Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Por que te queixas


- Tens esse hábito irritante de te queixares constantemente - disse-me herr Goering, enquanto um a um me cortava os dedos dos pés com uma tesoura de podar, revelando no exercício uma precisão e uma eficácia admiráveis.

Ribeira de Pena, 12 de Janeiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 9 de janeiro de 2011

Epígrafes à superfície de um Café


Li recentemente um grande romance da literatura italiana e universal: Café Debaixo de Água, de Stefano Benni (Ed. Ulisseia, 2010).
Sobre os contos que, juntos, são o romance falarei mais tarde.
Para já, ofereço-vos algumas das maravilhosas epígrafes que Benni escolheu para cada capítulo.
“[…] a terra / com quem dividiste o frio / para sempre será / impossível não a amares.” (Vladimir Majawoski)
“Em branco manto real todo ele reluzente, onda e chama: É a Traça!” (Paul Verlaine)
“[…] o cachalote respira apenas um sétimo, ou seja, um domingo de todo o seu tempo.” (Herman Melville)
“Tanto faz o homem que, no fim de tudo, acaba por desaparecer.” (Raymond Queneau)
“Nos tempos do fascismo / não sabia que vivia / nos tempos do fascismo.” (Hans Magnus Enzensberger)
“[…] os apaixonados de verdade inventam com os olhos a sua própria verdade.” (Molière)
“A única paixão da minha vida foi o medo.” (Thomas Hobbes)
“[…] a vida não passa de figura e fundo.” (Samuel Beckett)
“O país da nossa nostalgia é […] o normal, o decoroso, o amável, é a vida na sua sedutora banalidade.” (Thomas Mann)
“Quando o jogo se torna duro / os duros começam a jogar.” (John Belushi)
“Em nenhuma outra língua é tão difícil entendermo-nos como na nossa própria língua.” (Karl Kraus)
“Podes levantar-te muito cedo de madrugada, mas o teu destino levantou-se uma hora antes de ti.” (Provérbio africano)
“Todas as injustiças nos ofendem quando não nos trazem directamente nenhum lucro.” (Luc de Vauvenargues)
“O Sono!... Varredor do rancor!” (Tristan Corbière)
“E morrerá sem um lamento / como sonham todos os heróis. / Apenas um anjo com uma bala / e Cagney no grande ecrã.” (Tom Waits)
“As pessoas não morrem, ficam encantadas.” (João Guimarães Rosa)


Ribeira de Pena, 09 de Janeiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

1972


1972. Vou à baixa de Coimbra com a minha mãe, mão na mão. Ela leva-me ao barbeiro, ali ao lado do Café Santa Cruz e, depois, ao registo civil para o meu primeiro bilhete de identidade. No mercado, compra-me um pastel de nata e um livro. Deve ser primavera. A minha mãe é uma mulher linda e cheia de saúde.
Aquele dia faz-me hoje tanta falta, mãe!

Ribeira de Pena, 08 de Janeiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[Imagem (foto JJC): Mãe e VL, contemporâneas de antes e depois de mim; gente consubstancial ao que sou.]

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O Mundo Em Que Vivi


Li, pela segunda vez, O Mundo Em Que Vivi, de Ilse Losa. Boa parte do encanto e interesse do livro é de cariz ético. Reconhecemo-nos, como no Diário de Anne Frank, no discurso do espanto, da indignação, do desespero, da denúncia.
Mas há mais. Há esse feitiço literário de certas narrativas que nos transportam aos lugares (lugares de geografia e lugares de sentido) e nos aumentam, sendo vistos, a capacidade de ver.
Eu sou agora, talvez, outro leitor, diferente já do mais jovem Joaquim Jorge que pela primeira vez lera o livro. Vivi mais, aprendi mais, cresci em mundo e em memória. Mas o livro recuperou, da minha pessoa antiga, a mesma ingenuidade e a mesma disponibilidade para o espanto que outrora fui.
Isto é: por um lado, o livro é diferente porque o leitor é já outro; por outro, o leitor permanece igual (em pureza e em deslumbramento) porque o livro, no caroço fundamental de si, igualmente permanece-resiste-sobrevive aos relógios. Algo como um aconchego sobrenatural de perenidade.
Afinal, há nos livros - em certos livros - essa possibilidade maravilhosa de nos libertarmos da velhice, desse pó anquilosante que escorre dos calendários para as nossas pobres veias.
Ler, portanto. Ler sempre. Espécie de provisória negação, em nós, da mortalidade.

Arco de Baúlhe, 07 de Dezembro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Da Ira


Falo com ex-alunos e eles, quase indiferentes, dizem-me que acabaram os estudos e estão desempregados.
Falo com pais de antigos e actuais alunos: desempregados.
Falo com familiares e com conhecidos: desempregados, desempregados.
Funcionários do Bingo pedem, na televisão, que alguém lhes devolva o trabalho.
Os dias estão agrestes. Um medo secreto mina-me os ossos e a esperança. A crise rouba a cor aos olhos dos transeuntes e há, em vez de sorrisos, uma espécie de brutidade zigomática.
Talvez por ilusão triste, parece-me que o país se arrasta. Homens e mulheres vigiam-se, em meu redor, como lobos impacientes.
Em certa medida, o meu quotidiano desliza para páginas de Steinbeck afinal contemporâneo. Portugal - Vinhas da Ira.

Ribeira de Pena, 04 de Janeiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Quadra balzaquiana (não interessa a métrica)


Célere, sai da loja moderna
De busto levantado contra o fim...
Trota-passa, levemente, por mim
Como uma brisa breve, bela, eterna.

Coimbra, 03 de Janeiro de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é do filme Shakespeare in Love, com Gweeneth Paltrow.]

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O Papão


Isto do "comportamento dos mercados" é, antes de mais, uma interessante metáfora. No ensino básico, diz-se que se trata de uma personificação. Talvez valha a pena olhar para a biografia semiótica desta realidade abstracta devinda ser em acção.
Um conjunto de barrigudos cínicos reúne-se com um conjunto de engravatados linfáticos e combina preços, margens de lucro, negócios. Começam por negociar com indivíduos, empresas, organizações, bancos. Depois, estendem os tentáculos a governos.
Nesta última fase, já não se fala do "Senhor A" (accionista maioritário de um Banco importante), ou do "Senhor B" (chairman de um Grupo Económico famoso), ou do "Senhor C" (consultor de uma agência financeira às ordens de certo barrigudo cínico e de certo engravatado linfático). Fala-se de "Mercado". De "Mercados".
A opção estratégica pela ABSTRACÇÃO (distinta de gente concreta como o JUDEU ou o ONZENEIRO do Auto da Barca do Inferno) permite que barrigudos e linfáticos exploradores escapem ao ódio e ao vitupério dos explorados.
Mas a evolução simbólica do conceito não fica por aqui. Segue-se ainda a construção (de cariz mítico-místico) de uma nova personalidade: o MERCADO TODO-PODEROSO. Trata-se de um produto deveniente da abstracção de que atrás falávamos, agora materializado nesta figura de bicho-papão terrível, monstro omnipotente e omnipresente, cujos caprichos são ordens e cujas razões não admitem, sequer, discussão. E é essa nova personalidade que legitima expressões como a que recordamos no início desta croniqueta. Como narrando uma fábula, os jornais referem -sem propósitos humorísticos - "o comportamento dos mercados."
Esta metamorfose semiótica não põe em perigo o bem-estar e a impunidade dos barrigudos e dos engravatados do início da história. Mesmo que nos sintamos agredidos pelos mercados, a verdade é que a culpa nunca se afigura de alguém em concreto...
Não vos admireis, pois, se em resposta aos vossos protestos pelas medidas recessivas e depressivas, os políticos vos dizem: "É o Mercado, esse monstro." Ou: "São os Mercados, esses monstros."
Aqui entre nós: os monstros são invenções de uma minoria para que a maioria não se revolte.

PS: E, já agora, o Mercado é PAPÃO porque PAPA muito, muito, muito.

Coimbra, 27 de Dezembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Verdade explosiva para dizer no Natal


Jesus Cristo, como a dinamite, foi uma bela invenção dos homens.
O problema está em os homens lhe darem, como fizeram com a ideia de Nobel, um uso indevido.

Arco de Baúlhe, 22 de Dezembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Outramo-nos, como dizia o Fernando António


Ai a cárie dos dias
Vai minando o Paraíso:
O outro eu que tu vias
Foge de nós, sem aviso.

Ribeira de Pena, 19 de Dezembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

domingo, 12 de dezembro de 2010

Conversas com Saramago


Li, numa pequena esplanada do Fórum Dolce Vita, Conversas com Saramago, de José Carlos Vasconcelos.
O livrinho é constituído por seis entrevistas concedidas pelo Nobel ao Jornal de Letras (em 1989, em 1991 e em 2006) e à Visão (em 2003, em 2004 e em 2005).
Não sendo propriamente um manancial de novidades ou surpresas, trata-se ainda assim de um conjunto de conversas interessantíssimas, dignas de atenção, entre duas pessoas muito inteligentes.
Retive, entre tantas frases dignas de nota, uma ideia de Saramago sobre a importância de, após a sua morte, se proceder a uma edição de cartas que leitores (de variadas origens e de variada condição académico-cultural) lhe foram enviando ao longo dos anos.
Igualmente me ficou, na memória leitora, uma formosa reflexão do escritor sobre a vida e a morte. Na página 113, lemos: «E, no fim, tudo volta ao princípio. Não lhe quero chamar o eterno retorno, não é isso, é estarmos metidos num beco sem saída, não haver saída para a vida a não ser a morte. A única resposta que temos para dar é o amor.»
Entretanto, chegaram as três meninas por quem habitualmente espero nos centros comerciais: a MP, a VL, a Mãe. Saramago e eu sorrimos, então, juntos e cúmplices.

Coimbra, 12 de Dezembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Sermão para Enforcado


O socialista (?) Daniel Bessa disse, da sua cátedra, que o Estado social está a matar a Economia. A questão, já glosada por dignos comentadores e cartoonistas, poderia ser vista ao contrário: a Economia está a matar o Estado social.
Deixai-me desabafar.
Ando farto de políticos do centrão e de especialistas em défices, dívida pública, equilíbrio orçamental, juros, etc.
De cada vez que ouço um destes experts (ou chico-experts) a perorar sobre economia e finanças atribuindo, invariavelmente, a culpa da crise aos tristes que mal sobrevivem (com salários ou subsídios mínimos, sem mordomias), apetece-me perguntar-lhes:
Quanto ganhou você no ano passado?
Quanto lhe pagam por mês no(s) seu(s) emprego(s)?
De quantas reformas beneficia? (Em quanto importa cada reforma? Durante quanto tempo trabalhou para aceder a cada reforma?)
Quanto ganha em "despesas de deslocação"? E em "despesas de representação"? E em "despesas de residência"?
Quanto lhe paga(ra)m em - digamos - "subsídios de reintegração"?
Quanto costuma ganhar em bónus ou prémios?
O Enforcado vicentino (do Auto da Barca do Inferno) ensinou-nos que se percebe mal o sermão dos poderosos quando se tem o baraço ao pescoço...

Coimbra, 11 de Dezembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http:anove.wikispaces.com.]

Mercado versus Sem-Abrigo


Falando, na televisão, do mercado de arrendamento, o primeiro-ministro de Portugal disse que o governo iria agilizar os processos de despejo de inquilinos com rendas em atraso.
Esta medida - garantiu - melhorará o mercado de arrendamento.
Contentinho da silva, aquele improvável socialista nada disse sobre o destino dos que, por incumprimento das suas obrigações com o mercado, seriam tão celeremente despejados.
A criatura tem na boca, na cabeça, nos tiques - a luzir como árvore de natal num salão de bombeiros - uma só palavra e um só conceito (no singular ou no plural): mercado, mercados; mercado, mercados; mercado, mercados.
E o povo, pá?
E a humanidade, pá?

Coimbra, 11 de Dezembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Linguagem demasiado polida


Leio no Correio da Manhã de 10-12-2010 (página 51): "CRIANÇA INGLESA [VÍTIMA DE BULLYING] SUCIDA-SE". Leio mais: «Bradley Wiseman, um menino britânico de 12 anos, aluno da escola de Edington, no Yorkshire, enforcou-se depois de ter sido ridicularizado e perseguido por colegas que não lhe perdoavam a linguagem "demasiado educada".»
É da natureza humana reagir à excelência com admiração pacóvia ou, em alternativa, repugnância e ódio.
A diferenta assusta a multidão (na infância, na adolescência, no mundo adulto). E é pior quando a diferença se torna uma evidência da mediocridade dos medíocres: a besta humana assusta-se e, com a força - bruta e avassaladora - do músculo e das maiorias, esmaga os bons. Esmaga os melhores. Objectivo dos agressores: que se perceba menos a porcaria que são.

Coimbra, 11 de Dezembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 11 de dezembro de 2010

O que fica


Tão célere se some a Graça
Tão pouco fica de Agora
Tão magra se faz a Hora
De tão triste, porque passa.

Viagem entre Vila Real e Coimbra, 10 de Dezembro de 2010.
[A MP anotou o poema que, sem licença, viajou connosco.]
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

What if...


E se isto tudo – Minho, Trás-os-Montes, Coimbra, Portugal, o planeta Terra, o universo – fosse apenas um centro comercial de dimensão razoável boiando no universo?
E se a Terra não fosse senão um hipermercado para deuses remediados e o Senhor Tempo (ou Cronos) não fosse senão uma espécie de Belmiro de Azevedo globalizado no bom sentido?
E se nós, homens e mulheres, animais, plantas, rios, mares, não fôssemos senão produtos de marca branca com o rótulo de “bens perecíveis”?
Por se aproximar a data limite da validade, eu já devo estar em promoção, com desconto mui generoso. É comprar agora ou nunca, porque depois azedo, estrago-me. A menina Afrodite não viu a publicidade, não?

Ribeira de Pena, 09 de Dezembro de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho