Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sábado, 17 de julho de 2010

Tarde de Julho


Um livro transportando-me a uma praia certa, à medida do que preciso mereço quero.
Uma praia levando-me a um livro que hei-de escrever.
Um livro (que me sonha) numa praia que nunca vi.
Uma praia (que eu sonho) com páginas de sol e de tempo suspenso.
Tinta como mar ou dunas. Eu como barco ou vento visitante.
Pago o café. A praia adormece. Página 63.

Coimbra, 16 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Cegos


Dois jovens cegos discutem sonorosamente, ao cimo da Conchada. Estão ambos embriagados, a uns vinte metros do restaurante onde, horas antes, terá havido uma festa estudantil.
O cego mais baixo dá conselhos ao mais alto, e este ri-se muito da ponderação daquele, lançando-lhe palavrões. Percebe-se que, dos dois, o que grita mais é o bêbedo em pior estado. Isso torna o outro menos cego.
Um velhinho, em estupor cúmplice do meu, observa a cena e, antecipando-se à minha própria intervenção, oferece-lhes ajuda.
O cego mais alto recusa e gargalha, revirando os olhos. O outro explica que estão à espera de colegas. Mas talvez esta versão não corresponda verdade, já que – logo de pois de o ancião se afastar – ele telefona para alguém e pede auxílio.
- Estamos os dois perdidos – confessa.
E eu, que ia a pensar em coisas tristes, disse para mim mesmo:
- Já somos três.

Coimbra, 15 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto-supra foi colhida – com a devida vénia – em http://www.comboios.org.]

terça-feira, 13 de julho de 2010

Revisão em baixa


Os economistas estão para a economia como os poetas para o amor: são muito melhores a fazer autópsias que diagnósticos.
A cura, para eles, não é uma possibilidade porque, a dar-se, perderiam o emprego ou a serventia.

Coimbra, 13 de Julho de 2010.
Joaquim, Jorge Carvalho
[A imagem-supra (de Bocage) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.portalsaofrancisco.com.br]

Sobre a ideia de Família


A família consanguínea, já se sabe, não se escolhe. É. Somos.
Mas é muito triste acharmos que essa inevitabilidade significa abdicar de sermos o que profundamente somos, incluindo o que sonhamos ser.
Somos também, afinal, a família a que pertencemos, devendo tal significar que o essencial de nós é para a família integrar, aceitar e, podendo, estimar.
Acresce a esta democrática visão o facto de nós e família, em nome da inteligência e da esperança, evoluirmos, isto é, devermos evoluir.
Sem dramas, sem mutilações desnecessárias, progredimos. Somos o que somos mais o que queremos ser. Somos o que somos mais o que vamos conseguindo ser.
Ora, isto tudo, que é pouco mas sincero, vale para mim e para o meu país.

Coimbra, já 13 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Mãe, Rainha, Santa


Eça de Queirós, em Correspondência de Fradique Mendes, diz (cito de cor) que as manifestações de fé são essencialmente sublimes, independentemente da entidade para que se evolam.
Confesso que me incomodam os (algo exibicionistas) martírios que algumas pessoas se auto-infligem, por exemplo subindo de joelhos a rua Visconde da Luz. Parece-me mais estupidez medieva que amor por uma divindade.
Mas quero falar-vos de um lado outro. Há muitos anos que conheço em minha mãe a devoção profunda pela Rainha Santa, padroeira de Coimbra. Tantas vezes lhe vi as bienais lágrimas, ao simples aparecimento da imagem, chegando da ponte de Santa Clara ou saindo da Igreja de Santa Justa. Desde menino que me habituei ao convívio, na casa materna, com réplicas (em cerâmica ou em papel) da Santa dos pobres, e sei bem da confiança que a minha mãe deposita nessa Senhora.
Ontem, pelas seis e meia da tarde, a minha mãe voltou a chorar e eu, pela primeira vez, dei-lhe um beijinho (como se fosse seu pai). Ela, menina, retribuiu o ósculo e talvez tenha encostado a sua cabeça no meu ombro.
Tenho por minha mãe a devoção que ela própria nutre pela esposa de D. Dinis.
A caminho do carro, estacionado bem longe, junto à faculdade de Letras, veio-me à cabeça uma letra de fado que, por muito kitsch que pareça a outros, tem sempre o condão de me emocionar. Reza assim (cito novamente de cor):
Vi minha mãe a rezar
Aos pés da Virgem Maria.
Estava uma Santa a escutar
O que outra Santa dizia.
Nem todas as velas de todas as confrarias de todas as procissões dos últimos quinhentos anos são suficientes para dizer a luz toda que uma Mãe é.

Coimbra, já 12 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 10 de julho de 2010

Religioso mais ou menos


Meu Deus, se existes, desculpa-me isto de às vezes duvidar da Tua existência.
Se não existes, ignora esta prece. Aliás, se não existires, esta prece – ela própria – Te ignorará.
De qualquer modo, amen.

Coimbra, 10 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida – com a devida vénia – em http://www.liberdadeepensar.blogspot.com.]

Problema(s) de Memória


Vem na última página do “Correio da Manhã”, edição de 09-07-2010:
«Mário Mendes, secretário-geral da Segurança Interna, disse ontem que não se lembra do acidente na Av. da Liberdade e que, se for chamado [a tribunal], falará a favor do motorista.»
Compreende-se. Já passou algum tempo (talvez um ano). É normal que as pessoas se esqueçam – e, para mais, gente tão ocupada com assuntos tão importantes.
Percebe-se, aliás, melhor por que motivo os governos em Portugal faltam tão frequentemente às promessas eleitorais: o tempo passa, as pessoas esquecem-se.
Uma (impertinente) vozinha interior diz-me: “Mas eles têm programas onde as promessas estão escritas…”
Pois sim. Mas os dirigentes, adivinho eu, de tão ocupados com a governação, não devem ter tempo para ler os seus programas de governo. Tudo certo, portanto.

Coimbra já 10 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra representa Mnemosine, Deusa (grega) da Memória.]

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O amor quê


O amor mata.
Tenho, de livros, canções e filmes, muitos testemunhos desse poder. E eu acredito na verdade que há nos livros, nas canções e nos filmes.
Mas a nossa própria vida no-lo diz: o amor mata.
Basta pensar no facto de as pessoas que amamos serem capazes de, morrendo, nos matarem da sua falta.
Isto é, os seres amantes morrem (também) com a morte dos seres amados
E é, atentai, a mais cruel morte de todas: morremos e, contudo, estamos suficientemente vivos para não deixarmos de chorar.
É assim. Coisa muito bela e muito triste. O amor mata.

Coimbra, já 09 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Amigos


Tenho por auto-exigência que os meus textos, no Muito Mar, se não circunscrevam aos domésticos eventos do quotidiano, ou pelo menos que deles se dê literária conta apenas no sentido em que possam, pela leitura, universalizar-se.
Talvez o que se siga seja uma excepção.
Sei que há, hoje, uma sardinhada na minha Escola. Estou a 260 quilómetros, ando a fazer um tratamento dentário cruel e moroso, estou todos os dias em suspenso de notícias da minha família madeirense, e não vou ao Arco.
Mas queria estar, à dimensão das minhas possibilidades,com os professores e funcionários de um Agrupamento a muitos níveis exemplar.
Se eu tivesse de provar em tribunal que éramos (somos) um Agrupamento como deve ser, chamaria como testemunhas os principais beneficiários de tanta dedicação e tão subido profissionalismo: os alunos e, mais diferidamente, os pais e encarregados de educação.
Nas pessoas da Isabel Teixeira, do Feliciano, da Elsa, da Manuela, do Albino e da Senhorinha, quero aqui deixar uma flor. É bom sermos dirigidos por quem sabe dirigir. Foi uma honra ter servido sob vossa orientação. Sois parte do meu restrito mundo de amigos. Estimo-vos e admiro-vos.
Um copo à saúde do que fomos e do que havemos de ser.
Os alunos e as famílias acompanham-me, seguramente, no gesto (os alunos com sumo, como é óbvio).
Disse o Antonio Machado (cito de cor): Caminero, no hay camino / El camino se hace andando...
Sigamos, pois.

Coimbra, 07 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida, com a devida vénia, em http://www.malmaior.blogspot.com.]

Brasa


Inclemente, o sol assola a cidade.
Homens e mulheres desistem, em desigual cadência, do decoro e vão-se despindo.
De Celas à rua da Sofia só não é Copacabana porque falta o mar. Muito afogueadas, as senhoras destilam – do cabelo aos pés – as torradas e o chá do inverno engordante. Uma à minha frente, na esplanada, sopra para dentro da blusa (refrigerando os globos) e abana a saia (arejando o universo).
É à distância que o sofrimento feminino é sensual. De perto, é tudo tão óbvio de penoso que, em vez de mulheres belas, percebe-se apenas a cruel mortalidade delas.
Além, um senhor muito gordo, com pasta preta, cumprimenta de passagem o operário à porta da oficina de automóveis; o gordo deve ter dito uma piada sobre o calor porque o homem de fato-macaco ri-se e responde-lhe com um palavrão, distraindo-se ambos logo a seguir um do outro, porque um corpo juvenil de calçãozinho mínimo passa. Demora tudo não mais que três segundos, e segue-se a humilhação habitual que é o cabrão do desejo rir-se deles por dentro.
Derivação machista: se houvesse mar e não tivéssemos esta mundial crise pesando sobre o presente e sobre a esperança, seria este o lugar certo para um homem estar. O lugar certo para fingir que o tempo não passa. O lugar certo para fazer de conta que o corpo e a mente são ainda sensíveis ao cheiro da caça, e capazes da fome, e à altura da predação.
Um velhinho interrompe o trânsito, ao Arnado, atravessando a rua com vagares de bengala doente. O terrível calor deve acelerar-lhe a morte. Há depois um claxon impaciente contra a velhice. Eu estou atrás, olhando de viés esta parte de Coimbra. Vou ouvindo Simon & Garfunkel no aconchego do ar condicionado.
Sigo para a Casa da Cultura, onde trabalharei na revisão bibliográfica da tese. Na galeria Pinho Dinis, há uma exposição sobre Alberto Sampaio (homem importante das filosofias e – descubro agora – também da vitivinicultura). Já sabia que fora contemporâneo e amigo de Antero de Quental. A exposição compreende cartas trocadas entre os dois (sobre vinhos, amizade e tempo). Gosto sempre destas literaturas epistolares.
Coincidência interessante: na parede fronteira à minha mesa de trabalho, diviso vários poemas em caracteres garrafais, e o mais próximo é de Antero. Sirvo-me da última quadra para terminar este escrito, começado mentalmente a 40 graus e terminado no remanso burguês de uma sala fresca:

Mas dize tu, ó Mondego
Pois todos levam seu fado
Tu que foges e eu que fico
Qual de nós vai mais pesado?

Coimbra, 06 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida, com a devida vénia, em http://www.skyscrapercity.com.]

terça-feira, 6 de julho de 2010

Penso, logo, desconfio


Hoje, fui a um Banco tratar de assuntos familiares. Tratava-se de entregar alguma documentação e, por hábito, solicitei uma declaração confirmando que os documentos haviam sido, de facto, recebidos pela delegação bancária em causa.
Uma gentil senhora, funcionária naquele Banco, trouxe-me uma folha A4 em branco e solicitou-me que assinasse ao fundo do rectângulo. Percebendo o meu espanto, tranquilizou-me maternalmente:
- Não tenha medo, assine à vontade. Depois, nós imprimimos uma declaração dizendo que o senhor nos trouxe os documentos, e enviamos-lhe tudo para casa.
Recusei o convite, obviamente. A senhora, estupefacta com a minha atitude, lá foi buscar um carimbo para apor nas cópias das folhas que eu entregara e ofereceu-mas, pouco amigavelmente.
Pude perceber a acrimónia de mais alguns funcionários do Banco, face à minha pessoa.
Ainda me parece que esta minha desconfiança é sensata. Ainda me parece que, na história narrada, a anormalidade não está na minha desconfiança.
Mais: ao que sei, foi por confiança em excesso que o sistema bancário mundial ruiu.

Coimbra, já 06 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Em Prosa


Sou amigo do maior poeta português vivo. Eu também faço versos, quando não sou capaz de me exprimir de outro modo. Mas somos, no modo e na dimensão, diferentes. Nisto da poesia, o meu amigo é uma espécie de Mozart e eu sou um moço jeitoso da banda local.
O meu amigo diz, melhor que ninguém, em verso, a vida (dele, minha, de toda a gente). Só não aprendeu ainda a viver.
É sobre isso que eu tenho de falar com ele. Em prosa muito denotativa.
A grandeza de um homem, mesmo quando se trata de um artista, também se mede por esta dimensão chã de ouvir os outros sobre si e de, pelos outros e por si, se salvar do perigo maior que há na nossa vida: não (a) viver.

Coimbra, já 05 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 3 de julho de 2010

Espécie de oração


O Mestre João, senhor meu sogro, está a lutar pela vida.
À pressa, a MP e a VL vão para a Madeira. Eu estou atado a Coimbra, por imperativos de trabalho.
Não há mundo suficiente para medir a aflição dos seres que amam perante a mortalidade dos seres amados.
Queremos muito que o Mestre João resista e viva mais anos, mas somos tão pouca coisa para ajudar, somos tão nada.
Estamos com o espírito na sua cama de hospital, no oxigénio que ele dificultosamente respira, na lembrança que decerto ele também vai tendo de nós.
Por mim, esforço-me por acreditar que ainda hei-de ver o Mestre João a sorrir desta prosa aflita e, quase de certeza, a fabricar de improviso uma piada ou um trocadilho genial.
Acontece que levei muitos anos a conhecer um santo. Seria cruel perdê-lo tão intempestivamente.
Ainda não isso, portanto, Senhor.

Coimbra, já 03 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Ronaldo, talvez pela última vez


Vou ver se, doravante, falo menos no Cristiano Ronaldo. Este textito é só, talvez, um último desabafo.
Revisões: o rapaz é um jogador absolutamente fabuloso. Tem velocidade, força, técnica, habilidade, espírito vencedor.
É, além disso, por muito que os invejosos do planeta inventem rótulos, um moço simples, de bem com a vida.
Em Portugal, alguns portistas não lhe perdoam um golo do outro mundo que marcou durante a Champions, numa das balizas do Dragão. Alguns benfiquistas ainda resmungam secretamente à lembrança de um certo dedo espetado ao alto, em fálica resposta a assobios na Luz. Luís Figo, conhecido em Espanha por "El Pesetero", não lhe perdoa desde 2004 que seja (muito) melhor do que ele. Os catalães odeiam-no por obrigação estatutária.
Mas Ronaldo sobrevive. Vi-o, ao longo de toda a temporada espanhola, jogar como ninguém. Talvez não haja, com a única excepção de Eusébio, quem se lhe compare na história do futebol português.
Acusam-no, agora, de não jogar para a equipa. É como se ralhassem com o Miguel Torga por não ter feito patuscadas com a malta; ou dizer ao Picasso que não é assim que se pinta; ou pedir à Dulce Pontes que não suba muito a voz para não se destacar dos outros.
Ronaldo é um solista, cambada! Que culpa tem ele se a orquestra é má e o maestro é um complexado, um empata-paixões (para não lhe chamar uma coisa mais à mão de dizer)?
Está-se mesmo a ver: vai ser preciso que Kaká, Sérgio Ramos, Rooney, etc. venham lembrar aos portugueses zangados que o número 7 da selecção é um altíssimo e raríssimo jogador para os auto-suficientes pátrios, por um segundo, suspenderem a baba zangada...
Ninguém pergunta ao Queiroz por que levou um jogador vulgar - sem ritmo, sem condição sequer clínica para jogar - ao Mundial (falo de Pepe); ninguém se questiona se valeu a pena queimar uma substituição, tirando (por óbvia exaustão) esse trinco inventado e inviabilizando a possível entrada de Deco; ninguém se interroga sobre o mistério que leva uma equipa com Simão, Dany, Liedson, Meireles, Miguel Veloso e Ronaldo a jogar como uma equipa de terceira divisão a quem, por capricho de sorteio, calhou jogar com os grandes do mundo.
Os estrangeiros ficaram aliviados com o adeus da selecção portuguesa. O motivo é simples: a nossa selecção a jogar à Queiroz meteu nojo! Salvou-se - arrepiai-vos, ó inquisidores do futebol pátrio - Ronaldo, o único que, a espaços, fez coisas diferentes, dignas da primeira divisão do futebol mundial.
Quem prefere não ver o óbvio, que se fique pela bajulice ao senhor professor. Que insulte Deco e Ronaldo (os únicos jogadores de top desta equipa) e santifique a vulgaridade bem comportada de Pepe, Tiago e Simão.
Cristiano Ronaldo teve este azar, semelhante ao de Joaquim Agostinho, Herman José, Miguel Torga ou Amália, de nascer português. O pior de tudo é que o rapaz - como, afinal, os outros nomeados - ama o seu país. Mas neste torrão pátrio parece florescer muito mais a inveja e a cegueira do que a bondade e o bom senso.
Atenção. Eu amo, mais pela literatura e pelas praias do que pelo futebol, esta terra onde nasci. Mas, confesso, tenho orgulho em ver brilhar, num verde rectângulo planetário, um artista como Cristiano Ronaldo.
Meu Deus! Bastaria que, para se evitar este ruído estúpido, os mísseis do rapaz houvessem entrado em vez de esbarrarem no poste! Ou que Jorge Jesus, que tem menos livros do que Queiroz mas sabe de futebol (ao contrário do letrado), tivesse feito o favor de treinar a selecção entre 20 de Maio e o final de Julho... Não é certo que fôssemos campeões; mas jogaríamos bem, sem medo e sem dar cabo da vida e da imagem de um dos melhores futebolistas de sempre.
Diz-me uma vozinha interior, muito prudente: "Joaquim Jorge, é preciso respeitar as opiniões dos outros..."
E eu: "Mesmo as dos burros?"
E a voz: "Mesmo as dos burros."
De modo que eu, agora, encolho respeitosamente os ombros de cada vez que um burro diz mal do Cristiano Ronaldo.

Ribeira de Pena, já 02 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida, com a devida vénia, no "Correio da Manhã", de 02-07-2010.]

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Coisa não chamável Fim


Disseram-me que o nosso Agrupamento vai acabar. Chamaram-lhe facto consumado. Anunciaram-me o fim.
Ora, senhores, o que temos sido, pelo menos no calendário recordável que há do Arco no meu coração, é uma coisa feita de amor pelos alunos e pela terra, de profissionalismo e de generosidade, de honra e dignidade, de teimosia bondosa na crença e descoberta do futuro.
Nós temos sido uma coisa feita de alma, senhores. Um projecto que nunca desistiu de sonhar e do voo cúmplice que pode haver entre os pés na terra e o verbo acreditar.
Há tanta gente no que nós temos sido, senhores: alunos, funcionários, colegas, famílias, gente do Arco e de Cavez (e gente dos arredores).
Éramos, pelo Arco, uma equipa digna e formosa. Éramos? Somos! Não se conjuga o imperfeito quando se trata de dignidade e formosura.
Não sei se este é o meu último texto para o jornal "Arco-Íris". Pelo sim, pelo não, aí vai um abraço especial para uma coisa chamada liberdade. Em sua singularidade própria, esta liberdade, vista do lugar onde me encontro, é uma senhora. Aliás, Senhora (com a maiúscula da admiração). Aliás, Senhorinha (com o sufixo do justo carinho).
Eu, que nunca me senti escravo sob a sua liderança, queria dizer-lhe isto aqui. Para currículo, não me parece coisa pouca. E, embora este meu texto acabe, senhores, não há fim para o que de essencial nele se diz.

Ribeira de Pena, 01 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Este texto foi escrito para o jornal "Arco-Íris", em Junho de 2010. Inscrevo-o aqui, agora, para que neste Muito Mar caiba também a saudade antecipada do "meu" Agrupamento. Certeza absoluta: vão maus os tempos para quem não se demite de ter coração.]