o mundo está sempre do lado de cá. // […] É então que chegas, / e eu, enfim, regresso / para dentro de minhas paredes. // Só então tenho janela.”
Na página 101, do poema “Mudança de Idade”: “Agora sei: / apenas o amor nos rouba do tempo.” (Ecoam aqui uns versos de Eugénio de Andrade: “Abracemo-nos, amor, / contra a morte.”)

[Nota: Os ecos poéticos que evoco no texto são citações feitas de cor.]

Arco de Baúlhe, 28 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.abarca.com.]

Sonos, sonhos


“[…]pois / ver não é habitar / o espanto de as coisas serem?”
(José Tolentino Mendonça, “”Dos olhos de Rubliev”, in A Noite Abre os Meus Olhos, 2010.)



Os meus sonos andam há muito tempo em fuso diferente das horas solares.
Com os meus sonhos não é assim. Tudo quanto na vida admiro, desejo, me (en)leva, garanto-vos, tem o fogo e o brilho do astro-rei.
Os meus sonos são doidos. Os meus sonhos também. Mas estes distinguem-se daqueles por acreditarem na melhor luz do mundo.

Ribeira de Pena, 27 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (da Praia de Mira, esse pedaço de geografia mítica) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.flickr.com.]

terça-feira, 26 de abril de 2011

Cesário, Deus, o Minho


1.
Vale sempre a pena voltar a Cesário Verde. Nunca como na sua poesia se torna tão nítida a distinção entre olhar e ver. A escrita, pelos versos do tal poeta que anda pela cidade a obsevar-sentir-avaliar os dias humanos, funda-se numa visão simultaneamente física e estética.
O poeta vive, vendo o que vive.
Vê, vivendo o que vê.
Como todos os que são dignos da condição de (grandes) poetas, Cesário vivê.

2.
Numa reportagem televisiva, ao mesmo tempo que mostra a sua casa degradada, a humidade e o bolor tão visíveis, a falta de recursos económicos, a velhinha com sotaque do norte dirige-se directamente ao jornalista:
“É como o senhor vê…”
Às vezes, apetecia-me que Deus fosse Ele próprio um jornalista por aqui em reportagem, querendo indagar, junto de mim, o que se passa. Eu havia de lhe falar nos grandes partidos e suas clientelas que se servem do país para satisfação dos umbigos egoístas; das conquistas de Abril que, às mãos de politiqueiros de pacotilha, se vão perdendo, embrulhadas em retórica neoliberal e cínica; da obediência dos Estados aos pançudos da finança internacional; da degradação da confiança nos governantes; da corrupção; da brutalidade de um sistema que permite todas as mordomias a uns poucos - e todos os sacrifícios à maioria. E talvez rematasse a minha exposição, dirigindo-me directamente ao Divino Repórter:
“É como o Senhor vê…”

3.
O Minho, por alturas de Abril, é uma fulgurante paleta de cores e formas. Penso, no durante do regresso rodoviário a Ribeira de Pena, que bastaria um pouco de vento para esta paisagem se animar como um bailado russo.
E o vento (aliás, brisa) vem mesmo, roçando-se pelas casas, pelos automóveis, por gentes e montes. Durante uns dez minutos, árvores, flores e pássaros, dançando nos ares, acrescentam uma espécie de coreografia olímpica que mais nenhum espectáculo no mundo poderia, às quatro da tarde desta terça-feira, oferecer-me.

Ribeira de Pena, 26 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.arcodebaulhe.olx.pt]

Não parar (para) não morrer


Faço-me ao instante como ao mar -
Entro no barco e sei da sorte
Do vivo navegante, se voltar:
O cais (mas já não este) em vez da morte.

Coimbra, 25 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.imotion.com.br.]

segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 de Abril de 2011


Eu tenho em cassete áudio (dessas que parecem, aos hodiernos adolescentes, material pré-histórico) uma gravação do álbum “FMI”, do José Mário Branco.
Reouvi a peça há pouco tempo. Ingenuamente me parecera, aí por 1995, um documento datado. Mas não.
Quando olhamos para a obesidade do regime, 37 anos depois de 1974; para as obscenas diferenças entre ricos e pobres; para a corrupção impune dos poderosos; para o cinismo e a hipocrisia das panças que nos governam – não podemos senão gritar, como o bardo louco de “FMI”: Ó Mãe! Ó Mãe! Ó Mãe!
---------------------------------------------------------------------------------
PS: Houve esse pormenor de se ter conquistado a liberdade; e o de se ter alargado a educação e a saúde a todos; e o de se ter acabado com a guerra colonial; e o de se ter acabado com a PIDE. De modo que, apesar de tudo, 25 de Abril - sempre!

Coimbra, 25 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 24 de abril de 2011

Notas urbano-bucólicas


Um milagre qualquer da sazonalidade cobriu de prata as folhas de choupos antigos. É assim que, pelas quatro horas e vinte e cinco minutos desta tarde morna, a tanta vegetação erguida tremeluz à minha passagem. Compro dois sacos de pão na pastelaria de S. Miguel (um para levar à minha mãe; outro para minha casa) e, com vagares de rei, apodero-me de tudo quanto à minha volta existe. O presente, digamos assim, presenteia-me de si.
Sou de momento tão feliz quanto um saco de perdas pode, enquanto ainda vivo, ser.
A minha mãe está a ver a RTP Memória quando a visito. É aquele, desde há uns dois anos, o seu canal preferido. Percebo-a bem. Eu próprio gosto de ali residir por um ou dois episódios de Alf ou Cheers, por exemplo.
Dezassete horas, brilha ainda a tarde. Enquanto corro, ali pelas imediações do hipódromo, aborrece-me pensar que estou quase de partida.
Vou deixar, uma vez mais, Coimbra minha. Mas Coimbra não me deixa nunca. Nunca.

Coimbra, 24 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.geocaching.com.]

sábado, 23 de abril de 2011

Arte de interpretar um rio


O Mondego é uma parte
Da habitual paisagem.
Corre o rio e a viagem
É um destino que a arte
D’ interpretar a imagem
(Como todo ou como parte)
Percebe como passagem
De Agora para o Porvir:
Tu és nós, Mondego, a ir.

Coimbra, 23 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.chica.ilheu.blogs.sapo.pt.]

Uivo em carris


Pela ponte do Açude um (ainda) quarentão corre contra a morte. Uma patine cinzenta embrulha a tarde, avulsos automóveis interrompem o feriado, o rio corre como se nunca tivesse feito outra vida.
Depois, até ao túnel antiquíssimo da Estação Velha, a corrida é uma solidão ainda maior. Não há senão o homem trotando em contramão e a chuva hesitante desta Primavera crítica. Entretanto, um cheiro pestilento anuncia a visão terrível, quase na cortada do Choupal, de um cadáver canino apodrecendo sobre a erva da berma.
Um uivo de comboio sobrepassa este encontro.
O homem corre sempre, sempre. Não já o cão lá atrás.

Coimbra, 23 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cnpgb.inag.pt.]

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Coimbra ao centro


Coimbra é, ao entardecer, uma espécie de aguarela e a gente faz parte da beleza inteira do que vê.
Três dias chegaram para regressar à minha condição de ser daqui.
De estrangeiro, agora, apenas mantenho o estranhamento olhador e a pureza (inventada) de um encontro primeiro.
Amo a minha cidade, apesar da esclerose industrial que nela grassa; apesar da doutorice que mentes gordas por aqui ostentam ou procuram; apesar da canalhice paroquial que cheira pior se vista de perto.
A ideia de sair de Coimbra, ainda uma vez, é o meu drama de emigrante contrariado.
Para onde vou, sei bem, não é o meu lugar.
Sobrevivo só por acreditar que, no estrangeiro para onde vou, há também gente, lugares, nuvens de cumplicidade que me devolverão, por momentos mágicos, à minha Coimbra essencial.

Coimbra, 23 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.crisita.blogspot.com.]