Vi-o ainda, digamos assim, vivo.
Na cama número 33, piso 8 - Urologia, Hospital do Funchal, um velhinho de cabelo já muito crescido ofegava sob a máscara de oxigénio, a boca ligeiramente virada para a direita.
Mal respirava. Ou, se àquilo chamássemos respirar, era como se a todo o momento se avizinhasse, no devir da sofreguião devorante do ar, o fim da função respiratória.
Ocorreu-me a imagem de um homem subindo a ladeira mais ingreme do mundo, fugindo em desepero da morte.
Despedi-me daquele quarto sem esperança. Eram talvez seis da tarde.
Às sete e um quarto, soubemos do fim. A MP chorou e eu coisa parecida ohando o mar que não se mexia. O mestre João, à vista do oceano em paz sem movimento visível, dizia sempre que o mar estava "doente". Nós bem sabíamos, no intervalo do riso, que havia muita vida nas profundezas oceânicas. Assim o homem que hoje partiu.
O mestre João (já) não era aquilo que víramos na cama 33. Era muito mais, antes e depois do que ali, ofegando desesperadamente, estivera.
É essa parte fundamental que fica, enquanto houver memória.
Mas na sala da casa do Piquinho aconteceu, nessa noite, isto: estava a senhora Maria, a MP, a L, a E, o P, o A, o F, o RS, eu. E a um canto do sofá principal estava, sobretudo, uma nesga de lugar dizendo a ausência do senhor João.
Percebeis?
A pessoa que melhor se divisava ali era a falta da sua pessoa.
A morte, portanto, vê-se.
Machico, 30 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho



















