Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

terça-feira, 31 de julho de 2012

Ganhar a vida



Durante a manhã, ouvi uma bela reportagem da TSF sobre gente que, cansada de trabalhos pouco estimulantes, de trabalhos sem futuro, ou da falta de trabalho, decidiu apostar em modos menos convencionais de trabalhar e de "ganhar a vida". Denominador comum era a ideia de se perseguir, tanto (ou mais) do que a mera subsistência, a felicidade, o bem-estar, a paz de cada um consigo próprio.
Entre outros, avultava o exemplo de João Quadros (escritor-argumentista que alimenta, com textos por vezes geniais, alguns dos melhores humoristas da nossa praça como Herman ou Bruno Nogueira).
Este autor foi em tempos gestor de recursos humanos numa empresa (isso ou coisa que o valha). Certo dia, durante uma reunião muito grave & séria, pensou na possibilidade de ir - um dia - para a Suíça trabalhar nas vindimas. Subitamente, deu por si a pensar: "E se fosse agora mesmo?"
De modo que pediu para ir à casa-de-banho e não voltou lá.
De acordo com o seu testemunho, João Quadros é, hoje, feliz. Diz que cada um deve fazer profissionalmente aquilo que lhe dá prazer e, sobretudo, aquilo em que acha que é melhor.
Eu decidi ser professor porque acreditei (e, vá lá, ainda acredito) que é neste território que posso ser feliz e repartir com os meus contemporâneos parte significativa das minhas principais qualidades.
Mas já me aconteceu, desde que David Justino foi ministro, e depois a inenarrável Maria de Lurdes Rodrigues, e depois outros, pensar nas vindimas. Talvez um dia peça para ir à casa-de-banho...

Coimbra, 31 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ionline.pt.]

segunda-feira, 30 de julho de 2012

João, Mestre


Há dois anos, pela hora exacta em que escrevo, eu vi um homem agonizando numa cama do hospital do Funchal. Tinha uma barba de talvez dois dias, o cabelo desusadamente enorme, uma máscara de oxigénio sobre a boca e o nariz, os olhos fechados para o mundo, a respiração ofegante e desesperada como a de um náufrago doutro Noé.
Era o meu sogro. Na Madeira, chamavam-lhe quase todos “mestre João”; não eu, que me habituei a chamar-lhe “senhor João” – e contudo lhe reconhecia, como os demais, essa condição maior de virtuoso e exemplar professor da vida.
Eu e a MP falávamos sobre ele aí pelas seis da tarde do dia 30 de Julho de 2010, passeando melancolicamente pela promenade de Machico. Não sabendo então como dizer a minha falta de esperança em melhoras, optei por me lembrar apenas, em voz alta, de episódios pícaros ou épicos que o Mestre João protagonizara há (parecia-nos) tão pouco tempo.
Depois, o telefone tocou. Era a L. a dar-nos conta de que falecera o pai, sogro, avô, vizinho, amigo de tanta gente.
Trouxe-me o casamento este bónus nada despiciendo: ter por sogro o Mestre João. Isto é, conhecer um sábio que era santo, um santo que era sábio. E tão profunda impressão me causou, senhores, que é como se este homem bom estivesse para sempre vivo.

Coimbra, 30 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 29 de julho de 2012

Domingo na Tocha (Infinitivo familiar)


Ir à praia ver o mar
Comer frango na floresta
Ler, dormir & passear
Ter a festa que nos resta.
                                               
Tocha, 29 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.sapo.pt.]

Glosa de Ruy Belo





 
É triste no outono concluir
Que era o verão a única estação” (Ruy Belo)

Para sempre quero no Verão viver
E nada mais desejo, amor, em sorte!
O Outono aborrece como envelhecer
E o Inverno é estúpido como a morte.

Tocha, 29 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.norastode ruybelo.blogspot.pt.]

sábado, 28 de julho de 2012

Conversa com o Daniel


Eu dizia-lhe, sobre alguns termos, expressões e arquitecturas sintácticas da sua escrita, que aquilo era a Língua Portuguesa lutando pela sua pureza original. A desesperada Língua Portuguesa resistindo, estrebuchando.
Quase ao mesmo tempo, à roda da ideia dita, coincidimos na imagem de peixes saltando nas redes da praia de Mira, ainda exuberantemente vivos antes de, à falta de mar, morrerem.
E a essa imagem seguiu-se, na minha cabeça, a imagem (bela e trágica) do rouxinol de Bernardim despedindo-se formosamente da vida.
Isso tudo, enfim, para agora vos dizer, sobre a literatura de Daniel Abrunheiro (e sobre a grande literatura em geral), que há nela, quase sempre, uma espécie de despedida esteticamente administrada. A vida dizendo(-se) adeus ao melhor que a vida é. A vida, via linguagem, abrindo-nos janelas para o segredo essencial da vida. Rouxinol desmaterializando-se num fumo de música, peixes acrobatas com saudades do oceano.

PS: Recomendo a visita a http://www.canildodaniel.blogspot.com. Evidentemente.

Coimbra, 28 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.coisinhasdo5c.blogspot.pt.]

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Praça do Coração



O meu coração é uma antiga praça
Com árvores e esplanada ao fundo.
Se passares por lá, amor, abraça
O quanto há aí de nós e mundo
(Posterior, presente, anterior) -
Abraça, ai, a graça desse espaço!
Se passares por lá, ó meu amor,
Dá-me um abraço.

Coimbra, 27 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (foto da Praça da República, Coimbra) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.panoramio.com/.]

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Quadra sobre a dificuldade de lidar com as horas passando


Ao deus da Melancolia
Voto quanto faço-posso:
Saudades de cada dia
De cada dia o pão nosso.

Coimbra, 26 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Queima das fitas. Imagem com cerca de dez anos, refotografada em 2012.]

quarta-feira, 25 de julho de 2012

4 fragmentos da vida urbana




1. Hipermercado

A matriarca distrai-se a verificar algumas minudências técnicas dos iogurtes e, quando retoma a marcha, empurra com a carteira um cartaz que diz “Promoções – 10% de desconto no seu cartão”. Ela bem se apercebe da desarrumação que causou e talvez hesite por um segundo, mas acaba por encolher os ombros e seguir. O filho vai atrás. Não tem mais de doze anos, mas claramente reprova a incúria da mãe. De modo discreto, levanta do chão o cartaz e recoloca-o no lugar onde antes estivera.
A mulher, já na zona dos gelados, chama-o, zangada por ele ter ficado para trás.

2. Estrada

À minha frente, vai um utilitário azul, de matrícula recente. Assisto, enquanto conduzo, a um ataque de fúria do (imagino) marido, que divide o olhar entre a estrada e (imagino) a esposa, gritando e gesticulando como um macaco em guerra. Da pobre destinatária desta ira só vislumbro a cabeleira loira caindo pela esquerda do banco. À rotunda que contornamos ao fundo do Monte Formoso, o homem dá uma espécie de safanão à mulher e, de indicador em riste, vocifera (imagino) ameaças terríveis.
Deixo de assistir ao drama logo a seguir porque tomo o caminho da baixa e o outro carro ruma à auto-estrada.


3. Estação Velha

Uma moça de uns trinta anos grita ao telemóvel. Insulta alguém, obviamente, e noto-lhe por segundos um fio de saliva selvagem escorrendo-lhe dos lábios. Eu e os taxistas ouvimos distintamente, no discurso da rapariga, epítetos como “porco” e “vigarista”, enviados (como pedras) pelo aparelho. Do outro lado, alguém lhe deverá ter dedicado os mesmos mimos porque, ditos pela moça, aparecem na forma enfática de “Tu é que” (“Tu é que és porco”, “Tu é que é vigarista”).
Apesar de tudo, há ali algo de feminino e belo, sobretudo quando ela, talvez para recuperar o fôlego, levanta o rosto para o céu e inspira profundamente.


4. Peões

Um rapaz e uma rapariga (ambos altos – ele vestido sei lá como; ela graciosa como uma gazela no National Geographic, de saia vermelha, comprida e fina, toda colada ao corpo) atravessam a estrada a correr, indiferentes ao claxon de um (talvez) delegado de propaganda médica vestido de Renault Mégane. Ouço-lhes as gargalhadas já no outro lado da avenida, no passeio fronteiro à estação rodoviária.
Ela sacode o cabelo, talvez com calor. Ele beija-a (por mim), como é sua obrigação.

Coimbra, 25 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.panoramio.com.]

terça-feira, 24 de julho de 2012

Reencontro




Há quinze anos que não o via. Foi em tempos um jogador de futebol a quem, nos distritais de Coimbra, se adivinhavam glórias mundiais. Bom conversador, galã emérito e razoável contador de anedotas, muito brilhava no Café Lusa-Nova perorando sobre desporto, mulheres, férias de Verão.
Quando comecei a jogar no União de Coimbra, ele achava que inevitavelmente eu próprio viria a cumprir o seu anunciado destino (entretanto devindo outra coisa, como por norma sucede aos seres humanos). Na sua previsão, eu acabaria num Sporting, num Benfica ou num estrangeiro.
O melhor de tudo foi eu ter conseguido, com apenas dezassete anos, o direito a fazer parte do grupo mais engraçado do Café. Mais velho que eu dez ou onze anos, o A. deixou-me entrar no seu círculo de charlas, rindo-se das minhas piadas e escutando até em silêncio uma qualquer opinião sobre Eça de Queirós. (Disse-me, certa vez, que era para si um completo mistério isto de eu ler tantos livros e simultaneamente gostar de futebol como gostava).
Soube agora que está há uma década em Tenerife e que aí trabalha na área da construção civil. O seu discurso já soa um bocadinho a castelhano verdadeiro (e não tenho a certeza de que o fenómeno seja inteiramente involuntário). Mantém o sentido de humor e, apesar de a cabeleira já lhe rarear e de o penteado muito ter encanecido, lá continua a mirar a paisagem feminina com a gula de um lobo jovem.
Em verdade vos digo: foi um prazer conversar com este amigo, ali pela manhã quente da Rua Visconde da Luz. Regressa a Tenerife no final de Julho e só voltará à (nossa) cidade em Dezembro, se o patrão deixar.
À despedida, rindo, desejo que não sejam precisos outros quinze anos para nos reencontrarmos. Ele exclama:
- Assim não há-de ser! Coño!

Coimbra, 24 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é de Os Amigos de Alex (no original, The Big Chill), filme de 1983 que Laurence Kasdan realizou.]

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Frio

É tão frio quando já é tarde
Tão inverno sermos flores caídas.
É uma profunda dor ser-se só olhar
E trocar-se o amor por fotografias velhas…

É tão mais frio quando já é nunca
E, em vez de sermos, apagamos
A luz.

Coimbra, 23 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[O poema foi escrito em  1997. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.poesiapensamento.blogspot.com.]

domingo, 22 de julho de 2012

Corrida


Corre enquanto o corpo preste
(Do Choupal a nunca mais).
Mal sabes de onde vieste
Nada sobre aonde vais!

Coimbra, 23 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cantigasdomaio.blogspot.pt.]

sábado, 21 de julho de 2012

Beijinho à Odete

A professora Odete Figueiredo é minha colega na Escola Básica de Arco de Baúlhe. Ao longo de uma década, habituei-me a ouvi-la falar de sua mãe. Percebi que se tratava de uma preocupação constante, apenas equiparável – no meu imaginário – à que sinto pela saúde e bem-estar da minha única filha.
Com os anos, bem sei, tornamo-nos encarregados de educação (também) dos nossos pais. E estes, com o tempo, tendem a tornar-se frágeis como cristal muito fino.
A Odete andava há algum tempo com aquela tristeza que os humanos inevitavelmente sofrem perante a inevitabilidade do fim de quem amamos.
Soube que a mãe da Odete partiu ontem. A perda de uma mãe, como a entendo, é um tsunami grande. Um tsunami velho e universal.
Eu estou aqui contigo, Odete, vizinho absoluto da tua Dor.

Coimbra, 21 de Julho de 2102.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto da Odete, durante uma visita de estudo a Ribeira de Pena com os nossos alunos do 7.º ano.]

José Hermano Saraiva, Professor



Sou do 25 de Abril quase da mesma maneira como sou de Coimbra, do Sporting, da minha família e dos meus amigos. E sei que José Hermano Saraiva, ontem falecido, era assumidamente uma pessoa "do Estado Novo".
Dito isto, quero dizer que me habituei a telever e a ler o professor José Hermano Saraiva com invariável sentimento de prazer e admiração.
Não é preciso estarmos sempre de acordo para admirarmos quem é digno da nossa admiração. E nenhuma ideologia ou cartilha de oportunidade podem substituir-se ao meu próprio juízo livre.
José Hermano Saraiva foi um português que, como bem disse um filho seu, ajudou os portugueses a gostarem um pouco mais de si próprios.

Coimbra, 21 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A primeira imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.acorianooriental.pt. A segunda imagem foi colhida na wikipédia.]

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Daniel com Graça









O Daniel Abrunheiro é o maior poeta português vivo e um dos melhores poetas dos séculox XX e XXI. Casou-se hoje com a formosa Graça. Estive no casamento e, mais ou menos por acidente, tive a honra de ser padrinho.
Foi um dia bom e limpo.
Deixai que vos explique este privilégio: se eu tivesse nascido por alturas de 1887, e se Pessoa tivesse chegado a casar com Ophélia (aí por 1930, por exemplo), e se eu fosse amigo muit'antigo do poeta da "Tabacaria", estaria talvez no casamento desse outro génio e a honra seria a mesma. Daqui a um século, irmãos, percebereis o que ora vos digo.
Felicidades, Daniel e Graça.

Coimbra, 20 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Fotos da MP.]

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sete poemas em vez do silêncio

Dia de voltar a Coimbra. Arrumações. Livros e papéis. Papéis para conservar e papéis para deitar no Papelão.
Entre milhares de folhas, salvo (nem sei porquê) algumas com versos (ou rascunhos de versos). Leio-os no silêncio da cozinha, ante os montes habituais. São 11 poemas datados de 1997. Comove-me ouvir a voz de um outr’eu que algures fui. Identifico-me com o poeta aqui e ali.
Enfim, trago sete destes discursos, para já, ao Muito Mar. Não é este um mau destino, se considerarmos a alternativa que era o contentor do outro lado da rua.

POEMA 1: Do Mundo

Sabes, Deus?
O meu problema é a beleza estar tão disseminada –
Custa-me tantinho concentrar o olhar
E o sangue!

POEMA 2: Dos Outros

Vinde até mim pelo lado das virilhas
E contai-me histórias inteligentes,
Sim?
Erectentenderei então a vida
E os outros
E habitarei essa casa maluca de ter saudades.
Se me quereis querendo-vos como devo
Conquistai-me como deve ser.

POEMA 3: Do Amor

O amor é uma flor com dentadura feliz
Em lugares com asas;
O sorriso das flores é prévio a morder
O coração das casas.

Uma metáfora é no amor um trem fértil:
Os moradores de sentir vivem-viajam em trilhos
E habitam o próprio movimento.

A chave de tudo está naquele desejo das flores sorrindo
E na imprudência de olhando-as morrermos devorados –
Tão belas são as mortes perfumadas e às cores!

POEMA 4: Do Régio

Não venhas por aqui,
Diz-me Régio com olhos baços –
E eu olho Régio com olhos lassos
(Há nos meus olhos ironias, não cansaços)
E abro os braços
E voo por ali!

POEMA 5: Do Estatuto do Poeta

O Poeta deve ser possuidor de uma dor verdadeira.
Não sendo possuidor de uma dor verdadeira, deve inventá-la.
Não sendo capaz de inventá-la, deve abdicar de ser Poeta.
Ora isso
(Abdicar de ser poeta por incapacidade de sentir
Ou por incapacidade de inventar uma dor verdadeira)
Dói sempre (verdadeiramente dói)
A um Poeta.

POEMA 6: Da Morte

Morri há minutos.
Escrevo que morri há minutos
Como?
Estou a ver-me morto
Há minutos morto
E alguém (que sou eu)
Segura-me
Evitando que caia.
Aquele que não morri
Parece desesperado,
Mãe.
A morte está ali à porta
Quase irónica (digo:
Quase irónica, mas não:
Parece também hesitante e confusa).
A porta hesita entre fechar-se ou
Não estar ali.

Levanto-me da cama
E escrevo num canto do jornal:
Fazer um poema com isto.

POEMA 7: Da Acta

E nada mais havendo a acrescentar
Deu-se por encerrado este dia
Que depois de querido e gasto
Falecerá às mãos de Deus
E de mim que o secretariei
Aliás sofri.
(Datar e adormecer.)

Ribeira de Pena, 19 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.jornale.com.br.]

quarta-feira, 18 de julho de 2012

In-dependências

Diz-nos a História de todas as seitas que os convertidos mais recentes tendem a ultrapassar, em entusiasmo e militância, os seus mais antigos defensores.
Não por acaso, os chamados cristãos-novos, na Idade Média e até em períodos posteriores (que chegaram, pelo menos, ao século XVIII), eram alguns dos mais diligentes perseguidores de judeus & derivados.
Tratar-se-ia talvez de uma pulsão sobrevivente: os novos “cristãos” quereriam mostrar serviço, provar aos outros (e quiçá a si próprios) que eram tão puros e notáveis como os (insuspeitos) “cristãos velhos”.
Lembrei-me disto ao ver-ouvir Carlos Abreu Amorim, num programa da RTP Informação, no passado dia 16. Indignado com os ataques a Miguel Relvas, o dito Amorim - ex-comentador e novel deputado – acusava a comunicação social, a Impresa, a esquerda (os socialistas e os comunistas) de um conluio genérico e vil contra o ministro.
Por mim, que tenho passado muito tempo a atacar, como posso, o ministro Miguel Relvas, custou-me não haver, naquele catálogo dos perseguidores, um grupo em que eu pudesse incluir-me confortavelmente. Receio que o senhor Amorim não visite o Muito Mar. Mas eu leio-o e ouço-o há muito tempo. Lembro-me dele a atacar gordamente (e com a minha entusiástica concordância) a falta de ética de Coelhos, de Varas, de Sócrates. E, confesso, tenho saudades daquele seu ímpeto crítico e livre.
Percebo que aquele senhor é agora deputado do PSD, vice-presidente do grupo parlamentar. No seu afã de agradar aos novos chefes, ataca até o guru Marcelo, um excêntrico que ousa pensar pela sua própria cabeça.
Custa-me pensar, a posteriori, que aquela antiga independência seria apenas (talvez, talvez) uma obesa candidatura às listas do partido laranja. Pobre Amorim rico.

Coimbra, 17 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dinheirovivo.pt.]


terça-feira, 17 de julho de 2012

Castelos que eram para sempre


Em menino brincava com a areia da praia
em Mira, à beira-mar, no regaço
dos olhos maternos, sob o sol
infinito daquela felicidade original.

Fazia castelos então definitivos, mãe -
E tu eras tão linda como um livro amável:
Vinhas comigo molhar os pés e rias-te
Se a tia Rosário molhasse a saia preta.

Guardei conchas daquele tempo, mãe
(Depois perdi-as). Agora lamento tudo
Sem razão nenhuma senão haver sol
Na nossa rua, mas já não o mar.

Coimbra, 17 de Julho e 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.artexavegapraiademira.blogspot.com.]

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Contrafacção



Como certa roupas, determinados óculos e alguns relógios, há muita poesia de má qualidade e falsa. Incautos espíritos poderão, por instantes, confundi-la com versos sérios e grandes, mas facilmente se descobre a mediocridade do material e a incompetência da confecção. Assim:
a) Vestimo-nos de certos versos e eles não vão bem com a alma (curtos nos sonhos, desajeitados nas mágoas, descosidos na música).
b) Olhamos através deles e vê-se quase nada, ainda que às cores.
c) As horas, essas, nunca estão certas.

O bom gosto é a ASAE da poesia.

Coimbra, 16 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dn.pt.]

domingo, 15 de julho de 2012

A hera de Sophia



Tropeço, quase sem querer, num poema de Sophia, que como quase sempre consegue inundar-me de luz e grandeza. O poema (datado de Maio de 1997) diz:
“A meticulosa beleza do real
Onda após onda pétala a pétala
E através do pano branco do todo
A sombra área da hera
Tecedora incessante de grinaldas.”
(In O Búzio de Cós e outros poemas, Lisboa, ed. Caminho, 1997.)
Recolho daquela música perfeita de versos feitos com olhos, pele, coração e muita muita lucidez, a ideia de o Tempo ininterruptamente se ocupar da Criação. A hera (física e simbólica) representa essa constância. A vida vai-se fazendo, pétala a pétala e onda a onda, consubstanciando-se num certo crescimento – ascendente – entre o chão e o céu.
Mas a minha leitura cruza-se, hélas, com o telejornal, isto é, com crise, desemprego, despudor dos poderosos, pobreza, cínicos mercados. Ocorre-me que o nosso tempo prefere o rasteiro chão ao limpo sol, ao justo céu. Que somos, hoje, uma era sem hera.

Coimbra, 15 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.abencerragem.blogspot.pt.]

História de amor


A prima Marília veio a Portugal vender uma casa e um terreno que o avô Fernandes lhe deixara há vinte anos, nas imediações da Figueira da Foz. Era uma senhora divertida, já idosa, emigrada no Brasil desde muito pequena. O senhor Valter dos correios insistiu muito com a familiar: que viesse a Coimbra para falarem, para elaver a Gracinda, para irem às queijadas de Tentúgal. A resposta foi que talvez, mas puxa, cê sabe, as viagens nessa idade custam p’ra caramba – e depois lá veio mesmo, saindo do comboio à Estação Velha.
Ficou um dia apenas com a família conimbricense. Antes de embarcar no alfa para Lisboa, quis ainda tomar um suminho num Café próximo da residência do primo.
A dona do estabelecimento tinha a bonomia de um inspector da Gestapo. Gritava com a empregada, discutia ao telefone com um fornecedor de cerveja, impacientava-se perante hesitações dos clientes juvenis na hora de escolher a marca de um gelado.
A emigrante no Brasil escandalizou-se com o berro que a matrona ao balcão dedicou à empregada e falou:
- Minha quirida, cê tem dji tê calma, meu bem. Todo o mundo precisa dji amor.
Respondeu-lhe a proprietária, tonitruante como um furacão bíblico:
- Ó minha senhora, temos aqui café, chá, sumos, bolos, sandes, tostas, sopas e salgados. Amor não temos!

Coimbra, 14 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.idetoni.blogspot.pt.]

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sextilha para Soares de Passos


Era de pedra vera
A estrada
Por onde o poeta ia -
E de pedra também era
O coração da amada
Que o não queria.

Arco de Baúlhe-Ribeira de Pena (em viagem), 13 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.infopedia.pt.]

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Parábola das equivalências


Quando disseram ao cábula que o curso era de três anos, ele exclamou:

- Equivalha-me Deus!”

Arco de Baúlhe, 12 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.umsonhochamado matilde.blogspot.pt. Escrevi o  texto a 10-07-2012 e publiquei-o nesse dia em primeira instância, no Facebook.]

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Diabo de greve

- Já viste, pá?
- Hã?
- A greve dos médicos…
- Que é que tem?
- É chato, pá. Prejudica as pessoas. Que culpa têm as pessoas, pá, dos problemas dos médicos, hã?
- Os problemas dos médicos também são problemas das pessoas. A começar pela circunstância de os médicos também serem pessoas…
- Pois sim. Não digo que não, mas…
- Mas o quê?
- Deviam fazer greve sem prejudicar os utentes, pá… Não achas?
- A greve é uma forma de luta. E só resulta se se notar. Isso de greves que não prejudiquem ninguém é uma imbecilidade, desculpa lá…
- Olha, pá, o Diabo é que nunca faz greve…
- Não? Achas?
- Pois, pá. Se o Diabo fizesse greve, como é que nós notávamos?
- Sei lá. Talvez estranhássemos estar o mundo sem problemas…
- Exacto. Corria tudo bem. Diríamos: Ó Diabo!  Algo de estranho se passa…
- Tens razão. Mas o cabrão do Diabo deve ter excelentes condições de vida…Não precisa de fazer greve!
- Hã?
- Pois, pá. Não tem problemas com a saúde, a educação, a habitação, o comer, a justiça…
- Pois sim. Mas da maneira que isto anda, haverá um dia em que o próprio Diabo fará greve…
- Deus queira, pá. Deus queira!

[A imagem (aspecto de Penedono, local onde este textinho nasceu) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.heritage2008.greenlines-institute.org.]

O tio do senhor Valter


O senhor Valter, no regresso ao trabalho, depois do almoço, encontrou aquele homem às portas da estação dos correios. A princípio, nem o reconheceu, mas depois atentou melhor no nariz espalmado e largo do sessentão, no sorriso triste de menino grande, no delta prognato a sul do rosto.
- Tio Joaquim?
Um abraço, uma gargalhada, certos segundos remirando-se. Enfim, o motivo da visita (rara, rara) deste irmão mais novo do pai.
- Precisava que me ajudasses a escrever um requerimento, menino.
Explicou-se melhor. Tinha comprado um carro há dois anos em “leasing” (o senhor Joaquim dizia “lisse”) para ir com a esposa, a ti’Ana, vender hortaliça a Coimbra – ao Bairro Norton de Matos, ao Monte Formoso, ao Casal Ferrão, ao Barrro do Brinca, a Santa Apolónia, à Adémia, aos Fornos. Quando a mulher adoecera, coisa ruim dos ossos, lá diminuira a dedicação aos negócios e, claro, as contas haviam descambado.
- O problema é que, sem carro, não ganho dinheiro que se veja e a minha reforma nem para metade da prestação dá. Se os gajos da Martinloc me reduzissem o valor da mensalidade e me devolvessem a carrinha, eu podia pagar-lhes. Precisava de tempo e de compreensão, né?
O senhor Valter levou o tio ao chefe dos correios, pessoa habituada a reclamações e requerimentos, e transmitiu-lhe, em breves palavras, a angústia do familiar.
- Muito bem – disse o chefe, que estava contente porque a filha conseguira entrar na universidade e a mulher cozinhara, para o almoço, uma massinha guisada que era de a gente comer e ajoelhar-se perante Deus.
Mas fez questão de moderar as expectativas do senhor Valter e do senhor seu tio.
- Não vai ser fácil, senhor Joaquim, embora seja evidente que tem razão. A sua situação é até um exemplo claro do que se passa hoje em Portugal.
- Como? – perguntou o vendedor de hortaliça.
- As finanças estão a matar a economia.
O velho figueirense encolheu os ombros e o senhor Valter desconfiou de que o chefe estava a reproduzir, ali, um artigo qualquer que decerto lera na última página do JN.

Arco de Baúlhe, hora d’almoço, 10de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.devaneiosedesabagos.blogspot.pt/.]

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Arrumações


Domingo, tarde, depois noite.
À pressa, descuidadamente, sem bem olhar para a gaveta, recolho uma camisola e visto-a. É uma camisola muito antiga, como depois percebo, adequada afinal à empresa a que ali me dedico – encaixotar livros, seleccionar papéis para conservar ou deitar fora, ordenar dossiês, proto-preparar as malas de regresso a Coimbra.
A camisola é azul e tem, no canto superior esquerdo, o nobre emblema do Clube de Futebol União de Coimbra (com a cruz de Cristo). Já joguei com um uniforme assim, em manhãs e tardes e noites maravilhosas que, como a mocidade, não voltam mais.
Atravessando o corredor, não resisto e consulto a minha imagem no espelho: barba de dois dias, nuvens brancas disseminadas pelo penteado, olheiras, aquele ricto triste consubstancial à ironia do sorriso. E a camisola: azul coçado, azul velho, um ou outro buraco no lado do emblema (e do coração).
Já tivemos, eu e a roupa, melhores dias. Mas cá estamos, ainda, pele com pele, pregados à mesma cruz de Cristo.


Arco de Baúlhe, hora d’almoço, 09 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (com azuis ídolos de infância) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.retrofoot2.pt.]

domingo, 8 de julho de 2012

Ensaio da inquietação


“Cantanhede, Cantanhede
Tenho sede de aprender
A lição da Novidade
(A lição da Novidade).
Dá-me sede, Cantanhede,
De aprender e de ser
Cidadão da Liberdade
(Cidadão da Liberdade,
Cidadãos da Liberdade)!”

1. Este texto abre com uma epígrafe, como repararam: trata-se do refrão do hino da Escola Secundária de Cantanhede (letra minha, música do colega Aurélio Malva). Segue-se, com vossa licença, uma historieta, que não é minha e – pior – de que nem sei a exacta fonte. Ouvi-a há muito tempo, talvez nos tempos de liceu ou faculdade; reouvi-a há umas duas semanas na rádio, em viagem de automóvel entre Arco de Baúlhe e Ribeira de Pena, glosada por um romancista português pouco conhecido (Afonso Cruz) à conversa com Carlos Vaz Marques, da TSF. Historieta boa, atentai.
2. Uma criança vê, por longos minutos, um escultor a trabalhar, percebendo que do labor esculpido na pedra vai resultando uma forma reconhecível, viva, amável. Volta-se para o seu pai e pergunta-lhe: “Papá, como sabia o senhor artista que, debaixo da pedra, estava um cavalo?
3. A parábola serve para uma inteira biblioteca de interpretações, mas fico-me por esta: o artista busca no todo a parte que interessa, isto é, resgata do caos um pedaço essencial, valioso, significativo de cosmos. Acrescento: a arte é o fruto do trabalho sobre o real, ofício levado a cabo com a imaginação adequada e com aquela pulsão do belo que preside a todo o acto criador.
4. Quero que isto tenha algo a ver com a Escola. Com a nossa Escola. Com Cantanhede, bem entendido, que é a pátria deste formoso boletim. Mas também com a Escola Pública em geral, esse território em que, avulsos e díspares, nos reunimos em busca de um objectivo comum e consensual: a educação dos nossos alunos, a partilha de conhecimentos, a descoberta de competências, a preparação (tanto quanto possível, justa e virtuosa) do futuro.
5. Vivem-se tempos difíceis. Temo, com muitas razões para esta amargura, que a Escola esteja em vias de extinção. Escola, percebei, como nós (românticos até à medula) a entendemos, a entendíamos. A fúria da poupança orçamental comporta o perigo de confundirmos ideais por que pugnámos nas últimas décadas com alguma substância acessória e descartável. Estou a falar, sobretudo, de cultura. Estou a reagir, por instantes, à nova estrutura curricular prevista para o ensino básico e secundário que deixa ao livre arbítrio dos estabelecimentos de ensino a existência de Educação Artística. E estou a falar também do insuportável aumento do número máximo de alunos por turma (até 30!) que tornará impossível, por exemplo, a aprendizagem séria de uma língua estrangeira.
6. Creio que uma Escola Pública de qualidade, a única que justifica o investimento sério do Estado, precisa de não ter medo nem vergonha de gastar – i.e., de investir - muito dinheiro nos recursos humanos e materiais que a tornam possível e digna. E defendo que a organização da Escola nada ganhará com uma reforma que, para cortar alguma despesa, extinga experiências educativas de sucesso, fundindo/confundindo arbitrariamente escolas (e assim ferindo de morte a identidade de lugares, pessoas, projectos), reduzindo a grandeza da aposta nas bibliotecas, tornando as reuniões de qualquer médio departamento num concílio cheio de magno e semiótico ruído, etc.
7. Os mega-agrupamentos são, em meu entender, a face visível de alguma ferocidade tecnocrática do presente, que lê o mundo pelos óculos merceeiros do deve e haver, com inevitável défice de sensibilidade e bom senso. Não se trata sequer de um problema deste governo; é outrossim de vários governos ao longo da história, semelhantes na arte de ignorar opiniões, estudos e conselhos de quem sabe alguma coisa de educação (professores, por exemplo).
8. Um dia destes completarei trinta anos de profissão. O que mantenho de romântico é a fé no futuro e a convicção – inamovível – com que, aula após aula, projecto após projecto, actividade após actividade, trato bem (d)os meus alunos. No pequeno universo de que ainda disponho para ser professor, vou procurando contagiá-los com a minha paixão pelo Conhecimento, pela Língua, pela Cultura, pela Vida.
9. A muitos dos que nos tutelam não faria mal a leitura de alguns autores. Lembro-me, assim de repente, de Steiner para aprenderem um bocadinho sobre a importância da cultura e sobre o significado de “gramática da esperança”. Ou de Sartre, pra recordarem a indispensável condição do conhecimento para se ser livre, e da liberdade para um homem ser verdadeiramente digno da sua condição (quiçá feliz).
10. De modo que o meu texto (talvez o último que tenho a honra de escrever neste boletim) regressa, desaguando, à epígrafe e à historieta com que se fez retoricamente ao mar: é preciso garantir, na Escola, o acesso às artes e à cultura em geral, para que a Escola seja realmente um alfobre de cidadãos da liberdade; é preciso salvar o essencial – fazer emergir um cavalo (ou uma flor) da caótica, bruta, estúpida pedra do mundo.

Arco de Baúlhe, 27 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto foi escrito para o Boletim da Biblioteca da (muito querida) Escola Secundária de Cantanhede que, de acordo com notícias recentes - e, em minha opinião, infelizes - se irá agrupar com Febres. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.escantanhede.pt.]