Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

domingo, 30 de dezembro de 2012

Uma Morte Súbita: J. K. Rowling sabe contar, iô!


A MP e a VL ofereceram-me Uma Morte Acidental (título original: The Casual Vacancy), de J. K. Rowling, Lisboa, Editorial Presença, 2012. Os jornais tinham anunciado a primeira obra “para adultos” desta autora, o que já era motivo razoável de curiosidade; mas a mim interessava-me sobretudo perceber – mais do que isso: confirmar – que o talento de bem engendrar e de bem contar histórias não se esgota num público-alvo específico (etário ou outro). Sim, eu lera alguns livros da saga Harry Potter e encantara-me já com a evidente capacidade de invenção de plots e com a brilhante destreza narrativa de Rowling. Tratava-se agora, segundo anunciavam os jornais, de uma obra de cariz realista, com personagens e contextos da actualidade. Adivinhei que vinha aí coisa válida e, para o Natal, sugeri à MP e à VL este presente.
É um volume com 497 páginas, aviso. Mas desde o primeiro capítulo que a teia mágica da intriga nos agarra. Aprendemos os nomes e os tiques de umas vinte personagens, familiarizamo-nos rapidamente com uns dez (ou mais) cenários de acção, partilhamos ou abominamos algumas idiossincrasias particulares de uma cidadezinha inglesa (que me pareceu, por vezes, uma aldeia de Júlio Dinis) e, enfim, tornamo-nos moderados habitantes de Padford.
À roda da morte súbita de um notável da cidade (odiado & amado por outros notáveis), constrói-se um novelo riquíssimo de histórias - que passam por ridículas ambições políticas (à Eça), pela fome de brilho mundano (à Garrett), por certa degradação neo-realista da sociedade moderna (à Soeiro Pereira Gomes), pela violência doméstica (à Lídia Jorge), pelo mistério de laços familiares (à Camilo), pelo amor (à Yourcenar) e pela tocante fragilidade de que somos todos feitos (à Vergílio Ferreira).
O estilo de Rowling é simples e competente (à Júlio Dinis, à David Lodge), preterindo eventuais grandes arroubos de linguagem em favor da clareza da história, das histórias.
Para mim, que ando à procura de escrever o (meu) romance sonhado, a obra de Rowling recordou-me algumas noções fundamentais sobre este território genológico – nomeadamente, a importância de tornar familiares os espaços literários da intriga (“familiares” não significa conhecidos, note-se; significa “reconhecíveis” no universo da obra), a importância de distribuir generosamente a atenção do narrador por várias personagens, complexificando-as (de modo a aproximar cada ser ficcional da condição complexa e rica de seres humanos), a importância do saudável convívio e  concomitância entre acção principal e acção secundária (ou “acção” e “intriga”, como diria Carlos Reis; ou “intriga nuclear” e “intriga periférica”, como escrevi eu próprio, na minha tese sobre Júlio Dinis).
De menos positivo, para além da obediência ao novo acordo ortográfico, talvez o facto de a narração compreender demasiados casos dramáticos (e até trágicos), o que – num contexto geral representativo de certa rotina existencial – é susceptível de banalizar (e, ergo, de comprometer, desvalorizando) o acontecimento extraordinário.
Li Uma Morte Súbita entre as duas horas do dia 25 e as sete horas de hoje, dia 29. Quando acabei a leitura, já a luz decembrina da minha rua iluminava o quarto. E a própria luz romanesca era, como agora percebo, tão fresca como aquela manhã.

PS: A tradução desta obra foi certamente difícil. Gostei do modo como se representou-enunciou, em Português, a variedade de registos linguísticos, os regionalismos e o calão. Também a escolha de Uma Morte Súbita para título é um verdadeiro achado. Contudo, talvez pressionada por alguma urgência editorial, a equipa de tradutores (Alberto Gomes, Manuel Alberto Vieira, Marta Fernandes e Helena Sobral) fez, aqui e ali, várias opções manifestamente desaconselháveis (sublinhei cerca de quinze casos de tradução menos feliz). Mas são, repito, 497 páginas – e nisto de avaliação de traduções é tudo tão subjectivo…

Coimbra, 29 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Coração contra o frio (2 apontamentos)



1. Algures entre o entardecer e a noite, uma voz interroga-me: "Existes para quê?" A minha resposta é um murmúrio silente: "Para proteger aqueles que amo." A voz ri-se do que digo e insiste: "Para os protegeres de quê?" Quase nem preciso de pensar: "Do frio." Talvez por nesta altura haver em Coimbra uma temperatura amena,  a voz transforma-se numa gargalhada cínica: "Do frio? De que frio, ó triste?" Respondo como quem faz um resumo da sua biografia essencial: "Existo para proteger aqueles que amo do frio do mundo."

2. A minha mãe foi abordada na igreja, ainda antes do início da missa, por um velhinho frágil, muito magro, quase transparente (mais velho, notai, que ela própria). O senhor trazia consigo umas dezenas de papéis. E ele mesmo explicou que se tratava de orações, por si copiadas à mão, numa elegante caligrafia como já não se usa. Levava os dias a passá-las para quartos de folhas A4 e, depois, distribuía-as por transeuntes. Deliberadamente fugia a fotocopiar as orações por tal não ser "a mesma coisa". A oração tinha de - explicou - passar primeiro pelo seu coração. Como se, digo eu, a sua mão direita caligrafasse as preces.

Coimbra, 26 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Discurso talvez do meu Pai para mim em altura de ocaso

Sobre o delicado chão do presente, caminho.
Vislumbro, algures no que há-de ser, uma porta em forma de meia lua.
Escuta, filho: é ali o fim dos meus passos, mas não do caminho; é ali o fim do presente, mas não do tempo; é agora a minha última noite, mas não a nossa.

Arco de Baúlhe, 19 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cpantiguidade.wordpress.com.]

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Semiótica d'amor

A literatura só fala
Com quem bem a entender
E é preciso amá-la
Para a perceber.

Ribeira de Pena, 17 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Thomas Mann) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.escenastur.com.]

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Relógio à chuva

Dói-me o fascismo das horas passando
O falecimento sazonal das flores -
Breve a vida ardendo em lume brando
Pulcra a finitude dos amores.

Cabeceiras de Basto, 13 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.caosfilosofico.blogspot.pt.]

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Coisas com pessoas


A Professora Lepecky ensinou-me que, na narrativa, o espaço é um lugar semantizado, isto é, um lugar devindo coisa com significado devido, atentai, à presença de humanidade.
Assim na nossa vida, digo eu, mas não apenas com sítios, também com objectos, datas, ideias. Sei disto quando me ponho a pensar na ideia de esperança e, por dentro da palavra, surge a minha mãe, o meu (falecido) pai, o meu (falecido) sogro, o meu (falecido) cunhado. Ou quando me ponho a pensar em Natal e dou de caras com o meu avô em estado de saudade, já não deste mundo  (o meu avô que, digo-vos, era o meu Natal mais verdadeiro). Etc.
Hoje, por exemplo, dei também por mim a olhar, manhã cedo, para raios de sol rompendo entre nuvens, gaiteiros como espíritos renitentes ao inverno - e lembrei-me logo do Mestre João que dizia, sobre a sua Igreja, que não tinha tecto.

Arco de Baúlhe,  11 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Convite simples para ler Poesia



A poesia é feita de corações em forma de linguagem
Ou da luminosa inteligência soando como grito.
Às vezes, é a música dos passos em viagem
Ou o regaço sereno do mar infinito.

O poema és tu, sou eu, a humanidade:
As dores ou os sonhos que há em nós
A palavra certa, a grata verdade
A música dos versos, nossa voz.

O poeta revela-se revelando-nos também -
O poema é o verso e o reverso de si.
Lemos mais do que o poeta, se o lermos bem:
Olha ali a sua vida, olha nós ali.

Arco de Baúlhe, 07 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Contributo para a promoção da leitura, feito no âmbito do meu trabalho
na Biblioteca da Escola Básica de Arco de Baúlhe)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Ave, Vita - Morituri te Saluntant

Desde sempre, vejo as estações de comboios e os aeroportos como lugares muito belos e – sem contradição nenhuma –  terrivelmente tristes. É nestes territórios de humanidade avulsa que sinto aquela absurda vontade de sofrer dita em verso, por Cesário Verde, a propósito do entardecer lisboeta.
Em visita (benigna) ao I.P.O., acompanhando familiar, voltei a sentir, hoje, algo semelhante. No regresso a Ribeira de Pena, reflicto sobre a coincidência sensacionista: em que medida aqueles corredores são uma espécie de estação ferroviária ou de aerogare?
Surpresa nenhuma. Creio que tudo, como sempre, tem que ver com a mortalidade. Frágeis, leves, voláteis, transitórios, indefesos – ali vejo seres, como eu, partindo ou vendo partir. Encontrando-se, desencontrando-se, despedindo-se.
Voltarei ao I.P.O. daqui a um ano, segundo a agenda das consultas. Talvez aí nos reencontremos, queridos contemporâneos. Ou não. Repito: talvez.
Talvez é um delicado monumento linguístico à esperança, mas admite já a ominosa possibilidade da decepção. Uma ponte de cristal entre acreditar e resignarmo-nos. Entre sermos e termos de, um dia, deixar de ser.
A rua da minha infância, quando havia vento, trazia os murmúrios de comboios indo e vindo. O nome popular desta Estação de Coimbra-B é Estação Velha (dita velha, notai, desde a meninice de quem a agora, maduro, a recorda). E ocorre-me que essa é uma adequada designação da própria Vida: Estação Velha desde que nascemos.

Ribeira de Pena, 06 de Dezembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.verride.blogspot.pt.]

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Santa Cruz


Para a MP (e para a VL)

A vida tem sido, apesar de tudo, uma augusta rua.
A viagem, não obstante tantos danos e tantas dores, tem sido amável e certa como poucas.
A casa fez-se e, embora etimologicamente imperfeita (e ainda não paga), tem o odor conhecido da una pele familiar.
De modo que comprei três rosas. Três alegres rosas. Três tiros lindos contra o frio, a distância e o medo do futuro.

Ribeira de Pena, 03 de Dezembro de 2012 (29 anos depois).
Joaquim Jorge Carvalho
[As imagens foram colhidas, com a devida vénia, em - respectivamente - http://www.segredosdecoimbra.blogspot.pt. e http://www.imagens.face.com.]