Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sábado, 10 de julho de 2010

Problema(s) de Memória


Vem na última página do “Correio da Manhã”, edição de 09-07-2010:
«Mário Mendes, secretário-geral da Segurança Interna, disse ontem que não se lembra do acidente na Av. da Liberdade e que, se for chamado [a tribunal], falará a favor do motorista.»
Compreende-se. Já passou algum tempo (talvez um ano). É normal que as pessoas se esqueçam – e, para mais, gente tão ocupada com assuntos tão importantes.
Percebe-se, aliás, melhor por que motivo os governos em Portugal faltam tão frequentemente às promessas eleitorais: o tempo passa, as pessoas esquecem-se.
Uma (impertinente) vozinha interior diz-me: “Mas eles têm programas onde as promessas estão escritas…”
Pois sim. Mas os dirigentes, adivinho eu, de tão ocupados com a governação, não devem ter tempo para ler os seus programas de governo. Tudo certo, portanto.

Coimbra já 10 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra representa Mnemosine, Deusa (grega) da Memória.]

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O amor quê


O amor mata.
Tenho, de livros, canções e filmes, muitos testemunhos desse poder. E eu acredito na verdade que há nos livros, nas canções e nos filmes.
Mas a nossa própria vida no-lo diz: o amor mata.
Basta pensar no facto de as pessoas que amamos serem capazes de, morrendo, nos matarem da sua falta.
Isto é, os seres amantes morrem (também) com a morte dos seres amados
E é, atentai, a mais cruel morte de todas: morremos e, contudo, estamos suficientemente vivos para não deixarmos de chorar.
É assim. Coisa muito bela e muito triste. O amor mata.

Coimbra, já 09 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Amigos


Tenho por auto-exigência que os meus textos, no Muito Mar, se não circunscrevam aos domésticos eventos do quotidiano, ou pelo menos que deles se dê literária conta apenas no sentido em que possam, pela leitura, universalizar-se.
Talvez o que se siga seja uma excepção.
Sei que há, hoje, uma sardinhada na minha Escola. Estou a 260 quilómetros, ando a fazer um tratamento dentário cruel e moroso, estou todos os dias em suspenso de notícias da minha família madeirense, e não vou ao Arco.
Mas queria estar, à dimensão das minhas possibilidades,com os professores e funcionários de um Agrupamento a muitos níveis exemplar.
Se eu tivesse de provar em tribunal que éramos (somos) um Agrupamento como deve ser, chamaria como testemunhas os principais beneficiários de tanta dedicação e tão subido profissionalismo: os alunos e, mais diferidamente, os pais e encarregados de educação.
Nas pessoas da Isabel Teixeira, do Feliciano, da Elsa, da Manuela, do Albino e da Senhorinha, quero aqui deixar uma flor. É bom sermos dirigidos por quem sabe dirigir. Foi uma honra ter servido sob vossa orientação. Sois parte do meu restrito mundo de amigos. Estimo-vos e admiro-vos.
Um copo à saúde do que fomos e do que havemos de ser.
Os alunos e as famílias acompanham-me, seguramente, no gesto (os alunos com sumo, como é óbvio).
Disse o Antonio Machado (cito de cor): Caminero, no hay camino / El camino se hace andando...
Sigamos, pois.

Coimbra, 07 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida, com a devida vénia, em http://www.malmaior.blogspot.com.]

Brasa


Inclemente, o sol assola a cidade.
Homens e mulheres desistem, em desigual cadência, do decoro e vão-se despindo.
De Celas à rua da Sofia só não é Copacabana porque falta o mar. Muito afogueadas, as senhoras destilam – do cabelo aos pés – as torradas e o chá do inverno engordante. Uma à minha frente, na esplanada, sopra para dentro da blusa (refrigerando os globos) e abana a saia (arejando o universo).
É à distância que o sofrimento feminino é sensual. De perto, é tudo tão óbvio de penoso que, em vez de mulheres belas, percebe-se apenas a cruel mortalidade delas.
Além, um senhor muito gordo, com pasta preta, cumprimenta de passagem o operário à porta da oficina de automóveis; o gordo deve ter dito uma piada sobre o calor porque o homem de fato-macaco ri-se e responde-lhe com um palavrão, distraindo-se ambos logo a seguir um do outro, porque um corpo juvenil de calçãozinho mínimo passa. Demora tudo não mais que três segundos, e segue-se a humilhação habitual que é o cabrão do desejo rir-se deles por dentro.
Derivação machista: se houvesse mar e não tivéssemos esta mundial crise pesando sobre o presente e sobre a esperança, seria este o lugar certo para um homem estar. O lugar certo para fingir que o tempo não passa. O lugar certo para fazer de conta que o corpo e a mente são ainda sensíveis ao cheiro da caça, e capazes da fome, e à altura da predação.
Um velhinho interrompe o trânsito, ao Arnado, atravessando a rua com vagares de bengala doente. O terrível calor deve acelerar-lhe a morte. Há depois um claxon impaciente contra a velhice. Eu estou atrás, olhando de viés esta parte de Coimbra. Vou ouvindo Simon & Garfunkel no aconchego do ar condicionado.
Sigo para a Casa da Cultura, onde trabalharei na revisão bibliográfica da tese. Na galeria Pinho Dinis, há uma exposição sobre Alberto Sampaio (homem importante das filosofias e – descubro agora – também da vitivinicultura). Já sabia que fora contemporâneo e amigo de Antero de Quental. A exposição compreende cartas trocadas entre os dois (sobre vinhos, amizade e tempo). Gosto sempre destas literaturas epistolares.
Coincidência interessante: na parede fronteira à minha mesa de trabalho, diviso vários poemas em caracteres garrafais, e o mais próximo é de Antero. Sirvo-me da última quadra para terminar este escrito, começado mentalmente a 40 graus e terminado no remanso burguês de uma sala fresca:

Mas dize tu, ó Mondego
Pois todos levam seu fado
Tu que foges e eu que fico
Qual de nós vai mais pesado?

Coimbra, 06 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida, com a devida vénia, em http://www.skyscrapercity.com.]

terça-feira, 6 de julho de 2010

Penso, logo, desconfio


Hoje, fui a um Banco tratar de assuntos familiares. Tratava-se de entregar alguma documentação e, por hábito, solicitei uma declaração confirmando que os documentos haviam sido, de facto, recebidos pela delegação bancária em causa.
Uma gentil senhora, funcionária naquele Banco, trouxe-me uma folha A4 em branco e solicitou-me que assinasse ao fundo do rectângulo. Percebendo o meu espanto, tranquilizou-me maternalmente:
- Não tenha medo, assine à vontade. Depois, nós imprimimos uma declaração dizendo que o senhor nos trouxe os documentos, e enviamos-lhe tudo para casa.
Recusei o convite, obviamente. A senhora, estupefacta com a minha atitude, lá foi buscar um carimbo para apor nas cópias das folhas que eu entregara e ofereceu-mas, pouco amigavelmente.
Pude perceber a acrimónia de mais alguns funcionários do Banco, face à minha pessoa.
Ainda me parece que esta minha desconfiança é sensata. Ainda me parece que, na história narrada, a anormalidade não está na minha desconfiança.
Mais: ao que sei, foi por confiança em excesso que o sistema bancário mundial ruiu.

Coimbra, já 06 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Em Prosa


Sou amigo do maior poeta português vivo. Eu também faço versos, quando não sou capaz de me exprimir de outro modo. Mas somos, no modo e na dimensão, diferentes. Nisto da poesia, o meu amigo é uma espécie de Mozart e eu sou um moço jeitoso da banda local.
O meu amigo diz, melhor que ninguém, em verso, a vida (dele, minha, de toda a gente). Só não aprendeu ainda a viver.
É sobre isso que eu tenho de falar com ele. Em prosa muito denotativa.
A grandeza de um homem, mesmo quando se trata de um artista, também se mede por esta dimensão chã de ouvir os outros sobre si e de, pelos outros e por si, se salvar do perigo maior que há na nossa vida: não (a) viver.

Coimbra, já 05 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 3 de julho de 2010

Espécie de oração


O Mestre João, senhor meu sogro, está a lutar pela vida.
À pressa, a MP e a VL vão para a Madeira. Eu estou atado a Coimbra, por imperativos de trabalho.
Não há mundo suficiente para medir a aflição dos seres que amam perante a mortalidade dos seres amados.
Queremos muito que o Mestre João resista e viva mais anos, mas somos tão pouca coisa para ajudar, somos tão nada.
Estamos com o espírito na sua cama de hospital, no oxigénio que ele dificultosamente respira, na lembrança que decerto ele também vai tendo de nós.
Por mim, esforço-me por acreditar que ainda hei-de ver o Mestre João a sorrir desta prosa aflita e, quase de certeza, a fabricar de improviso uma piada ou um trocadilho genial.
Acontece que levei muitos anos a conhecer um santo. Seria cruel perdê-lo tão intempestivamente.
Ainda não isso, portanto, Senhor.

Coimbra, já 03 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Ronaldo, talvez pela última vez


Vou ver se, doravante, falo menos no Cristiano Ronaldo. Este textito é só, talvez, um último desabafo.
Revisões: o rapaz é um jogador absolutamente fabuloso. Tem velocidade, força, técnica, habilidade, espírito vencedor.
É, além disso, por muito que os invejosos do planeta inventem rótulos, um moço simples, de bem com a vida.
Em Portugal, alguns portistas não lhe perdoam um golo do outro mundo que marcou durante a Champions, numa das balizas do Dragão. Alguns benfiquistas ainda resmungam secretamente à lembrança de um certo dedo espetado ao alto, em fálica resposta a assobios na Luz. Luís Figo, conhecido em Espanha por "El Pesetero", não lhe perdoa desde 2004 que seja (muito) melhor do que ele. Os catalães odeiam-no por obrigação estatutária.
Mas Ronaldo sobrevive. Vi-o, ao longo de toda a temporada espanhola, jogar como ninguém. Talvez não haja, com a única excepção de Eusébio, quem se lhe compare na história do futebol português.
Acusam-no, agora, de não jogar para a equipa. É como se ralhassem com o Miguel Torga por não ter feito patuscadas com a malta; ou dizer ao Picasso que não é assim que se pinta; ou pedir à Dulce Pontes que não suba muito a voz para não se destacar dos outros.
Ronaldo é um solista, cambada! Que culpa tem ele se a orquestra é má e o maestro é um complexado, um empata-paixões (para não lhe chamar uma coisa mais à mão de dizer)?
Está-se mesmo a ver: vai ser preciso que Kaká, Sérgio Ramos, Rooney, etc. venham lembrar aos portugueses zangados que o número 7 da selecção é um altíssimo e raríssimo jogador para os auto-suficientes pátrios, por um segundo, suspenderem a baba zangada...
Ninguém pergunta ao Queiroz por que levou um jogador vulgar - sem ritmo, sem condição sequer clínica para jogar - ao Mundial (falo de Pepe); ninguém se questiona se valeu a pena queimar uma substituição, tirando (por óbvia exaustão) esse trinco inventado e inviabilizando a possível entrada de Deco; ninguém se interroga sobre o mistério que leva uma equipa com Simão, Dany, Liedson, Meireles, Miguel Veloso e Ronaldo a jogar como uma equipa de terceira divisão a quem, por capricho de sorteio, calhou jogar com os grandes do mundo.
Os estrangeiros ficaram aliviados com o adeus da selecção portuguesa. O motivo é simples: a nossa selecção a jogar à Queiroz meteu nojo! Salvou-se - arrepiai-vos, ó inquisidores do futebol pátrio - Ronaldo, o único que, a espaços, fez coisas diferentes, dignas da primeira divisão do futebol mundial.
Quem prefere não ver o óbvio, que se fique pela bajulice ao senhor professor. Que insulte Deco e Ronaldo (os únicos jogadores de top desta equipa) e santifique a vulgaridade bem comportada de Pepe, Tiago e Simão.
Cristiano Ronaldo teve este azar, semelhante ao de Joaquim Agostinho, Herman José, Miguel Torga ou Amália, de nascer português. O pior de tudo é que o rapaz - como, afinal, os outros nomeados - ama o seu país. Mas neste torrão pátrio parece florescer muito mais a inveja e a cegueira do que a bondade e o bom senso.
Atenção. Eu amo, mais pela literatura e pelas praias do que pelo futebol, esta terra onde nasci. Mas, confesso, tenho orgulho em ver brilhar, num verde rectângulo planetário, um artista como Cristiano Ronaldo.
Meu Deus! Bastaria que, para se evitar este ruído estúpido, os mísseis do rapaz houvessem entrado em vez de esbarrarem no poste! Ou que Jorge Jesus, que tem menos livros do que Queiroz mas sabe de futebol (ao contrário do letrado), tivesse feito o favor de treinar a selecção entre 20 de Maio e o final de Julho... Não é certo que fôssemos campeões; mas jogaríamos bem, sem medo e sem dar cabo da vida e da imagem de um dos melhores futebolistas de sempre.
Diz-me uma vozinha interior, muito prudente: "Joaquim Jorge, é preciso respeitar as opiniões dos outros..."
E eu: "Mesmo as dos burros?"
E a voz: "Mesmo as dos burros."
De modo que eu, agora, encolho respeitosamente os ombros de cada vez que um burro diz mal do Cristiano Ronaldo.

Ribeira de Pena, já 02 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida, com a devida vénia, no "Correio da Manhã", de 02-07-2010.]

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Coisa não chamável Fim


Disseram-me que o nosso Agrupamento vai acabar. Chamaram-lhe facto consumado. Anunciaram-me o fim.
Ora, senhores, o que temos sido, pelo menos no calendário recordável que há do Arco no meu coração, é uma coisa feita de amor pelos alunos e pela terra, de profissionalismo e de generosidade, de honra e dignidade, de teimosia bondosa na crença e descoberta do futuro.
Nós temos sido uma coisa feita de alma, senhores. Um projecto que nunca desistiu de sonhar e do voo cúmplice que pode haver entre os pés na terra e o verbo acreditar.
Há tanta gente no que nós temos sido, senhores: alunos, funcionários, colegas, famílias, gente do Arco e de Cavez (e gente dos arredores).
Éramos, pelo Arco, uma equipa digna e formosa. Éramos? Somos! Não se conjuga o imperfeito quando se trata de dignidade e formosura.
Não sei se este é o meu último texto para o jornal "Arco-Íris". Pelo sim, pelo não, aí vai um abraço especial para uma coisa chamada liberdade. Em sua singularidade própria, esta liberdade, vista do lugar onde me encontro, é uma senhora. Aliás, Senhora (com a maiúscula da admiração). Aliás, Senhorinha (com o sufixo do justo carinho).
Eu, que nunca me senti escravo sob a sua liderança, queria dizer-lhe isto aqui. Para currículo, não me parece coisa pouca. E, embora este meu texto acabe, senhores, não há fim para o que de essencial nele se diz.

Ribeira de Pena, 01 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Este texto foi escrito para o jornal "Arco-Íris", em Junho de 2010. Inscrevo-o aqui, agora, para que neste Muito Mar caiba também a saudade antecipada do "meu" Agrupamento. Certeza absoluta: vão maus os tempos para quem não se demite de ter coração.]

Coisa Chamada Presente


É, ai de nós, pequeno o tempo que a vida nos dá. Não apenas esse tempo que se mede em anos, meses, dias, horas, mas o outro – o dos séculos anteriores e posteriores a nós.
Eu sinto em mim a sede dessa água que não cabe nos limites da canalização contemporânea. Também se morre da sede de passados e de futuros.
Descubro parte disto que me falta olhando coisas-símbolo à volta: um livro, uma casa, um barco, uma fotografia, uma estátua, uma carta, um pai, uma mãe, uma tia, um sogro, um cunhado, um amigo da segunda classe, uma avó, uma moeda fora de circulação (num frasco de café sem café, mas cheirando ainda a café), uma lenda, uma canção, um sonho, uma efeméride, uma praia, um cromo, uma garrafa de licor caseiro, uma rua, um nome, um provérbio, uma estatística, uma lápide, uma árvore, um rio, uma capa de estudante, um medicamento novo, um vulcão velho, uma doença recente, uma dança antiga, uma tecnologia de vanguarda, uma charrua, um caroço talvez semente, uma filha, sete sobrinhos, uma cadela, um verso meu num caderno adolescente do século XXII, uma cidade outra desta que hoje chamo minha, a noite, o sol.
Sim, vejo muito bem, no meu presente tão deficitário, tudo isto ou a sua ausência.
Cansa-me, por isso, a pobreza de um presente assim tão virado para o próprio umbigo. O presente assim é apenas um instante de espuma. O presente assim não basta.
O presente tem de ser mais que a pobre aparência deste presente.
E se, amigos, viésseis comigo ao passado e ao futuro, perceberíeis decerto melhor esta verdade que aqui, no presente, vos deixo.

Ribeira de Pena, 01 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Este texto foi escrito, em Maio, para o 2.º número do jornal "Arco-Íris", neste ano lectivo de 2009/2010. A foto-supra foi colhida - com a devida vénia - em http://www.forumcoimbra.com.]

África deles


Tínhamos dois laterais direitos (Miguel e Paulo Ferreira) que, em termos de valor absoluto, não são grande coisa, mas eram os que tínhamos.
Tínhamos um trinco (Pedro Mendes) que, em termos de valor absoluto, não é grande coisa, mas era o que tínhamos.
Tínhamos um médio criativo (Deco) que, em termos de valor absoluto, era dos melhores do mundo, embora não fosse português.
Carlos Queiroz optou por um falso lateral (Ricardo Costa) que, para além de atacar pouco ou nada, defendeu mal. Questão – digo eu – de falta de rotina(s).
Optou por um falso trinco (Pepe) que, para além de lento a defender, foi lento e desajeitado a atacar. Questão – digo eu – de falta de rotina(s).
Optou por deixar de fora Deco, convencido de que certo Tiago goleador (“goleador” contra o Olhanense ou o Leixões do Mundial – a Coreia) também serviria para a Espanha. Eu creio que, lá na sua professoral cabeça cheia de medo, ainda havia a possibilidade de incluir Deco durante a segunda parte. Mas Pepe saiu esgotado (como já acontecera, menos dramaticamente, contra o Brasil) e assim se queimou uma substituição. Entraram Dany, Liedson e Pedro Mendes – e já não pôde entrar o mágico brasileiro que esta selecção nunca bem teve.
A culpa de a Espanha ser melhor do que nós não é dos portugueses; é da Espanha, que tem um meio-campo como o que, em 2004, tínhamos nós. Mas a falta de qualidade (de atitude, de elegância e de eficácia ofensiva) é “nossa”. Aliás, é de Queiroz.
Que pena tive de Ronaldo, utilizado sempre como se se tratasse do craque de uma equipa de terceira divisão que visitasse a Luz, Alvalade ou o Dragão – servido à base de pontapés longos, sem apoio, sem fio de jogo! Quem não sabe nada de futebol há-de culpar o genial madeirense, eu sei. Mas quem gosta (e sabe um bocadinho) de futebol não cairá nesse erro. Muito gostariam os brasileiros, os espanhóis, os italianos ou os ingleses de ter Ronaldo!
O destino, por razões que se calhar até a Nosso Senhor escaparão, fez muito cedo de Carlos Queiroz um campeão mundial (de sub-20). Foi há umas duas dezenas de anos. Esse acaso dificulta, por momentos, que se perceba neste treinador a característica que fundamentalmente o marca: o medo, a gritante falta de audácia, os complexos, a incompetência.
Tirando a acidental Coreia, atacámos o zero. Fomos (quase) zero.
Jorge Jesus talvez seja a antítese do actual treinador de Portugal. Em vez de livros e teoria, tem a paixão do jogo e a ousadia. Com o benfiquista ao leme da selecção, talvez perdêssemos de qualquer modo com a Espanha, mas teríamos deixado a identidade própria do futebol português: qualidade, beleza, prazer do bom futebol.
Com Mourinho, que leu os livros de Queiroz mas é mentalmente mais forte, talvez o futebol fosse também, aqui e ali, queiroziano, mas a atitude seria certamente diferente da que patenteámos no Mundial da África do Sul.
Se o senhor Carlos Queiroz honrosamente se demitisse já, renunciando a indemnizações principescas, eu perdoava-lhe parte deste desgosto que, desde as 21h30m do dia 29 de Junho, me enevoa a alma. Mas, como diria o outro, “Tá bem, tá”.

Ribeira de Pena, já 01 de Julho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A Coligação Relativista


Há, desde Pedro, Papas e Papas. Bons e maus, está-se mesmo a ver. Em muitos casos, para se dizer qual é o melhor, venha o diabo e escolha.
Um dos que mais pancada tem levado é este, o alemão Ratzinger.
Não hei-de ser eu a defendê-lo, Deus me livre. Mas tenho de confessar que, nos últimos tempos, dou por mim a citá-lo ou a lembrar-me de coisas que ele escreveu e eu, diferida ou directamente, pude ler.
A primeira é a de que a fé se deve (também) provar pela razão. Esta noção conduz a uma versão melhorada da metáfora do rebanho: em vez de uma carneirada acrítica e estúpida, há afinal gente que não abdica de, em defesa das suas convicções mais profundas,reflectir.
A segunda é a do combate ao "relativismo moral". Bem sei que estou em terreno perigoso,movediço, difícil. Mas acho - cada vez mais - que a humanidade não cresce sem linhas definidas sobre verdade e mentira; justiça e injustiça; certo e errado; beleza e fealdade.
Os relativistas militantes dir-me-ão: justiça, verdade, correcção e beleza são conceitos vagos, indeterminados, susceptíveis de interpretação diversa. Ou, como um dia disse Pina Moura, em despudorada viagem de parlamentar a alto dirigente da Iberdrola, "a minha [sua] ética é a republicana - se é legal, é justo". [Cito de cor.]
O tanas, Dr. Pina Moura!
A verdade é a verdade é a verdade é a verdade. O justo é o justo é o justo é o justo. (E, já agora, a lembrar-me da comissão parlamentar sobre a TVI, estas certezas compreendem o "valor" das escutas, por muito ilegais que sejam!)
Creio profundamente que precisamos, hoje, de verdade. Precisamos de referências e de gente que represente princípios. Precisamos de ideologia (de falar de esquerda e de direita). Precisamos de autoridade moral.
Pilar, a viúva de Saramago, dirigindo-se a Mário Soares (ver J.N., ed. de 28-06-2010), disse-lhe: "Continue assim. Precisamos da sua autoridade, mesmo que seja para a discutir."
Sócrates e Passos Coelho, lá no íntimo, mais do que social-democratas ou socialistas, são relativistas.
O Partido Relativista é o mais poderoso e perigoso partido da actualidade.

Ribeira de Pena, 28 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 27 de junho de 2010

Avô e luz


O meu avô António tinha a mania dos candeeiros. Nenhum objecto estava livre de, por suas mãos, se tornar numa fonte de luz.
Talvez na Pedrulha houvesse quem nesta mania visse a prova provada da senil doidice. Outros, mais ingénuos, murmurariam sobre o génio criador do velho.
Eu, que estive tantas vezes junto dele até o perder, sei que se tratava sobretudo de uma questão de tempo e de dignidade: o meu avô queria ocupar as horas reformadas de forma útil e entretinha-se assim.
Entreter, como entretecer, é verbo lindo: entre-ter; ter entre; entre-tecer; tecer entre.
António dos Reis Mateus, pai de minha mãe Delfina, fazia candeeiros entre horas. Isto é, tecia luminosamente as horas que (ainda) tinha, entre todas as suas manhãs e a noite final.
Eu dou por mim à escrita, muitas vezes, como quem faz candeeiros. Nem senil, nem génio. Isto só: precoce avô do mundo, dignamente derrotado pelo tempo.

Ribeira de Pena, 27 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Feriados neoliberalizados


Tias e tios da deputação andam preocupados com as “pontes” dos portugueses. E vai daí que fazem? Depois de muita força a pensar, aliviam-se de uma proposta muito neoliberal e moderna: mudar as datas dos feriados (ou suprimi-los). Para algumas aventesmas, celebrar o 25 de Abril ou o 1.º de Maio ou o 5 de Outubro num dia outro do mês não retira importância à celebração e sempre impede este irresponsável povo português de sonhar com descansos prolongados (tão inimigos da produtividade). As tias e os tios, que tão facilmente se ausentam da assembleia pelos mais avulsos motivos, não suportam que o empregadito de escritório, o funcionário dos correios, o motorista de autocarros, a educadora de infância ou a menina do call center se auto-atribuam uma segunda-feira ou uma sexta a comer pizza na praia de Mira ou na Caparica.
Mas o mais triste desta proposta, que o grupo parlamentar socialista defenderá doravante com a mesma garra que lhe merece a imposição de portagens nas scut (e outrora lhe mereceu a luta contra as portagens nas scut) é o desrespeito absoluto pela natureza do simbólico.
As datas não são, regra geral, um acaso. O símbolo tem uma dimensão física, material, terrena – só daí voando para a sua significação lata, extensiva, maior. O 25 de Abril, o 1.º de Maio, o 5 de Outubro – entre outras datas – só podem ser celebrados dignamente nos dias 25 de Abri, 1 de Maio e 5 de Outubro.
Nem a Sagrada Economia Toda-Poderosa (prima direita de Sua Eminência, a Hipocrisia Neoliberal), que tutela todos os actos e pensamentos de certa deputação, poderá alterar esta realidade. E contudo...

Ribeira de Pena, 27 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 26 de junho de 2010

Viagem vista do Berço







Durante o ano lectivo de 2008/2009, leccionei a disciplina de Estudos Literários na Universidade Sénior de Cabeceiras de Basto.
Durante alguns meses, levei a turma a territórios consabidos de modos e géneros. Visitámos, por exemplo, Júlio Dinis e algum Eça, na narrativa; Fernando Pessoa, Ruy Belo, Manuel António Pina, Eugénio de Andrade, Jorge Sousa Braga e Daniel Abrunheiro, na poesia; Sttau Monteiro, Saramago e Garrett, no drama.
Em boa verdade, tratou-se de uma viagem que era muitas viagens, tão difusa e rica é a pátria da literatura em versão de língua portuguesa. Comigo viajaram os alunos seniores, público cheio de interesse, de energia e de vontade de participar. As aulas – ou sessões, como eu preferi sempre chamar-lhes – foram sobretudo um encontro: eu com os meus estudantes-colegas-cúmplices; nós com os textos-os autores-os mil países de sentido & beleza que há nas palavras com mundo dentro.
Um dia, depois de estoicamente me haverem aturado a teoria, sugeriram a possibilidade de experimentar o teatro. Não faltou quase nada para eu os desafiar a tal. Outra vez a ideia de viagem me serve para explicar a magnitude do que decidimos fazer: imaginai, digamos assim, um mar entre nós e o que queríamos; imaginai um barco à espera de gente que tratasse das velas e que, à falta de vento, remasse. Isso mesmo: era uma vez uma peça de teatro à espera de tornar-se realidade.
Marcámos a navegação para o ano lectivo de 2009-2010. Compromissos académicos obrigaram-me a adiar o arranque para Janeiro do presente ano. Hesitantes à partida, aparelhámo-nos em terra (com texto que servisse, teoria q.b., leituras, experiências) e depois fizemo-nos ao mar.
A nossa Índia aconteceu ontem, no Auditório do Mercado Municipal de Cabeceiras, pelas 21h30m. Na presença de muito público, representámos "Romeu e Julieta - Versão Sénior". Como adivinharão, não se tratou simplesmente de uma peça de teatro: foi o porto merecido de uma inteira equipa que se atreveu a sonhar uma viagem difícil apenas - ou sobretudo - porque era uma viagem bela.
Séniores? Só se for no pormenor do bilhete de identidade. Se, como eu profundamente acredito, ser jovem é ser portador de novidade, então estes senhores e estas senhoras estão na flor da vida.
Foi um prazer encenar tão querida e talentosa gente. É uma honra tê-los como Amigos.

PS: Aos amigos supra-ditos (Lucinda, Alice, Arminda, Joaquim, Barroso, Olga, Filomena, Manuel Carneiro, Teresa Mendes, Alcina, Fernanda, Ana, Teresa Ramos, Pereira, Ferreira, Alexandre) acrescento a Rosa Pires e a Nani, que nos ajudaram com eficiência e doçura invulgares.

Ribeira de Pena, já 26 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Oportunamente, espero recordar este acontecimento com outras fotos obtidas in loco.]