Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Verso com Brilho


Como dizer da coisa bela o brilho visto?
Como pôr em verso esse brilhar?
Não sei dizer de si melhor que isto:
Uma luz beijando levemente o mar.

Coimbra, 20 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.anitta baroc.blogsapo.pt.]

terça-feira, 19 de abril de 2011

Rua de Mim


Os lugares da felicidade são raros e breves.
Voltar a um destes lugares é muito raro, senão impossível. Quando os procuramos, o que encontramos é quase sempre pó, cimento ou ruínas: a rua da minha infância, por exemplo.

Coimbra, 19 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://i57.photobucket.com.]

Desmesura


A desmesura da Beleza mede-se por ausências: palavras que faltam, territórios do pensar e do sentir não ditos à míngua de como dizê-los. A Beleza sobra sempre às tentativas de a fazer palavra. Há sempre em si um lado que nunca acaba nunca acaba nunca acaba.

Coimbra, 19 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto (de - adivinhai! - Gwyneth Paltrow) foi colhida, com a devida vénia, em http://evilbeetgossip.com]

Crise


Quase em surdina, a moça daquela repartição pública garantia ao colega do guichê da direita:
- Já vi… Menos cinquenta Euros…
Ele (o colega) atende-me, com mal disfarçado nervosismo. Resmunga quase imperceptivelmente:
- Estás a brincar…
Ela suspira, carregando entretanto (em retirada) uma caixa para o arquivo.
- Antes estivesse, pá…
Ele dá-me um documento a assinar e pensa (ouço-o muito bem na minha cabeça, leio muito bem o seu sobrolho carregado):
- Filhos da puta! Ladrões!

Coimbra, 19 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://4.bp.blogspot.com.]

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A Ideia de Reconhecimento


Já Steiner chamara a atenção para essa palavra tão mal percebida no ruído do mundo: reconhecimento. É uma palavra plurissignificativa, e em todos os sentidos que pode ter, atentai, há profundidade e humanidade. Recordo, por razões de clareza expositiva, virtualidades semânticas deste vocábulo tão formoso:
a) pode significar "gratidão";
b) pode significar "conhecer de novo";
c) pode significar a identificação, no presente, de algo ou alguém que já conhecemos (conhecíamos) no passado.
Em termos de literatura, a palavra reconhecimento compreende muitas e preciosas dimrensões.
George Steiner defende (salvo erro, em Presenças Reais, ou em entrevista a Ramin Jhanbegloo) que decorar textos nunca é tempo perdido. Mesmo no caso de uma criança. Quem aprenda um poema de cor sem alcançar o seu sentido profundo, terá de qualquer modo uma magnífica experiência - o contacto com o ritmo, a melodia, a música do enunciado. E um dia, talvez, reconhecerá o valor (de sentido, sentidos) do que um dia aprendeu de cor. A vida, digamos assim, ensiná-la-á até a entender aquele poema que, fisicamente, já fazia parte de si.
Reencontrei esta ideia de reconhecimento em Hermann Hesse. O narrador de O Jogo das Contas de Vidro conta uma experiência da personagem Knecht, que envolve:
a) a ideia convencional da Primavera (estação do ano que sucede ao Inverno e antecede o Verão);
b) uma composição de Schubert ("Die Linden Lüfte sind erwacht") sobre esta transformação sazonal, vista de um ponto de vista espiritual e estético;
c) a percepção individual e física de Knecht do fenómeno (através da visão, do olfacto, do tacto, da audição).
Subitamente, a personagem do romance de Hesse compreende o inteiro alcance da música de Schubert - e reconhece, de modo cósmico e sublime, o sentido inteiro desta metamorfose regeneradora que em Fevereiro ou Março exprimentou in vivo.
[Curiosamente, o narrador defende a intransmissibilidade desta experiência; sustenta, em alternativa, a possibilidade de a comunicar. Estes dois conceitos - transmitir, comunicar - reúnem-se, em minha opinião, no exercício estético da leitura/interpretação.]

Os gregos inventaram, também, uma bela palavra que, muito a montante deste meu rio retórico, compreendia já a essência (literária e outra) de reconhecimento: reminiscência. Em termos brutalmente sucintos, reminiscência representa esta ideia de, um dia, no passado anterior à nossa existência, termos estado em contacto com a Beleza, a Verdade, a Pureza. Mais tarde, ocorrem episódios na nossa vida real em que, por instantes, ascendemos a patamares de plenitude. Vibram então, em nós, cordas familiares. Uma espécie de música, digamos assim, preenche esses momentos elevados. E nós reconhecemo-la, reconhecidos.

Coimbra, 18 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 17 de abril de 2011

Há muito, muito tempo


1. Sábado, dia 16 de Abril, onze da manhã. Estaciono junto ao Campo da Arregaça, do Clube de Futebol União de Coimbra. Vou ver o jogo União - Pedrulhense. Adepto, desde criança, do União, estou hoje do lado dos da Pedrulha, porque é nesta equipa que milita o António, meu sobrinho e (bom) médio ofensivo. De qualquer modo, um espectador avulso diz que o clube da Arregaça está a morrer
2. Sob a luz inclemente do sol, semicerro olhar e atenção ao jogo: subitamente, o ano é 1977, sou o número nove do União de Coimbra e estou a jogar contra o Ançã Futebol Clube. Ganhamos nove a zero e o quarto golo é meu. Junto à baliza, o meu pai e o meu tio Toni lacrimejam, orgulhosos. O campo, ao contrário do que constato no presente, estava quase cheio.
3. No dia 15 de Abril, levantei em Coimbra o meu primeiro “cartão de cidadão”. No momento de receber o novo documento, o meu velho bilhete de identidade (que tinha uma foto de mim mais novinho) cruzou-se, sobre o balcão, com o novo (que tem uma foto de mim mais velho). Vi, com piedade, o modo arrogante como o primeiro olhava para o segundo.
4. O crescimento da cidade parece que, a todo o momento, engolirá este campinho da Arregaça onde passei tantas horas de felicidade (quase nunca consciente da irrepetibilidade do que estava vivendo). O meu sobrinho jogou bem, mas foi goleado. Enquanto eu cumprimentava o António, quatro adeptos do União de Coimbra, do outro lado da bancada, aplaudiram os vencedores. Um espectador avulso diz que o clube da Arregaça está a morrer.
5. Mas não é só o clube da Arregaça.

Coimbra, 17 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto de 1979 ou 1980: eu capitão dos juniores do Clube de Futebol União de Coimbra.]

sábado, 16 de abril de 2011

Sobre olhar


Se te olho, não te olho, antes navego
No mar que me pareces, se te olhar.
Sou por ti incerto barco e sigo, cego
Da luz tão excessiva que há no mar.

Coimbra, 16 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[O esboço deste poeminha data de 2006. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ignorancia.blogspot.com.]

Anedota com sapatos


Centro comercial, um casal sessentão, fim de tarde.
Ela lamenta-se:
- Vi algumas mulheres com sapatos como eu queria...
Ele (um brilho filho-da-mãe nos olhos):
- Eu também.
Ela (desconfiada):
- Tu também?
Ele (o filho-da-mãe do brilho nos olhos de lobo reformado):
- Pois. Vi algumas mulheres como eu queria.
Ela (indignadíssima):
- Como tu querias?
Ele (filho-da-mãe):
- Com sapatos, filha. Com sapatos.

Coimbra, 16 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.efacec.pt.]

Lua precoce


Cedo da minha janela
Vejo já a lua bela
(‘Inda não são seis da tarde) -
Fugiu de casa a donzela?
Não tem mãe que cuide dela?
Não tem um pai que a guarde?


Vila Real, 14 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.laleonarde.blogspot.com.]

Narrativa com busto e filosofia


Certo sábio consagrado
De grandes escritos e feitos
Vivia obcecado
Por mulheres de grandes peitos.

Em Capodécia, morava
A doce Núria que a custo
Todo o dia carregava
Um apetitoso busto.

Bela Núria desprezava
A beleza masculina:
Dizia que só casava
Com homem de mente fina.

Esta mamuda imponente
(A maior de Capodécia)
Quis homem inteligente
E lá foi casar à Grécia.

Não era belo o esposo
E houve quem lamentasse
Que homem tão horroroso
Com esta mulher casasse.

Mas o filósofo ria…
(Homem mais feio dos feios)
Do casamento dizia:
“Eu só sei que nado em seios!”

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Céu de poeta


Uma estrelinha atravessa o céu, escondendo-se como pode dos olhares e das vozes vizinhas.
Mil outras estrelas são ali exclamações de luz e de festa.
A estrelinha foge do ruído, porque há nela aquele sufixo de timidez e de fragilidade. Procura, diligente e silenciosa, um canto esconso na periferia do firmamento.
Mas à sua volta é a noite, que é o contrário de si.
Vive, logo, brilha. Logo, é percebida.
De estrelinhas assim se faz o céu de um poeta com medo do escuro.

Ribeira de Pena, 14 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http:www.echacara.bolg.uol.com.]

Escrever mais do que eu


Escrevo o que eu sinto, mas na escrita
Há a filosofia pessoal
De um eu que por si passa de visita
E vê em si um eu universal.

Ribeira de Pena, 14 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.1.bp.blogspot.com.]

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Os Famosos Mercados


(Com um abraço para o Paulo Pinto, meu estimado colega e cúmplice desta graça trágica na Sala de Professores da nossa Escola!)


Mercado Municipal Engenheiro Silva - Figueira da Foz. Asdrubalina Assunção, vendedora de fruta e legumes:
«Tanto o governo como a oposição, meu senhor!... Tanto desconfio de uns como de outros!»

Mercado Municipal D. Pedro V – Coimbra. Maria da Paixão, peixeira:
«O Sócras é um troca-tintas. O Coelho não sabe o que quer. Estamos lixados e bem lixados…»

Mercado do Bolhão - Porto. Rufino Santos, ardina e sócio de uma banca de fruta:
«Já não voto há umas três eleições… São todos iguais, pá!»

Mercado da Ribeira, Lisboa. Gabriela Fontes, estudante de Enfermagem:
«Só há emprego para os amigos deles… Não tenho nenhuma confiança nos políticos, acredita?»

Comentário:
Confirma-se o que, quase todos os dias, os jornalistas e opinion makers da nossa praça vêm dizendo - há hoje uma indiscutível desconfiança dos Mercados…

Ribeira de Pena, 13 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (Mercado do Bolhão) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.jpn.icicom.up.pt.]

terça-feira, 12 de abril de 2011

3 Quadras com Beleza pelo meio


De pouco se faz a beleza
De quase nada o encanto
Mas dói tanto a chama acesa
A chama acesa dói tanto.

Tão pouco é o que seduz
Tão suave é esta calma
Mas queima tanto esta luz
Acesa na minha alma.

Morre o sol em fim de tarde
E o meu olhar de veludo
Não bem de tristeza arde
Mas da dor de sentir tudo.

Ribeira de Pena, 12 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho.
[A imagem (Gwyneth Paltrow como “Ema” em As Mulherzinhas) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.4.bp.blogspot.com.]

Ode ao Verso


Mágoa, água, dor, alento
Força, farsa, ouro, ourives -
Como um breve e leve vento
Leve e breve, Verso, vives!

Arco de Baúlhe, 12 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http:www.epitafios.blogspot.com.]