Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sexta-feira, 4 de junho de 2010

2 Poemas do (meu) Milésimo


1. Falta de Mar

Aqui
O voo dos pássaros são ondas
Mas não há mar.

A distância tem a profundura dos oceanos
Mas não há mar.

O verde a sul da lua são algas boiando
Mas não há mar.


Se aqui houvesse mar
Em vez deste poema eu faria
Um barco.


2. Rios aqui

Os rios (sabe-se) correm para o mar.

O mar (aqui) não se vê
Mas existe.

O limite dos meus olhos é ainda o rio
Mas havendo fé no olhar
O limite é o mar.

O mar é o que há para lá do que vejo
Uma espécie de Deus
No meu poema.

Em mim escrever é sobretudo uma forma
De acreditar.
Não acreditar é uma modalidade de inferno
Mas escreve-se também.


Ribeira de Pena, já 04 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma primeira versão destes 2 textos foi escrita em 1996, integrando o volume de poesia Milésimo de Torga. Foto JJC.]

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Quatro Poemas do (meu) Milésimo


1. A Lua

E disse Deus aos homens e aos montes:
Eu vos declaro unidos
Até que o Norte vos separe.

Sendo certo que o norte do norte máximo
É a lua –
Ficou para sempre o amor do homem
Com medo dos céus.


2. As estrelas

A meu modo, pesco estrelas
Com santa paciência e bondade,
Inutilmente –

Quando sorriem, trans-rainhas de mim
De lá de cima
É evidente e brilhante a minha derrota
Mas também
O meu destino.



3. O destino

Os outros
São seres à superfície
Rentes à vista.
Mas eu não –

Sou água milenar das profundezas
Sub-cave da montanha mais alta
Rés-do-chão das algas no lugar do mar.

A minha identidade é um caminho:
Não nasço, ergo-me
E meus passos são uma teimosia
Contra o vento.

Todas as brisas existem contra mim
E cada sopro adversário é uma faca
E cada gesto meu é uma agilidade
E cada resistência é uma ferida.

Não fujo
Não posso
Não quero fugir.
A morte de mim será uma cicatriz florescendo
E haverá no devir do pus, da dor
Uma rosa-lápide cheirando a alma
E a sangue silvestre.

Ergo, sum.
Não fujo
Não fico
Vou
Vou sempre!


4. O milagre

Uma coisa chamada mão encontrou-me
E a minha mão encontrou uma coisa chamada mão.
A coisa chamada mão deu-se-me
E eu dei a minha mão à coisa chamada mão.

A este milagre
(complexo, na aparência enunciatória)
Chama-se mãos dadas
Ou luz.


Ribeira de Pena, 02 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma primeira versão destes 4 textos foi escrita em 1996, integrando o volume de poesia Milésimo de Torga. Foto JJC.]

Caeiro, Senhor


O senhor Caeiro é um heterónimo de Deus.
O senhor Caeiro é um pastor (isso
está escrito).
O senhor Caeiro é muito meu vizinho
E pobre.
O senhor Caeiro vive viuvamente
Num casebre.

Ninguém sabe se o senhor o Caeiro é o Caeiro
De Pessoa –
Essa é a maior prova de ele ser o Caeiro
De Pessoa
(Deus, portanto).

O senhor Caeiro tem mau hálito
(Mas ao cantar não parece –
Os seus versos são silvestres como água
Limpa.)

O senhor Caeiro é o meu pastor
Preferido.


Ribeira de Pena, já 02 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Escrevi uma primeira versão deste texto em 1996, integrando-o, então, no volume Milésimo de Torga. A imagem-supra é de Silva Porto (1850-1893) e foi colhida – com a devida vénia – em http://www1.ci.uc.pt.]

Rato do Futuro


Disse o urbano hamster para o amigo transmontano:
- E o fumo, e os carros, e o cimento (que são o mundo), onde estão?
Respondeu o transmontano rato:
- Vê tu ali o monte chamado da estupidez. Vê, depois, o monte mais alto dito do futuro. Há no meio dos dois um monte que ainda não se vê: aí encontras as ausências que procuras.
Esta conversa ocorreu no cimo de um monte chamado da memória (a quilómetros da vila onde resido), juntinho à estrada onde viria a morrer, atropelado por um automóvel de matrícula estrangeira, o hamster urbano com saudades do fumo.


Ribeira de Pena, já 02 de Junho de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Escrevi uma primeira versão deste texto em 1996, integrando-o, então, no volume Milésimo de Torga. A imagem-supra é do filme Ratatouille (2007), de Brad Bird, e foi colhida – com a devida vénia – em http:www.adorocinema.com.]

terça-feira, 1 de junho de 2010

Casa procura Inquilino


Era uma vez um livro sem mim
Era uma vez uma casa vazia
Era uma vez o silêncio da solidão

Era uma vez um leitor
Era uma vez eu entrando num livro
Era uma vez uma casa habitada

Era uma vez a leitura
Era uma vez uma luz feita de palavras
Era uma vez uma casa iluminada no meu coração

Era uma vez um livro comigo

Era uma vez um livro sobre mim


Ribeira de Pena, 31 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema foi escrito em Coimbra, em 2009, a pensar na actividade “Manjar das Letras” que o Agrupamento de Escolas de Ribeira de Pena levou a efeito, com supervisão da MP. A imagem-supra é a da capa de As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, numa edição da Relógio d’Água, 2009.]

domingo, 30 de maio de 2010

Escuridão


A escuridão é uma estrada grande
Aflita, misteriosa e engarrafada.
Além disso
Não existe.


Ribeira de Pena, 30 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma primeira versão deste texto foi escrita em 1996, integrando o volume de poesia Milésimo de Torga. Foto JJC.]

Alvão universal


Deste espaço ao alto do Alvão
Vejo tantas coisas e tão vivas
Rindo da ideia de nação
E de pátrias administrativas!
Sabei que esta beleza mundial
Esta poesia antes do verso
É evidência só do universo
E de Deus redondo, Deus geral.
A única coisa portuguesa
Que do Alvão lobrigo
Quando escrevo-digo
O que escrevo-digo
Sou eu e a língua portuguesa.
Mas
A culpa não é do Alvão
Desta paisagem
Do meu olhar vizinha,
Ou deste irregular chão
De viagem:
É minha
Apenas minha.

Ribeira de Pena, 30 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma primeira versão deste texto foi escrita em 1996, integrando o volume de poesia Milésimo de Torga. A imagem-supra foi colhida - com a devida vénia - em http://cm-vilareal.pt.]

sábado, 29 de maio de 2010

Auto mínimo sobre a Verdade e a Morte


CRISTO: De modo que ressuscitei, para os homens acreditarem na vida eterna.
PLATÃO: E eles acreditaram?
ZÉ POVINHO: Eu cá não acreditei totalmente, digo-vos, mas pelo sim pelo não porto-me bem…
PLATÃO: Mas que queres dizer com isso?
CRISTO: Não percebes? Este homem de boa vontade sabe, em seu coração, que o caminho do bem leva à vida eterna…
PLATÃO: E vós, Jesus de Nazaré, acreditais nisso?
CRISTO: Pois se eu próprio sou a vida eterna, Platão…
PLATÃO: A única vida eterna é a soma de todas as vidas provisórias que aos homens é dado viver.
ZÉ POVINHO: Se a conversa mete contas, retiro-me já…
CRISTO: As verdadeiras contas é meu Pai quem as faz.
PLATÃO: Mas vós já tendes idade para fazer contas sozinho.
CRISTO: Amigo grego, lamento muito que não tenhas fé. Sem esse dom, jamais poderás acreditar seja no que for!
PLATÃO: Eu acredito em algumas coisas. Por exemplo, na necessidade da verdade…
CRISTO: E na necessidade do bem?
PLATÃO: O bem é necessário, sem dúvida. Mas o bem é o mesmo que a verdade.
ZÉ POVINHO: Eu cá gostava era de viver num mundo justo!
PLATÃO: Zé, escuta-me: a justiça, o bem e a verdade são a mesma coisa.
CRISTO: Pois eu sou essa Coisa completa que tu dizes. Sou a justiça, a verdade e o bem.
ZÉ POVINHO: E por isso estais no céu... Bem dizíeis vós que o vosso reino não era deste mundo!
PLATÃO: Pois o que o mundo precisava era que o reino dos céus não fosse nos céus.
CRISTO: Tens a certeza?
PLATÃO: Sou homem. Não tenho a certeza de nada. Mas sei que a justiça, o bem e a verdade valem a pena aqui e agora, no mundo dos homens…
ZÉ POVINHO: A mim tal me parece também, Jesus… Sem querer ofender, bem entendido…
CRISTO: Mas vós os dois, dizei-me, que sabeis afinal da justiça, do bem, da verdade?
PLATÃO: Eu sei delas o que se sabe quando nos falta o que nos faz falta.
ZÉ POVINHO: Platão, explique-se lá melhor, por favor, para eu ver se estou de acordo…
PLATÃO: É simples. Sabemos algo sobre a justiça quando sentimos a injustiça…
ZÉ POVINHO: Bem pensado. Percebemos que nos faz falta o contrário do que sofremos, não é? O meu avô dizia que o remédio começa na doença…
CRISTO: Escutai-me, ambos. A única verdade, neste mundo mortal, é a morte.
PLATÃO: É esse o maior problema da humanidade, tendes razão.
CRISTO: E tu, filósofo sem fé, como o resolves?
PLATÃO: Aceitando a morte, por ser verdade a morte.
CRISTO: Ah! Resolves um problema, aceitando-o?
PLATÃO: A verdade é a verdade. A verdade resolve. A verdade nunca é um problema.
ZÉ POVINHO: Ou, como dizia o meu avô, o que não tem remédio remediado está!
CRISTO: Chega! É a última vez que vos trago comigo em passeio sobre as águas do rio Jordão.

Vila Real, 29 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra (rio Jordão) foi colhida, com a devida vénia, em wikipedia.]

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Nota mínima sobre o número máximo de deputados


Este frenesim da austeridade tem pelo menos um lado positivo: mostrar, sem diáfanos mantos de fantasia ou eufemismos, a nudez forte do desperdício de fundos públicos que em muitas repartições do Estado vem durando há anos. Ora, depois de casa roubada, trancas na porta. O país anda de calças na mão, à vista de toda a gente, equacionando drásticos cortes na despesa.
Voltou entretanto ao debate, neste contexto agreste da crise económico-financeira, a questão do número de deputados e (adivinha-se) do sistema eleitoral português. Corre na internet, aliás, uma petição a exigir a diminuição do total de parlamentares com assento na Assembleia da República. É uma ideia cheia de bondade, mas também ingénua e até perigosa.
Visto o problema de repente, estamos todos condenados a concordar: poupa-se dinheiro, reduzindo os indivíduos à mesa do orçamento republicano; aperta-se o crivo da qualidade dos deputados, expulsando medíocres que tanto faz que lá estejam como não; renova-se a dinâmica do trabalho parlamentar, fazendo-se o mesmo ou melhor com menos recursos. Mas esta é, perdoai, uma visão superficial do problema.
A redução do número de deputados implicaria, se feita à pressa e sem critério, uma redução sobretudo da qualidade da vida democrática. Objectivamente, redundaria – para já – na quase extinção dos grupos parlamentares dos partidos mais pequenos. Mas eu creio que forças como o CDS-PP, o PCP e o Bloco de Esquerda são importantes, não obstante a sua menor expressão eleitoral na actualidade.
É preciso pensar no que seria do debate político e do exercício da governação se à compita estivessem apenas o PS e o PSD, repetindo-se e perpetuando-se no poder em disfarçadas poses de alternância.
Talvez esse modelo trouxesse “estabilidade”, mas só se por estabilidade entendermos aquela calma que, segundo se crê, há nos cemitérios municipais.


Ribeira de Pena, 28 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra (a famosa Porca, de Rafael Bordalo Pinheiro) foi colhida - com a devida vénia – em http://raivaescondida.wordpress.com.]

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Direito à moderada alienação


Leio no JN de hoje a história de um português de 38 anos que foi ver um treino da selecção portuguesa, tendo levado consigo, ao colo, um filho.
Num frenesim leonino, notável em época de leões tão magros, ele queria sobretudo ver o Liedson:
«Que é do Liedson? Onde está o Liedson?»
Enfim, tratou-se, de acordo com o enunciado jornalístico, de um dia muito feliz para aquele sportinguista beirão.
Ah, falta dizer que a vida deste homem não tem corrido especialmente bem. Está desempregado e tem uma família a seu cargo.
Agora, digo-vos: sou incapaz de levantar um só dedo contra a pontual alienação em que, como aquele concidadão entusiasmado, incorremos todos, uma vez por outra: futebol, alguma literatura, sono, religião, certa música, viagens em busca do sol, converseta de amigos sobre nenhum sonho em especial, televisão.
É que a realidade é insuficiente, senhores. De vez em quando, sabe bem voar para lá (ou para cá) da brutidade quotidiana. Como diria o meu amigo Daniel, antes isso que andar na droga.


Ribeira de Pena, 27 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem-supra foi colhida – com a devida vénia – em http://desporto.sapo.pt.]

Lírica psico-hípica


Cavalo que ouço correr
Na noite de estar inquieto
É como alguém a morrer
Cansado de estar inquieto;

Cavalo da solidão
Dos sonhos do meu penar –
Cavalga na minha mão
Não deixes de cavalgar;

Cavalo das minhas veias
De ininterruptas corridas
Sonha os sonhos que me anseias
Sara a dor destas feridas;

Cavalo do meu pensar
Cavalo do meu penar
Cavalo do meu esperar –
Não deixes de cavalgar.



Ribeira de Pena, já 27 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão deste poema foi originalmente escrita em 1996, integrando – então – o volume Milésimo de Torga. A imagem-supra (capa do single “Cavalos de Corrida”, dos UHF) foi colhida – com a devida vénia – em http://www.cultkitsch.org/musica/tugas.]

Breu de Bragadas


À noite, por Bragadas, se houver vento
O olhar é cego como Camilo sem morte.



Ribeira de Pena, já 27 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão deste poema foi originalmente escrita em 1996, integrando – então – o volume Milésimo de Torga.]

terça-feira, 25 de maio de 2010

Possibilidades de Chuva


Viagem de automóvel, fim de tarde.
Diviso na paisagem, para lá das árvores e dos montes, um lindo céu de Maio com nuvens de muitas formas: há o mapa de Portugal, um velho de longas barbas, um girassol cinzento, um gato adormecido, uma chaminé virada para baixo, um coração assimétrico como o que eu talvez desenhasse.
Às cinco e meia, chove sobre a região de Basto.
Sinto bem no corpo, entre o carro e o Café, esta evidência física. E intimamente espero que a água vinda do céu sobre mim seja, entre tantas possibilidades, aquela assimetria de amor.


Ribeira de Pena, 25 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Ler Fotografias


Durante uma noite quase inteira, estive a ver fotografias de família. Era uma espécie de arca carregadinha de álbuns e de avulsos rectângulos a cores ou a preto e branco e, a princípio, andei por ali como quem só está de passagem. Mas, como acontece com certos frutos (denotativos ou simbólicos), acabei por me demorar, entregue à volúpia característica dos vícios.
Vi lugares que nunca mais me viram. Revi rostos que são já definitivamente outros (e isto inclui o meu). Vi vivos que mudaram de condição. Vi a minha mãe, num sítio onde nunca pude estar, sorrindo com esperança no futuro. Vi cães, saltitantes personagens da minha infância, que já morreram. Vi casas onde estive e onde a vida era tão novidade. Vi o meu pai vestindo-se à pressa, com ar maroto, junto a nós, muito longe de imaginar a sua ausência à nossa roda. Vi a minha filha tão antes de ser demasiado grande para trazer ao colo. Vi a minha namorada num degrau da casa madeirense onde talvez lesse as minhas cartas de seduzir.
Deitei-me quase de madrugada, aflito como quem perdeu subitamente o pé na profundidade do tempo. Custou-me a adormecer. A minha mulher perguntou-me se eu estivera a ler, e eu disse-lhe, sem mentir, que sim.
Gosto de fotografias, isso é certo. Parecem-me muitas vezes mais vivas que eu olhando-as. Tantas vezes, é como se reconhecesse a minha verdadeira vida naquela imobilidade de ontem.

Coimbra, 24 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho

Pergunta de algibeira (2)


Alguns senhores importantes acham que o Estado resolve o seu problema (aliás, nosso problema) reduzindo a despesa. Isto significa, em especial, cortar em salários (públicos e privados) e em serviços (sobretudo, públicos). O Estado explica as suas medidas mais ou menos nestes termos: não há dinheiro, não se paga. Ou: não há receita, não pode haver despesa.
Vista a coisa do lado de quem trabalha, a solução tem consequências: se já havia pouco dinheiro em seus bolsos humildes, agora passa a haver menos. E apetece perguntar: se tomarmos para nós o raciocínio – não há dinheiro, não há despesas -, podemos cancelar ou diminuir os pagamentos ao Banco, à empresa de leasing, à EDP, ao supermercado, etc.?
Dizem-me que não.
De modo que a diferença entre o Estado e nós está em que, se nós não pagarmos, vamos presos.

Coimbra, 23 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho