Bússola do Muito Mar

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Circunstancial



As flores que nasceram antes de mim não me dizem respeito: não cheguei a espantar-me com a sua beleza, nem a embriagar-me do seu perfume.
As flores vindouras não me dizem respeito, exactamente pelas razões que aduzi para as passadas.
Mas as do meu Presente são minhas e não as dispenso. Não sou inteiramente eu sem o que delas (e nelas) vejo, sem a sua fragrância que me incendeia os sentidos, sem o aveludado céu de si por onde me roço.
Só involuntariamente venero as flores de ontem e as de amanhã: é quando trato das flores de hoje, celebrando-as e perpetuando-as com o meu corpo passageiro e o meu amor circunstancial.

Vila Real, 30 de Janeiro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.vida-rural.pt.]

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Trás-os-Montes


Naquela terra, era normal os poetas subirem a um monte cheio de árvores e flores para, em silêncio, ficarem horas inteiras a observar a longínqua praia. Era também comum ver sair dos olhos dos poetas (de cada poeta) uma gaivota que, como se de versos voadores se tratasse, batia asas rumo ao mar distante.
Quando um forasteiro passeando pelo areal se dava subitamente conta de certo bando de gaivotas mergulhando nas ondas, vindas todas de uma montanha a vários quilómetros dali, perguntava sempre:
- O que é isto?
E os locais respondiam-lhe invariavelmente o mesmo:
- São poetas com saudades do mar.
[…]
Mais à noite, os meus olham fecham-se, reabrindo-se de manhã com olheiras à volta. As olheiras são o reflexo da gaivota dentro da minha cabeça, antes do voo.

Vila Real, 06 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.geografia-psol.blogspot.pt.]

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Esparsa sobre Ver


A semiótica dos olhares é uma arte antiga e especiosa. Expoentes dessa exegese não conheço melhores do que algumas mães muito amantes de seus filhos, alguns homens e algumas mulheres muito amantes uns dos outros, e – perdoai-me os que chafurdam apenas na prosa da vidinha - alguns poetas muito amantes da poesia.

Ribeira de Pena, 30 de Abril de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.croissantauchocolattt.blogspot.com.]

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Milésimo de Torga (1)


Granito

O granito é o chão do destino, bruto e terno como um pai: ampara e dói, e não desaparece senão para morrer.
Há no granito qualquer coisa de eternidade. Pelo granito vai-se ao futuro ou regressa-se ao princípio de tudo.
Não há talvez no granito matéria de estrelas, nem poéticos pretextos de sonhar. Mas no granito se fundam os pés de agora. No granito começa a presente possibilidade dos passos.
É no granito que se constrói, aqui, a casa de resistir. Com o granito se faz, agora, a casa de permanecermos.
As estrelas ficam mais além, mas só existem porque há chão.


Ribeira de Pena, já 6 de Maio de 2010.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma 1.ª versão deste texto foi publicada em 1996. Fazia parte de um volume a que chamei Milésimo de Torga.]