Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sábado, 31 de julho de 2010

01/01/1932 - 30/07/2010


Vi-o ainda, digamos assim, vivo.
Na cama número 33, piso 8 - Urologia, Hospital do Funchal, um velhinho de cabelo já muito crescido ofegava sob a máscara de oxigénio, a boca ligeiramente virada para a direita.
Mal respirava. Ou, se àquilo chamássemos respirar, era como se a todo o momento se avizinhasse, no devir da sofreguião devorante do ar, o fim da função respiratória.
Ocorreu-me a imagem de um homem subindo a ladeira mais ingreme do mundo, fugindo em desepero da morte.
Despedi-me daquele quarto sem esperança. Eram talvez seis da tarde.
Às sete e um quarto, soubemos do fim. A MP chorou e eu coisa parecida ohando o mar que não se mexia. O mestre João, à vista do oceano em paz sem movimento visível, dizia sempre que o mar estava "doente". Nós bem sabíamos, no intervalo do riso, que havia muita vida nas profundezas oceânicas. Assim o homem que hoje partiu.
O mestre João (já) não era aquilo que víramos na cama 33. Era muito mais, antes e depois do que ali, ofegando desesperadamente, estivera.
É essa parte fundamental que fica, enquanto houver memória.
Mas na sala da casa do Piquinho aconteceu, nessa noite, isto: estava a senhora Maria, a MP, a L, a E, o P, o A, o F, o RS, eu. E a um canto do sofá principal estava, sobretudo, uma nesga de lugar dizendo a ausência do senhor João.
Percebeis?
A pessoa que melhor se divisava ali era a falta da sua pessoa.
A morte, portanto, vê-se.

Machico, 30 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Ler













Paguei um só bilhete de avião, mas não chegarei sozinho ao Aeroporto do Funchal.
Levo comigo Henry Miller, Bolaño, Balzac, Mia Couto, Mário Zambujal, Dostoiévski, Luandino Vieira, Sterne, Giannini Papini, Hernán Neira, Steinbeck, Dinis.
São, comigo, viajantes outros. Serão, em mim, outras viagens.
Viajo, ergo, leio - e vice-versa.

Coimbra, já 29 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

A vida não é, mas


Parto pelas seis horas da tarde para a Madeira.
Vou (voo) com a ideia de ainda ver, cúmplice da minha respiração e do meu oxigénio, um homem que foi (é) um santo.
Dizem-me que está muito frágil, algures entre o mundo e a eternidade estrangeira à matéria.
Espero que o avião onde vou (voo) aguente o peso inevitável da minha angústia e da minha tristeza.
As pessoas que amamos envelhecem, adoecem, morrem. A gente julga que já sabia (d)isto há muito tempo. Mas é só quando nos roubam os nossos que tudo faz tragicamente sentido e sabemos parte da bruta verdade.
A minha mãe suspira, pesarosa, às notícias más que a Madeira telefona. Murmura: É a vida. Eu digo: A morte. E ela: Pois.
A vida, atentai, não é uma merda. Mas a mortalidade é.

Coimbra, já 29 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 24 de julho de 2010

Pentear macacos


A proposta do PSD que prevê o fim do cariz tendencialmente gratuito da saúde trouxe-me à memória o senhor Brito Brás.
Recorde-se: de acordo com Passos Coelho, a saúde deve ser paga por quem pode e só gratuita para quem não pode pagar. Aparentemente, está certo, é justo, compreende-se.
Sucede porém que foi essa lógica que levou à destruição da Escola Pública e da Saúde Pública em muitos países.
Previsão fácil: sobrevirá a Escola Privada e a Saúde Privada de qualidade, paga por quem puder; ficará uma espécie de Escola Pública e de Saúde Pública (baratucha e residual) para quem não puder.
Quem esfrega as mãos de contentamento são os empresários que vêem nesta janela constitucional uma oportunidade de negócio em grande. E ninguém está a ver os donos do dinheiro a preterir o lucro em favor da generosidade humanista. Está bem, está.
É preciso, entretanto, lembrar que o serviço nacional de saúde já é pago com os nossos impostos. É gratuito apenas na medida em que o pagamos num macro-bolo que deveria também chegar para educação, justiça, defesa, segurança interna, etc. E se o dinheiro fosse bem gerido, certamente chegaria...
Quem tem isto a ver com o senhor Brito Brás?
Brito Brás era um presidente de um clube da terceira divisão nacional. Queria lutar pelo título, mas o orçamento dificilmente permitia contratar jogadores de qualidade. A opção de jogar apenas com os jogadores possíveis, moderando as ambições e alguns gastos sumptuários (que apenas alimentavam o ego do presidente e irritavam os habitantes da aldeia vizinha), desagradava a Brito Brás.
Que fez, portanto? Inicialmente, foi vivendo da generosidade do município e de alguma publicidade. Depois, começou também a recorrer ao crédito. Antes de o clube acabar, aumentou por três vezes as quotas, provocando mal disfarçada azia aos associados.
No último ano, quis aumentar o número de sócios. Entre outros brindes, a campanha falava da vantagem que era, para um sócio, ter antecipadamente bilhetes garantidos para toda a época. Não grátis, note-se; apenas pagos a priori com leve desconto.
Mas a última proposta de Brito Brás, um mês antes de o clube acabar, foi que, para além das quotas, os associados pagassem também os bilhetes dos jogos disputados na aldeia.
Um camionista perguntou-lhe, nessa assembleia geral:
- Então, qual é a vantagem de pagarmos quotas?
E o senhor Brito Brás respondeu despudoradamente:
- Isto é para salvar o clube.
O camionista levantou-se e, antes de sair, mandou-o pentear macacos.
Ora bem, face a Passos Coelho (que é uma espécie de Sócrates, mas sem vaselina), eu sou o camionista do clube da aldeia:
- Então, qual é a vantagem de pagar impostos?
Ele que venha dizer que isto é para salvar o país...

Coimbra, 23 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra foi colhida - com a devida vénia - em http://fotosgratis.allfreephotos.com.]

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Relatório, outro


Dia 21 de Julho de 2010, oito horas da manhã. Coimbra em versão cinza e fria. Acordo cedo para tratar de assuntos domésticos. É dia de peritagem do meu carro, na sequência de leve acidente na baixa da cidade. Recordo-o. Parei numa passadeira, ao Arnado, aí pelas dez e meia do dia 19. Uma senhora idosa atravessava lentamente a rua. Atrás de mim, um condutor distraído não parou a tempo. Senti a pancada na traseira do carro. A senhora idosa desapareceu, sem curiosidade pelo estrondo ou pelos danos na chapa automóvel. Declaração amigável. Assinaturas resignadas, gestos aborrecidos, rostos tristes. Burocracia, longa espera na seguradora, tempo tão perdido.
Adiante. Sigo agora pela cidade natal, aproveitando o estar acordado desusadamente cedo. Esboço o relatório sobre a licença sabática, à mesa do Café O Moinho. A tese está escrita, falta revê-la, apurá-la, emagrecê-la (se for capaz), confiná-la ao aspecto legalmente imposto. Vou, portanto, andar amarrado a Júlio Dinis ainda por Agosto.
Reflicto gratamente. Fui abençoado com esta possibilidade de, durante um inteiro ano lectivo, ser pago pelo Estado para ler e escrever. Vou lembrar-me com saudades, no futuro, desse calendário maravilhoso de solidão boa, passado no aconchego da minha cozinha ribeirapenense, da minha sala coimbrinha, de bibliotecas municipais-escolares-universitárias. Já me despeço, com dor, do privilégio de andar pelas livrarias e pela internet a comprar livros. De, pela manhã e, sobretudo, pela tarde e noite me ocupar com leituras e escritas.
Ficaram cerca de vinte cadernos de notas e talvez mil ficheiros com e sobre fontes, ideias, sugestões, planos, redacção de capítulos. [Pelo meio, sem que o Estado tenha a ver com isso, pude escrever poesia, teatro, narrativa, crónicas.]
Entre Setembro de 2009 e, digamos, Abril de 2010, senti-me dono absoluto do meu Tempo. A mortalidade só me regressou em Maio, quando ouvi a M.P. lamentar-se da curta duração do 3.º período e do final iminente do ano lectivo.
Este 2010 foi o ano do nascimento do blogue Muito Mar (e não é impossível que venha a ser o ano da sua morte). Inaugurei-o decerto com o fito de, em jeito de recreio íntimo, sair um pouco deste académico jugo a que profissionalmente me sujeitei. Agora, olho para ele como uma espécie de Café Amizade, interessante ponto de encontro de amigos, vizinhos, conhecidos. Também um arquivo, claro, para certos dizeres mais ou menos voláteis (sobre mim e o mundo à volta).
Já depois do almoço, abro o computador. O Fujitsu tem sido um fiel companheiro de lida. Começo a escrever o relatório.
………………………………………………………………………………………………
A minha literatura, em boa verdade, resume-se desde sempre a este exercício. Vivo e faço relatórios, vivo e faço relatórios, vivo e faço relatórios. Foi para isto que aprendi a ler e a escrever, em Outubro de 1970: para (me) relatar, para (me) dizer.

Coimbra, 21 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Solilóquio de Penélope aborrecida


Às vezes, o fim de uma coisa é o princípio de mais nada. Às vezes, o caminho é não haver caminho. Às vezes, o dia nasce com cara já de noite. Às vezes, a vida é uma estrada triste e sem saída. Às vezes, o sol emigra para longe e morre. Às vezes, o princípio assemelha-se muito ao começo do fim. Às vezes, a esperança cansa-se de esperar. Às vezes, à falta de um olá, dizemos Adeus. Às vezes, à falta de chegar, partimos. Às vezes, sucede a desistência à resistência. Às vezes, perde-se o jogo por falta de comparência. Às vezes, falta um mar ao barco. Às vezes, cegamos em vez de olharmos. Às vezes, não existes. Às vezes, não existo. Às vezes, os lobos trocam os uivos pela resignação. Às vezes, a noite parece uma despensa açambarcando para sempre o sol. Às vezes, Telémaco é Ulisses repetido. Às vezes, há mar & mar e não há voltar. Às vezes, acontece a última vez. Às vezes, o futuro é um pássaro velho com a doença de Parkinson. Às vezes, o rio da minha aldeia interrompe o curso e desteimosamente morre. Às vezes, tudo o que falta é já demasiado longe. Às vezes, a pena não vale a pena. Às vezes, a viagem é uma coisa estrangeira visitando-nos. Às vezes, somos visitados por nada em vez de visitantes de muito. Às vezes, em vez de estrelas há setas brilhantes indicando o inferno. Às vezes, as flores secam por não se acreditar nelas. Às vezes, mais valia que o cabrão do galo se esquecesse de cantar. Às vezes, basta.


Coimbra, 20 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 20 de julho de 2010

Hino d'Arco


Agora, que se avizinha uma espécie de inverno interior, parecido com a ideia de fim, deu-me para trautear o Hino do Agrupamento do Arco. Escrevi-o eu, vestiu-o de música o Vítor Santos. Para as coisas amadas há um arquivo chamado saudade.

HINO D’ARCO

Letra: JJC
Música: Vítor Santos


O Arco é um lugar de passagem
Fronteira entre Nada e Ideal
O Arco é uma ideia, uma viagem
De sonho singular para plural.

O Arco de Baúlhe é tantas vidas
É um dominó formoso de sentir
Entroncamento e luz de nossas lidas
Mapa lindo do tesouro de existir!

Refrão:
SOMOS ALEGRIA, EDUCAÇÃO
AMOR, CULTURA E DEVER!
SOMOS TERRA E CORAÇÃO -
SOMOS O FUTURO A NASCER!

SOMOS ALEGRIA, EDUCAÇÃO
AMOR, CULTURA E DEVER!
SOMOS TERRA E CORAÇÃO -
SOMOS O FUTURO A NASCER!


Somos juventude e liberdade
Cidadãos infinitivos de viver
Somos a semente sem idade
De árvores ou frutos a crescer...

Vamos com Camões até ao Mar
E com Pessoa à Índia, outra vez...
O nosso Arco é mais do que um lugar:
É um modo de ser livre em Português!

Refrão:
SOMOS ALEGRIA, EDUCAÇÃO
AMOR, CULTURA E DEVER
SOMOS TERRA E CORAÇÃO
SOMOS O FUTURO A NASCER!

SOMOS ALEGRIA, EDUCAÇÃO
AMOR, CULTURA E DEVER!
SOMOS TERRA E CORAÇÃO -
SOMOS O FUTURO A NASCER!

Coimbra, 19 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[O cravo-supra foi colhido – com a devida vénia – em http://notasaocafe.wordpress.com.]

segunda-feira, 19 de julho de 2010

46664


Leis duras e injustas. Violência policial e social. Pancada, ameaças, prisão quase perpétua.
O mais fácil, o mais cómodo, o mais normal era o homem ter morrido, ou as ideias do homem terem morrido nele.
Mas ele percebeu que a liberdade não era (não é) um fruto fácil, cómodo, confortável.
Há homens incomuns que nascem fadados para salvar do opróbrio os homens comuns.
Há homens e mulheres que são homens como nós, mas também exemplos e espelhos para os homens e as mulheres que querem ser belos e belas por dentro.
A beleza por dentro chama-se dignidade.
Nelson Mandela cumpriu, a 18 de Julho de 2010, 93 anos.
Mas ele é maior que o tempo e o lugar onde circunstancialmente residiu.
Passou pelo século XX e pelo século XXI; viveu na África do Sul. Certo.
O seu verdadeiro lugar, contudo, é a Terra Toda - e o seu verdadeiro tempo é Sempre.

Coimbra, 18 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 17 de julho de 2010

União, Sporting, Valdano, eu


O senhor Jorge Valdano, ex-grande jogador argentino, actual director desportivo do Real Madrid e, talvez, o melhor escriba contemporâneo em assuntos de futebol & derivados, disse um dia que uma simples partida permite, a cada indivíduo, o regresso semanal à infância.
Desde pequenino, eu “sou” do Sporting Clube de Portugal e do União de Coimbra.
Um amigo antigo riu-se, há dias, desta masoquista preferência:
- Pá, o União já não existe e o Sporting está em vias de extinção.
Encolhi os ombros à sua falta de rigor: o União continua a ter camadas jovens, só já não tem séniores; e o Sporting, tirando o facto de não ganhar, está tão falido como o Porto ou o Benfica.
Mas ainda lhe disse:
- O amor ao clube é para sempre, mesmo que o clube acabe.
E ele:
- Com filosofias dessas, vocês perderam o Moutinho…
E eu (com os meus botões):
- Sou talvez de um clube morto e de outro que está moribundo.
E os meus botões para mim:
- Pois. Mas o principal dos teus clubes é a parte em ti que não se esquece deles.
E o Valdano, saltando do primeiro para o último parágrafo:
- Dá a mão ao teu pai e entra no Estádio Municipal. O União está na primeira divisão e joga com o Sporting. Grita com os golos do Perrichon (pelos azuis) e do Chico Faria e do Yazalde (pelos leões). A multidão cabe no teu olhar de dez anos. Não percas de vista o teu pai. Compreendes?

Compreendo.

Coimbra, 17 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Tarde de Julho


Um livro transportando-me a uma praia certa, à medida do que preciso mereço quero.
Uma praia levando-me a um livro que hei-de escrever.
Um livro (que me sonha) numa praia que nunca vi.
Uma praia (que eu sonho) com páginas de sol e de tempo suspenso.
Tinta como mar ou dunas. Eu como barco ou vento visitante.
Pago o café. A praia adormece. Página 63.

Coimbra, 16 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Cegos


Dois jovens cegos discutem sonorosamente, ao cimo da Conchada. Estão ambos embriagados, a uns vinte metros do restaurante onde, horas antes, terá havido uma festa estudantil.
O cego mais baixo dá conselhos ao mais alto, e este ri-se muito da ponderação daquele, lançando-lhe palavrões. Percebe-se que, dos dois, o que grita mais é o bêbedo em pior estado. Isso torna o outro menos cego.
Um velhinho, em estupor cúmplice do meu, observa a cena e, antecipando-se à minha própria intervenção, oferece-lhes ajuda.
O cego mais alto recusa e gargalha, revirando os olhos. O outro explica que estão à espera de colegas. Mas talvez esta versão não corresponda verdade, já que – logo de pois de o ancião se afastar – ele telefona para alguém e pede auxílio.
- Estamos os dois perdidos – confessa.
E eu, que ia a pensar em coisas tristes, disse para mim mesmo:
- Já somos três.

Coimbra, 15 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra foi colhida – com a devida vénia – em http://www.comboios.org.]

terça-feira, 13 de julho de 2010

Revisão em baixa


Os economistas estão para a economia como os poetas para o amor: são muito melhores a fazer autópsias que diagnósticos.
A cura, para eles, não é uma possibilidade porque, a dar-se, perderiam o emprego ou a serventia.

Coimbra, 13 de Julho de 2010.
Joaquim, Jorge Carvalho
[A imagem-supra (de Bocage) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.portalsaofrancisco.com.br]

Sobre a ideia de Família


A família consanguínea, já se sabe, não se escolhe. É. Somos.
Mas é muito triste acharmos que essa inevitabilidade significa abdicar de sermos o que profundamente somos, incluindo o que sonhamos ser.
Somos também, afinal, a família a que pertencemos, devendo tal significar que o essencial de nós é para a família integrar, aceitar e, podendo, estimar.
Acresce a esta democrática visão o facto de nós e família, em nome da inteligência e da esperança, evoluirmos, isto é, devermos evoluir.
Sem dramas, sem mutilações desnecessárias, progredimos. Somos o que somos mais o que queremos ser. Somos o que somos mais o que vamos conseguindo ser.
Ora, isto tudo, que é pouco mas sincero, vale para mim e para o meu país.

Coimbra, já 13 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Mãe, Rainha, Santa


Eça de Queirós, em Correspondência de Fradique Mendes, diz (cito de cor) que as manifestações de fé são essencialmente sublimes, independentemente da entidade para que se evolam.
Confesso que me incomodam os (algo exibicionistas) martírios que algumas pessoas se auto-infligem, por exemplo subindo de joelhos a rua Visconde da Luz. Parece-me mais estupidez medieva que amor por uma divindade.
Mas quero falar-vos de um lado outro. Há muitos anos que conheço em minha mãe a devoção profunda pela Rainha Santa, padroeira de Coimbra. Tantas vezes lhe vi as bienais lágrimas, ao simples aparecimento da imagem, chegando da ponte de Santa Clara ou saindo da Igreja de Santa Justa. Desde menino que me habituei ao convívio, na casa materna, com réplicas (em cerâmica ou em papel) da Santa dos pobres, e sei bem da confiança que a minha mãe deposita nessa Senhora.
Ontem, pelas seis e meia da tarde, a minha mãe voltou a chorar e eu, pela primeira vez, dei-lhe um beijinho (como se fosse seu pai). Ela, menina, retribuiu o ósculo e talvez tenha encostado a sua cabeça no meu ombro.
Tenho por minha mãe a devoção que ela própria nutre pela esposa de D. Dinis.
A caminho do carro, estacionado bem longe, junto à faculdade de Letras, veio-me à cabeça uma letra de fado que, por muito kitsch que pareça a outros, tem sempre o condão de me emocionar. Reza assim (cito novamente de cor):
Vi minha mãe a rezar
Aos pés da Virgem Maria.
Estava uma Santa a escutar
O que outra Santa dizia.
Nem todas as velas de todas as confrarias de todas as procissões dos últimos quinhentos anos são suficientes para dizer a luz toda que uma Mãe é.

Coimbra, já 12 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 10 de julho de 2010

Religioso mais ou menos


Meu Deus, se existes, desculpa-me isto de às vezes duvidar da Tua existência.
Se não existes, ignora esta prece. Aliás, se não existires, esta prece – ela própria – Te ignorará.
De qualquer modo, amen.

Coimbra, 10 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida – com a devida vénia – em http://www.liberdadeepensar.blogspot.com.]